
O aspeto entre Vénus e Plutão pode ser lido como a intensidade que o seu desejo carrega. Na astrologia, Vénus está associada ao afeto e ao gosto; Plutão, ao que desmonta e refaz. Quando os dois formam um aspeto, amar tende a deixar de ser leve: o envolvimento costuma vir inteiro, e essa régua funciona antes de qualquer decisão. A pergunta que este par coloca é o que acontece connosco quando um amor nos transforma.
Um aspeto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e descreve como se dão uma com a outra. Ptolomeu, no Tetrabiblos, explicou os aspetos como frações do círculo, e a tradição guardou cinco distâncias como aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Plutão chegou à astrologia em 1930, quando Clyde Tombaugh o encontrou no Observatório Lowell, e em 2006 a astronomia reclassificou-o como planeta anão, o que não mudou o uso simbólico que os astrólogos fazem dele. O nome é o do senhor do mundo subterrâneo, o Hades dos gregos. E há um mito em que este par aparece de forma quase literal: nas Metamorfoses, Ovídio conta que foi Vénus quem mandou o filho, Cupido, disparar uma seta ao deus dos mortos, e foi dessa seta que nasceu o rapto de Prosérpina. O amor desce ao subterrâneo, e a terra inteira muda de estação por causa disso.
O glifo ♇ aparece de duas formas: as letras PL, que lembram Plutão e Percival Lowell, e um círculo sobre um crescente e uma cruz. O ♀ é o círculo sobre a cruz, o espelho da deusa. A astrologia moderna deu a Plutão a regência de Escorpião, e Escorpião é justamente o signo em que Vénus fica em exílio, longe dos seus domicílios. A tradição já dizia, por esse desenho, que o afeto se sente pouco à vontade onde tudo é profundo, e que precisa de aprender outra língua para amar ali.
Há um número que decide se o aspeto existe: o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, que é outra coisa. Plutão é o mais lento de todos, por isso é a posição de Vénus, que muda todos os meses, que decide se há aspeto. Isso pede o mapa calculado, e pede também uma ordem: o aspeto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa. O texto o que é um aspeto explica essa conta.
Uma maneira de investigar este par é observar como as relações terminam. Alguém pode notar, com o tempo, que os seus vínculos quase nunca acabam em morno: acabam em rutura, ou continuam. Uma leitura possível é que a peça plutoniana mede o afeto em profundidade, e o que é fundo dificilmente se desfaz de leve. Carl Gustav Jung, em Psicologia do Inconsciente, escreveu: "Onde o amor impera, não há vontade de poder; e onde o poder tem a primazia, falta o amor. Um é a sombra do outro." Pensada a partir de Vénus e Plutão, a frase ilumina a tensão central deste aspeto, o lugar onde a entrega e o controlo disputam a mesma relação. Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, olhou para o mesmo território de outro ângulo: "O que se faz por amor acontece sempre para além do bem e do mal."
Na conjunção, a profundidade entra dentro do desejo. Podemos ler esta posição como desejar fundo. Há um magnetismo que os outros sentem e nem sempre sabem nomear, a tendência para escolher poucas pessoas e para escolher por inteiro, e muitas vezes a lembrança de uma relação vivida cedo que mudou o rumo da vida. O ponto de atenção é o ciúme e o controlo, e vale a pena dizê-lo sem enfeite: muitas vezes nascem do medo de perder o que nos organiza por dentro. Nomear esse medo antes de agir por ele costuma mudar muita coisa.
No sextil e no trígono, a intensidade costuma vir sem tormento. Há entrega sem perda de si, capacidade de amar com profundidade, de aguentar as fases difíceis de uma relação e de sair de um fim de relação sem se despedaçar. A força está ao serviço do vínculo. O custo é discreto: a própria intensidade talvez nunca tenha sido examinada, e o que ela faz solta pode aparecer só num momento de perda, numa reação que não se reconhece como sua.
Na quadratura e na oposição, o afeto e o poder discutem. Pode acontecer disputar poder dentro da relação, testar o outro, envolver-se com alguém que tem alguma vantagem; ou blindar-se para não depender, que é a mesma peça pelo avesso. É dessa discussão que costuma sair alguém que ama fundo sem dominar. O caminho passa por reconhecer o padrão em voz alta com quem está do outro lado. É incómodo, e é o que permite que o melhor deste aspeto, a profundidade real, fique sem o que ele tem de pior.
