
O aspeto entre Vénus e Júpiter pode ser lido como o tamanho do que quer receber, e do que oferece. Na astrologia, Vénus está associada ao afeto e ao prazer; Júpiter, àquilo que aumenta tudo em que toca. Quando os dois formam um aspeto, o gosto ganha amplitude, e costuma aparecer alguém caloroso, generoso e de grande apetite por comida, por gente, por conforto e por promessa. A pergunta que este par coloca é a da medida.
Um aspeto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e descreve como se dão uma com a outra. Ptolomeu, no Tetrabiblos, explicou os aspetos como frações do círculo, e a tradição guardou cinco distâncias como aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Na mesma tradição, Vénus e Júpiter são os dois benéficos, Vénus o menor e Júpiter o maior, e foi por isso que o encontro dos dois passou séculos a ser chamado de sorte. Júpiter é o Zeus dos gregos, o rei que distribui e que também exagera; Vénus é Afrodite, a deusa do encanto. Juntos, na imaginação antiga, formavam a cena da fartura.
O glifo ♃ costuma ser lido como um crescente que se ergue sobre a cruz, a alma que se expande acima da matéria; o ♀ é o círculo sobre a cruz, o espelho da deusa. Júpiter rege Sagitário e Peixes, e é em Peixes, a casa dele, que Vénus fica exaltada: a tradição já tinha colocado o afeto no seu ponto mais alto dentro do território de Júpiter. É uma imagem bonita, e é também um aviso, porque aquilo que se expande não traz medida própria.
Há um número que decide se o aspeto existe: o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, que é outra coisa. Júpiter fica um ano em cada signo, enquanto Vénus muda todos os meses, por isso é a posição de Vénus que decide se há aspeto. Isso pede o mapa calculado, e pede também uma ordem: o aspeto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa. O texto o que é um aspeto mostra essa conta passo a passo.
Uma maneira de investigar este par é pensar na relação entre generosidade e suficiência. Alguém pode dar um presente acima do que planeou, prometer um tempo que não tem e dizer sim só para não desiludir, e chamar a tudo isso bom coração. Uma leitura possível é que o coração é bom mesmo, e o que falta é teto. Epicuro deixou uma sentença que conversa diretamente com este aspeto: "Nada basta a quem o suficiente é pouco." E La Rochefoucauld, nas Máximas, observou que "As nossas virtudes são, quase sempre, vícios disfarçados." Lidas juntas, as duas frases convidam a olhar a fartura com carinho e com atenção: a generosidade que encanta pode ser a mesma que promete o que não cabe.
Na conjunção, o aumento entra dentro do prazer. Podemos ler esta posição como gostar muito, e mostrá-lo. Receber bem, presentear acima do orçamento, fazer o outro sentir-se importante sem esforço: é a presença que muita gente quer numa festa. O ponto de atenção é o excesso de tudo o que é bom, comida, bebida, gasto, elogio e promessa. Quase nunca parece problema no dia; aparece na conta do mês seguinte e na relação em que se prometeu mais do que se queria dar.
No sextil e no trígono, a fartura costuma vir sem estrago. Há facilidade para atrair gente e oportunidade, vontade de partilhar o que se tem e uma boa capacidade de recuperar de uma perda. É agradável de conviver, e isso abre portas. O custo é discreto: talvez nunca tenha sido preciso medir. Se sempre houve sobra, a régua do quanto basta pode não ter sido construída, e o dia em que a sobra acaba chega sem prática de poupança.
Na quadratura e na oposição, o gosto e o apetite discutem. Pode acontecer gastar o que não se tem, prometer o que não cabe e dizer sim para não desiludir. Ou o inverso: recusar por medo do próprio apetite e viver apertada tendo com que se soltar. É dessa discussão que costuma sair alguém generoso que conhece o próprio limite. O ajuste aqui é numérico e sem poesia: um teto combinado antes, para gasto e para compromisso, porque o apetite costuma obedecer mais a um limite escrito do que a uma intenção.
