
O aspeto entre Vénus e Marte pode ser lido como o encontro entre o que acha bonito e o que vai buscar. Na astrologia, Vénus está associada ao gosto, ao afeto e ao jeito de se aproximar; Marte, ao impulso, à força e à iniciativa. Quando os dois formam um aspeto, uma pergunta que aparece em toda a relação ganha forma no seu mapa: o que deseja e o que gosta apontam para o mesmo lugar?
Um aspeto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus. As séries anteriores descrevem cada peça sozinha, o planeta no signo e o planeta na casa; esta olha para o que acontece entre duas delas. A ideia é antiga. Ptolomeu, no Tetrabiblos, explicou os aspetos como frações do círculo, e a tradição guardou cinco distâncias como aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). O par de hoje tem também uma das histórias mais contadas da mitologia. Na Odisseia, Homero canta o caso de Afrodite e Ares, apanhados juntos pela rede que Hefesto, o marido, armou sobre a cama. Os romanos herdaram-nos como Vénus e Marte e fizeram dos dois antepassados da cidade, ela mãe de Eneias, ele pai de Rómulo e Remo. Botticelli pintou-os deitados lado a lado, ele adormecido, ela acordada, como se o desejo descansasse enquanto o afeto vigia.
Os símbolos contam a mesma história de outro jeito. O glifo ♀ é um círculo sobre uma cruz, e costuma ser lido como o espelho da deusa; o ♂ é um círculo com uma seta que aponta para fora, o escudo e a lança. Um recebe e contempla, o outro sai em direção a algo. Há um detalhe bonito nas regências: Vénus governa Touro e Balança, Marte governa Carneiro e Escorpião, e esses signos olham-se de frente no zodíaco, Carneiro diante de Balança, Touro diante de Escorpião. As casas dos dois ficam umas em frente às outras, como se a tradição tivesse desenhado no próprio círculo a conversa entre querer e gostar.
Há um número que decide tudo: o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, que é outra coisa. Marte fica cerca de dois meses em cada signo e Vénus cerca de um, pelo que a conta é rápida e o aspeto muda de uma semana para a outra. Por isso não se descobre pela data: precisa do mapa calculado. E há uma ordem de leitura que ajuda muito: o aspeto vem por último. Descreve uma relação entre duas peças que já estão no seu mapa, e a conversa fica mais clara quando sabemos quem está a falar. O texto o que é um aspeto explica essa conta com calma.
Uma maneira de investigar este par é pensar na diferença entre atração e afinidade. Alguém pode sentir o coração acelerar por um tipo de gente e encontrar paz ao lado de outro, e passar anos a achar que isso é indecisão. Uma leitura possível é que são duas peças com critérios próprios, cada uma a escolher pelo que sabe escolher. Espinosa, na Ética, escreveu que "O desejo é a própria essência do homem." Pensada a partir de Vénus e Marte, a frase convida a olhar o desejo com menos desconfiança: aquilo que nos move diz quem somos. Pascal, nos Pensamentos, acrescentou o outro lado: "O coração tem as suas razões, que a razão não conhece." Entre o desejo que move e o coração que tem as próprias razões, este aspeto pergunta como as duas coisas se entendem em si.
Na conjunção, gosto e impulso juntam-se no mesmo ponto. Podemos ler esta posição como querer o que se gosta e ir atrás. O interesse tende a aparecer de forma direta, a presença costuma ser notada, e o charme vem com iniciativa, sem esperar que alguém o escolha. O ponto de atenção é a pressa com o que demora: é fácil confundir intensidade com compatibilidade, e o começo forte de uma história com a história inteira. Dar tempo ao tempo é justamente o que esta configuração menos tem vontade de fazer, e talvez por isso seja o exercício que mais ensina.
No sextil e no trígono, desejo e afeto andam ao mesmo passo. Talvez namorisque bem, negoceie bem e resolva um desentendimento antes de ele se tornar briga, aquilo a que se costuma chamar jogo de cintura. O custo é mais discreto. Se nunca foi preciso escolher entre o que se quer e o que se gosta, o próprio critério pode ter ficado sem exame, e isso costuma aparecer numa relação em que a facilidade acabou e ainda não havia outro material para continuar.
Na quadratura e na oposição, o gosto e a vontade discutem. Pode acontecer desejar quem não faz bem e entediar-se com quem trata bem; ou ir com força demais e assustar; ou esperar ser procurada e não avisar que está à espera. É dessa discussão que costuma sair alguém que sabe distinguir atração de afinidade. Um exercício simples ajuda: escrever, uma vez, duas listas, o que atrai e o que faz bem. Quase nunca coincidem, e a distância entre as duas mostra o tamanho deste aspeto na sua vida.