Na semana comum, este par pode mostrar-se no tamanho que uma relação toma na vida. Os sinais valem para qualquer aspeto entre os dois: não se envolver a meio, ter vivido uma relação que mudou o rumo de tudo, sentir um ciúme fundo e ter vergonha dele, terminar em rutura e quase nunca em morno, ter um magnetismo que os outros notam, desconfiar do que é fácil demais. Repare no que a lista deixa de fora. Não chama ninguém de possessivo nem de intenso demais, rótulos que este par carrega e que descrevem o extremo. Observa um desejo que vem inteiro, à procura de palavras para o medo.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se amamos por inteiro, conseguimos deixar o outro livre? Se tememos perder, quanto do que chamamos de amor é tentativa de garantir? E quando uma relação nos transforma, sabemos reconhecer o que ficou de bom depois de ela acabar?
Essas questões não significam que todo o mapa com Vénus e Plutão em aspeto viva tais conflitos. Um aspeto, sozinho, não permite afirmar isso sobre ninguém. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspeto distribuem-se entre as duas peças: quase sempre uma está em excesso e a outra em deficiência, e o trabalho começa pelo lado mais fraco.
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Porque se apaixona por quem se apaixona, o que se repete nas suas relações e o tipo de amor que combina consigo.
Vale a pena considerar uma inversão que serve para todos os pares: o que corre sem atrito nunca foi testado, e o que incomoda costuma produzir. O trígono entre Vénus e Plutão entrega o resultado com pouco esforço, e o músculo pode ficar sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: alguém que precisou de olhar de frente para o próprio controlo, e que por isso ama com uma consciência fora do comum. Neste par a inversão costuma custar uma relação, e a aprendizagem vem de uma perda, a forma mais cara e muitas vezes a mais eficaz de aprender.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando se descobre que a profundidade dispensa disputa. Muitas vezes isso acontece numa relação em que ninguém tem vantagem sobre ninguém, e se percebe que a intensidade continuou lá sem o jogo. A entrega pode seguir do mesmo tamanho; o que muda é oferecê-la sem pedir garantia em troca. Nenhuma idade exata dá conta disso, porque o arco depende do mapa inteiro.
Para ler este aspeto no seu mapa, vale a pena olhar para os signos e as casas das duas peças. Uma Vénus em Escorpião com Plutão em conjunção pode ter uma intensidade que se vê de longe; uma Vénus em Gémeos com a mesma conjunção pode parecer leve e envolver-se a fundo. A leitura de Vénus nos 12 signos e a de Plutão nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e é bom começar por elas. Plutão fica de onze a trinta e um anos em cada signo, por isso o signo dele é da sua geração; o aspeto com a sua Vénus é que é seu, e muda em semanas.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Descreve tendências, não faz previsão e não ocupa o lugar do seu trabalho, das suas decisões ou de um acompanhamento terapêutico quando ele é necessário.
Se quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Mapa das sombras acompanha o ciúme, o controlo e a força que moram neste par. A Sinastria amorosa: compatibilidade do casal olha como essa intensidade encontra a de alguém específico, e a leitura Magnetismo e beleza acompanha a presença que os outros sentem.
A pergunta que fica é: o que seria capaz de entregar se não precisasse de garantia em troca?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Vénus e Plutão:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a até 6 graus da distância exata para o aspeto existir. É diferente do signo, que a data entrega, e é por isso que esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso costuma não ser testado, e o músculo pode ficar sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Vénus com Plutão significa relações destrutivas? Uma leitura mais exata é a de relações que transformam, e transformação vai nos dois sentidos. A mesma peça pode produzir a relação que reorganiza a vida para melhor e a que a desmonta. O que costuma decidir entre as duas é o que se faz com o próprio medo de perder.
Por que as minhas relações nunca terminam em paz? Uma leitura possível é que a peça plutoniana mede o envolvimento em profundidade, e o que é fundo dificilmente se desfaz de leve. Nomear o medo antes de agir por ele é o que costuma tirar a este aspeto a parte que se alimenta de suposição.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara quando conhecemos as duas. Se chegou aqui direto, vale a pena passar pelas séries de cada planeta no signo e na casa, e voltar depois: a leitura fica outra.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e com menos força quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, o aspeto entre Vénus e Plutão pode ser lido como a intensidade do desejo, um envolvimento inteiro que transforma e às vezes disputa, e o convite a amar fundo sem precisar de vencer. Os signos e as casas das duas peças mostram onde essa profundidade aparece.
Palavras-chave afeto, desejo, intensidade, entrega
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