Na semana comum, este par pode mostrar-se no tamanho do que se oferece antes de conferir se é possível. Os sinais valem para qualquer aspeto entre os dois: dar presentes acima do planeado, prometer tempo que não existe, dizer sim para não desiludir, receber gente com fartura, recuperar depressa de uma deceção, confundir generosidade com dificuldade em dizer não. Repare no que a lista deixa de fora. Não chama ninguém de esbanjador nem de interesseiro, rótulos que este par carrega e que descrevem o extremo. Só observa um apetite grande à procura de um teto.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se nos reconhecemos na generosidade, conseguimos dizer não sem sentir que deixamos de ser quem somos? Se esperamos sempre o melhor, como lidamos com a conta que chega depois? E quanto, para nós, seria o bastante?
Essas questões não significam que todo o mapa com Vénus e Júpiter em aspeto viva tais conflitos. Um aspeto, sozinho, não permite afirmar isso sobre ninguém. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspeto distribuem-se entre as duas peças: quase sempre uma está em excesso e a outra em deficiência, e o trabalho começa pelo lado mais fraco.
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Porque se apaixona por quem se apaixona, o que se repete nas suas relações e o tipo de amor que combina consigo.
Vale a pena considerar uma inversão que serve para todos os pares: o que corre sem atrito nunca foi testado, e o que incomoda costuma produzir. O trígono entre Vénus e Júpiter entrega o resultado com pouco esforço, e o músculo pode ficar sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: alguém que já pagou pelo próprio excesso e que por isso oferece o que consegue cumprir. Neste par a inversão deixa rasto em papel, extrato, dívida, promessa cobrada, e por isso costuma ser fácil de reconhecer na própria vida.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando se descobre que dizer não também é uma forma de generosidade. Muitas vezes isso acontece depois de um sim dado por gentileza que se tornou obrigação de meses, e da perceção de que a relação teria continuado de pé com o não. A largueza continua; o que muda é cumprir tudo o que se ofereceu. Nenhuma idade exata dá conta disso, porque o arco depende do mapa inteiro.
Para ler este aspeto no seu mapa, vale a pena olhar para os signos e as casas das duas peças. Uma Vénus em Peixes com Júpiter em conjunção pode dar sem conferir se tem; uma Vénus em Capricórnio com a mesma conjunção pode dar bem e anotar. A leitura de Vénus nos 12 signos e a de Júpiter nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e é bom começar por elas. Júpiter fica um ano em cada signo, por isso o signo dele é quase de turma; o aspeto com a sua Vénus é que é seu, e muda em semanas.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Descreve tendências, não faz previsão e não ocupa o lugar do seu trabalho e das suas decisões.
Se quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, o Mapa do amor lê Vénus e Júpiter junto com a Lua e a casa 7, onde a generosidade costuma encontrar o outro. A leitura Mapa financeiro acompanha o teto e a fartura no lugar em que deixam rasto primeiro, e o Retorno de Júpiter olha para o momento em que esse planeta volta ao ponto de partida e reabre a pergunta da medida.
A pergunta que fica é: o que seria, para si, o bastante, e o que muda quando o sabe?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Vénus e Júpiter:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a até 6 graus da distância exata para o aspeto existir. É diferente do signo, que a data entrega, e é por isso que esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso costuma não ser testado, e o músculo pode ficar sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Vénus com Júpiter é o aspeto da sorte no amor? Uma leitura mais exata é a da abertura, e abertura produz oportunidade, o que de fora parece sorte. O que a tradição costuma deixar de lado é a fatura: o apetite não traz travão próprio, e a mesma generosidade que encanta pode prometer o que não cabe.
Como eu paro de gastar demais com os outros? Com um teto combinado antes, e menos com força de vontade na hora. O apetite deste par obedece melhor a um limite escrito do que a uma intenção. E vale lembrar que dizer não também é generoso: um sim que se torna obrigação de meses custa mais caro para os dois lados.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara quando conhecemos as duas. Se chegou aqui direto, vale a pena passar pelas séries de cada planeta no signo e na casa, e voltar depois: a leitura fica outra.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e com menos força quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, o aspeto entre Vénus e Júpiter pode ser lido como o tamanho do afeto e do prazer em si, uma generosidade larga que pede um teto, e o convite a descobrir quanto é o bastante. Os signos e as casas das duas peças mostram onde essa fartura acontece.
Palavras-chave afeto, tamanho, prazer, excesso
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
