
O aspeto entre Mercúrio e Vénus pode ser lido como o quanto a sua fala foi feita para agradar, e só existe em duas formas: a conjunção e o sextil. Na astrologia, Mercúrio está associado ao pensamento, à palavra e à troca. Vénus, por sua vez, é tradicionalmente relacionada ao gosto, ao afeto e ao jeito de se aproximar. Quando interpretamos um aspeto entre os dois, aproximamos esses campos e chegamos a uma palavra com charme, e a uma pergunta que costuma vir junto: como dizer uma coisa desagradável sem perder a delicadeza, e sem se perder a si mesmo? A capacidade de dizer algo difícil de um jeito que o outro consegue ouvir é uma habilidade valiosa, e ela mora aqui.
Um aspeto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que ajuda a ler se essas peças trabalham em conjunto, se se ignoram ou se se estranham. A tradição chama aspetos maiores a cinco distâncias: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe as duas peças em contacto de um modo próprio, e nenhuma delas pode ser lida como boa ou má em si: cada uma cobra alguma coisa e entrega outra.
Há também um número que muda a leitura: o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam aspeto nenhum. Este blogue usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso temos duas peças no mesmo mapa, sem relação de aspeto entre elas. Por isso um aspeto não se descobre pela data: precisa do mapa calculado. E vale uma ordem de leitura: o aspeto costuma vir por último, porque descreve uma relação, e é difícil ler uma relação sem conhecer as duas partes.
Neste par há um detalhe astronómico que muda tudo: Mercúrio e Vénus nunca se afastam muito um do outro, então este aspeto acontece de perto ou não acontece. A hora do nascimento pesa menos aqui do que nos outros pares, porque os dois andam devagar em relação à Lua; a casa em que eles caem, porém, depende do minuto, e ela muda a leitura.
A quadratura e a oposição entre Mercúrio e Vénus não existem, e quem decide isso é a órbita. Quadratura e oposição pedem 90 e 180 graus de distância, e as órbitas de Mercúrio e de Vénus não permitem: a separação máxima entre os dois, medida ao longo de dois séculos, é de 73,6 graus. Pelo mesmo motivo o trígono, que pede 120, também não existe. Dos cinco aspetos maiores, este par forma dois. Textos sobre “Mercúrio em quadratura com Vénus” circulam bastante, e o engano é compreensível: quem monta uma série de aspetos costuma partir de uma tabela com todos os pares vezes os cinco aspetos, e a tabela não sabe de astronomia. Por isso vale ler, em seu lugar, a distância real entre os dois no mapa calculado, que é o que de facto varia neste par.
Os dois símbolos têm histórias longas. Mercúrio foi associado na Mesopotâmia a Nabu, o deus dos escribas, e na Grécia a Hermes, que levava recados entre os deuses e os homens. Vénus foi Ishtar na Mesopotâmia e Afrodite na Grécia, e aparece ora como estrela da manhã, ora como estrela da tarde. Os dois andam sempre perto do Sol, e por isso perto um do outro: o mensageiro e a deusa do encanto quase sempre viajam juntos. A própria ideia de aspeto é antiga: no Tetrabiblos, Ptolomeu já descrevia as figuras que dois astros formam quando a distância entre eles divide o círculo do zodíaco em partes iguais, e é daí que vêm o sextil, a quadratura, o trígono e a oposição.
O desenho dos glifos ajuda a pensar o encontro. O ☿ costuma ser lido como o caduceu de Hermes: um círculo, com um crescente em cima e uma cruz em baixo. O ♀ é o espelho de Vénus, um círculo sobre uma pequena cruz. Os dois glifos partilham o círculo e a cruz, e o de Mercúrio só acrescenta o crescente. Mercúrio rege Gémeos, de ar, e Virgem, de terra; Vénus rege Touro, de terra, e Balança, de ar. Os dois dividem os mesmos elementos, e Balança, o signo da balança, talvez seja o lugar onde melhor se vê a palavra feita para conciliar.
A pergunta humana que mora neste par talvez seja: quando a gentileza ajuda a verdade, e quando a esconde? La Rochefoucauld, nas Máximas, escreveu: "As nossas virtudes são, quase sempre, vícios disfarçados." Pensada a partir de Mercúrio e Vénus, a frase convida a olhar a delicadeza com honestidade: às vezes é cuidado com o outro, e às vezes é a forma elegante de adiar uma conversa que precisava de acontecer.
Uma maneira de investigar esse aspeto é observar a própria semana. Alguém pode escolher a palavra pelo som, além do sentido; desmontar uma discussão com uma frase; adiar a conversa desagradável; embrulhar a crítica até ela sumir; escrever bem bilhete, recado e pedido de desculpa; incomodar-se mais com o jeito grosseiro do que com o conteúdo. Esses sinais valem para as duas formas do par.
Baltasar Gracián, no Oráculo Manual, deixou um conselho que conversa com este par: "Não basta a substância: requer-se também a circunstância." Podemos pensar que Mercúrio cuida da substância e Vénus da circunstância, e que o desafio é manter as duas: o jeito bonito de dizer, e a coisa dita por inteiro.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se sabemos agradar com palavras, conseguimos dizer o que não agrada? Se embrulhamos a crítica com tanto cuidado, ainda é possível que o outro a encontre? E quando ninguém entende o que quisemos dizer, percebemos que fomos nós que preferimos não deixar claro?