Na semana comum, este par pode mostrar-se em sinais concretos, e valem para qualquer aspeto entre os dois, porque o assunto é o mesmo e o que muda é o atrito: sentir atração por um tipo e paz com outro, ser direta quando o interesse aparece, confundir começo intenso com boa relação, entediar-se cedo com quem trata bem, ter uma presença que os outros notam, irritar-se com conquista lenta. Repare no que esta lista deixa de fora. Não chama ninguém de volúvel nem de carente, rótulos que este par carrega e que descrevem o extremo. Só observa que o que atrai e o que faz bem podem ser coisas diferentes.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se escolhemos pelo desejo, conseguimos reconhecer quando ele nos leva sempre ao mesmo lugar? Se escolhemos pela calma, deixamos de ouvir o que nos acende? E quando atração e afinidade chegam separadas, a qual das duas estamos a dar a palavra final?
Essas questões não significam que todo o mapa com Vénus e Marte em aspeto viva tais conflitos. Um aspeto, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspeto distribuem-se entre as duas peças: quase sempre uma está em excesso e a outra em deficiência, e o trabalho começa pelo lado mais fraco.
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Porque se apaixona por quem se apaixona, o que se repete nas suas relações e o tipo de amor que combina consigo.
Vale a pena considerar uma inversão que serve para todos os pares: o que corre sem atrito nunca foi testado, e o que incomoda costuma produzir. O trígono entre Vénus e Marte entrega o resultado com pouco esforço, e por isso o músculo às vezes fica sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: alguém que precisou de examinar o próprio critério para acertar numa escolha, e que por isso escolhe com mais clareza. Neste par, essa inversão costuma mostrar-se só lá pela terceira relação, porque um padrão precisa de se repetir algumas vezes antes de ser reconhecido.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando deixamos de exigir que atração e afinidade cheguem juntas. Muitas vezes isso acontece quando se percebe que a atração pode crescer com a convivência, coisa em que a peça marciana, sozinha, custa a acreditar. Querer continua a ser bom; o que muda é saber distinguir o que acende do que acompanha, e decidir por qual dos dois se está a escolher. Nenhuma idade exata dá conta disso, porque o arco depende do mapa inteiro.
Para ler este aspeto no seu mapa, vale a pena olhar para os signos e as casas das duas peças. Uma Vénus em Touro com Marte em quadratura pode querer calma e procurar fogo; uma Vénus em Carneiro com o mesmo aspeto pode querer fogo e cansar-se dele. A leitura de Vénus nos 12 signos e a de Marte nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e é bom começar por elas. Como os dois andam depressa, este aspeto é individual a sério: dois nascimentos com um mês de diferença já podem ter aspetos diferentes.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Descreve tendências, não faz previsão e não ocupa o lugar do seu trabalho e das suas decisões.
Se quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, o Mapa do amor lê Vénus e Marte junto com a Lua, a casa 7 e o resto do que fala de vínculo. Quando há mais alguém na conversa, a Sinastria amorosa: compatibilidade do casal olha como o seu Marte e a sua Vénus encontram os dela. E a leitura Magnetismo e beleza acompanha a presença que este par costuma dar.
A pergunta que fica é: quando escolhe alguém, quem está a escolher, o seu desejo ou o seu afeto?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Vénus e Marte:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a até 6 graus da distância exata para o aspeto existir. É diferente do signo, que a data entrega, e é por isso que esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso costuma não ser testado, e o músculo pode ficar sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Vénus com Marte diz se eu tenho sorte no amor? Fala de outra coisa: de como o gosto e o impulso funcionam dentro de si, e do que acontece quando discordam. Sorte no amor fica fora do mapa; escolha fica dentro, e este aspeto descreve o critério que escolhe.
Por que eu sinto atração por quem não me faz bem? Uma leitura possível é que quem atrai e quem acalma são decididos por duas peças diferentes, e neste aspeto elas discordam. Escrever as duas listas, o que atrai e o que faz bem, parece exercício de escola, e é o que torna a diferença visível o bastante para escolher.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara quando conhecemos as duas. Se chegou aqui direto, vale a pena passar pelas séries de cada planeta no signo e na casa, e voltar depois: a leitura fica outra.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e com menos força quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, o aspeto entre Vénus e Marte pode ser lido como a conversa entre o que acha bonito e o que vai buscar, um convite a distinguir atração de afinidade e a escolher sabendo qual das duas está a falar. Os signos e as casas das duas peças mostram como essa conversa acontece em si.
Palavras-chave afeto, desejo, atração, conquista
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