A conjunção junta pensamento e agrado. Uma leitura possível é a de alguém que fala bonito e sabe disso: escolhe a palavra pelo som, desmonta discussão com uma frase e é bom a escrever discurso e pedido de desculpa. Muitas vezes ouviu a vida toda que tem jeito com as palavras. O custo pode ser a dificuldade com o assunto feio: adiar a conversa dura, embrulhar a crítica em tanto algodão que a mensagem se perde, e depois irritar-se porque o outro não entendeu. Como os dois andam perto, muita gente tem a conjunção, e ela sozinha diz pouco; o signo, a casa e o resto do mapa é que individualizam.
O sextil dá facilidade com a palavra sem a vaidade dela. Aqui, agradar costuma acontecer sem depender disso: negociar bem, escrever com clareza e ser chamado para dar o recado difícil justamente porque o recado chega inteiro. A gentileza convive com a verdade. O custo é pequeno neste par: quem sempre foi bem recebido talvez não tenha treinado o que fazer quando não for, e uma reunião hostil ou um público difícil pode apanhar sem repertório.
Essas questões não significam que todo mapa com Mercúrio e Vénus em aspeto viva tais conflitos. Um aspeto, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. Elas são caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos de Mercúrio e de Vénus. Em vez de afirmar que alguém é falso ou evasivo, dois rótulos que este par costuma carregar e que descrevem o extremo, podemos investigar a relação entre palavra, encanto e clareza.
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Há uma inversão que vale para todos os pares: o que corre sem atrito pode nunca ter sido testado, e o que incomoda costuma ser o que produz. Neste par ela aparece de outro jeito, porque não há aspeto tenso: o custo do fácil não tem contrapeso dentro do próprio par, e o treino em dizer coisa dura costuma vir de fora, de Marte, de Saturno, ou da vida. É um dos poucos pares da série em que a lição mora fora do aspeto, e vale dizer isso em vez de inventar uma tensão que a órbita não permite. No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Num aspeto, costumam distribuir-se entre as duas peças: muitas vezes uma está em excesso e a outra em deficiência, e o cuidado começa pelo lado mais fraco.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando se aprende a dizer não com a mesma elegância com que se diz sim. Muitas vezes isto acontece depois de uma situação em que a delicadeza custou caro: um combinado que ficou vago porque ninguém quis ser direto, e que cobrou depois. O amadurecimento aqui passa menos por endurecer e mais por descobrir que a clareza também é uma forma de gentileza, muitas vezes a mais generosa. Cada mapa tem o seu tempo para isso.
Para ler esse aspeto no seu mapa, vale a pena olhar em que signos e em que casas as duas peças caíram. Mercúrio e Vénus juntos em Gémeos podem ser lidos como alguém que encanta a falar; os mesmos dois em Capricórnio, como alguém que agrada pela precisão. As séries Mercúrio nos 12 signos e Vénus nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e são a leitura que vem antes desta.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Nada disto é previsão: descreve tendências, dá nome ao que já se vive e não decide nada no seu lugar.
Se quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Magnetismo e beleza olha para o encanto que exerce, inclusive pela palavra. E Mapa vocacional investiga onde essa habilidade de conciliar e de dizer bem costuma render no trabalho.
A pergunta que fica é: o que deixou de dizer esta semana para não desagradar?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Mercúrio e Vénus:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e o grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a menos de 6 graus da distância exata para o aspeto existir. O signo, a data costuma entregá-lo; o aspeto pede o mapa, e é por isso que esta série começa por ele.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso pode nunca ter sido testado: a habilidade vem pronta, e a falta de treino nota-se no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma pôr alguém a trabalhar. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Por que Mercúrio e Vénus não formam quadratura? Porque os dois nunca se afastam mais de 73,6 graus um do outro, um valor medido, e não estimado. A quadratura pede 90, a oposição pede 180 e o trígono pede 120. Dos cinco aspetos maiores, este par forma dois: a conjunção e o sextil.
Isso quer dizer que o par é pouco importante? Quer dizer que tem duas leituras em vez de cinco. E são leituras muito comuns: como os dois andam perto, boa parte das pessoas tem uma delas. O que individualiza é o signo, a casa e a conversa dos dois com o resto do mapa.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e é difícil ler a relação sem conhecer as duas. Se chegou aqui diretamente, vale a pena passar pelas séries de cada peça no signo e na casa e voltar depois; a leitura muda.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e pesa menos quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença costuma ser uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É também aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece antes de qualquer outro lugar.
Em resumo, o aspeto entre Mercúrio e Vénus pode ser lido como o encanto da palavra, e só acontece como conjunção ou sextil, porque os dois nunca se afastam mais de 73,6 graus. A conjunção junta pensamento e agrado, o sextil dá gentileza sem perder a verdade, e o treino em dizer o que desagrada costuma vir de outras partes do mapa.
Palavras-chave palavra, agrado, conjunção, sextil
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
