
Sol e Vénus só formam um aspeto, a conjunção, e quem decide isso é a órbita. Vénus nunca se afasta do Sol mais de 47,3 graus: é o segundo planeta a partir dele, e visto da Terra fica sempre por perto, como a estrela da manhã ou a da tarde. Sextil, quadratura, trígono e oposição entre os dois não existem, e nunca existiram no mapa de ninguém. O que pode ser investigado é a distância entre eles: o quanto a sua identidade passa por aquilo que acha bonito, e pelo desejo de agradar.
Antes de qualquer leitura, vale a pena dizer o que é um aspeto. É a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que conta se as duas trabalham em conjunto, se se ignoram ou se se estranham. As séries anteriores descrevem cada peça sozinha, o planeta no signo e o planeta na casa; esta descreve o que acontece entre duas delas. São cinco as distâncias que a tradição chama aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe as duas peças em contacto de um modo próprio, e nenhuma é boa ou má: cada uma cobra alguma coisa e entrega alguma coisa.
Há também o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blogue usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, o que é outra coisa. Por isso um aspeto pede o mapa calculado, e neste par o cálculo resolve uma dúvida que a data deixa aberta: em que signo Vénus caiu, já que pode estar no seu signo solar, no anterior ou no seguinte. A conjunção é a situação de mais de metade das pessoas, e a pergunta útil passa a ser a distância: se Vénus está colada ao Sol, no signo vizinho ou dois signos adiante, e se nasce antes ou depois dele. E há uma ordem que ajuda: o aspeto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa.
A história deste par começa no céu do entardecer. Os babilónios acompanhavam Vénus como a estrela de Ishtar, e os gregos chegaram a dar dois nomes ao mesmo astro, Fósforo de manhã e Héspero à tarde, antes de perceber que se tratava de um só. Para os romanos era a deusa do amor e da beleza, a Afrodite dos gregos. Como nunca se afasta muito do Sol, Vénus sempre foi vista ao lado dele, a aparecer e a sumir no brilho do dia, e essa vizinhança é o próprio assunto deste aspeto.
O glifo de Vénus, ♀, é um círculo sobre uma cruz, e costuma ser lido como um espelho de mão, ou como o espírito que se apoia na matéria. O do Sol, ☉, é o círculo com um ponto no centro. Quando os dois se encontram, o que se põe em contacto é a identidade e o valor: aquilo que é e aquilo que acha bonito, desejável, digno de ser escolhido. Como a geometria aqui tem um único desenho possível, o que varia é o grau, e conta o quanto o gosto se mistura com o eu.
A pergunta humana que mora aqui é a do desejo de ser desejado. Jacques Lacan, em O Seminário, livro 11, escreveu: "O desejo do homem é o desejo do Outro." Pensada a partir deste par, a frase ajuda a investigar o quanto do que achamos bonito vem de nós, e o quanto vem do olhar de quem queremos agradar. Erich Fromm, em A Arte de Amar, escreveu: "O amor é uma atividade, não um afeto passivo." A frase pode ser lida como um contraponto: agradar acontece quase sozinho, e amar, segundo ele, pede um gesto escolhido. Uma maneira de investigar este aspeto é perguntar quanto do seu encanto é escolha, e quanto é reflexo.
A conjunção pode ser lida como a identidade ligada ao gosto. Quem é passa pelo que acha bonito, e muitas vezes isso mostra-se como um charme que chega sem esforço e uma dificuldade real em causar antipatia. É uma vantagem social grande, e também um ponto delicado na altura de dizer não, porque agradar pode funcionar como reflexo, e reflexo quase não se percebe. A distância muda a intensidade. Com menos de 3 graus, talvez seja difícil distinguir gostar de ser gostado; com 20 a 45 graus, há espaço para querer uma coisa que os outros não aprovem, e essa folga abre a hipótese de escolher.
O sextil e o trígono entre Sol e Vénus não existem. Exigiriam 60 e 120 graus, e a separação máxima entre Sol e Vénus, medida ao longo de dois séculos, é de 47,3 graus. Falta distância até para o menor dos dois. Às vezes aparecem descrições de "Sol trígono Vénus"; a órbita não permite essa configuração. Uma explicação possível para a confusão é o modo como séries de aspetos costumam ser montadas: uma grelha com todos os pares vezes os cinco aspetos, preenchida casa por casa, e a grelha não sabe de astronomia. O que vale ler no lugar é a distância entre os dois, que é o que de facto varia neste par.
A quadratura e a oposição entre Sol e Vénus também não existem. Exigiriam 90 e 180 graus, e a órbita de Vénus não permite nem metade disso em relação ao Sol. Quando aparece "Sol oposição Vénus" em algum lado, vale saber que se trata de uma configuração que nenhum mapa pode ter. A pergunta útil continua a ser a da conjunção: a que distância está, e de que lado do Sol.
No dia a dia, este par costuma aparecer na dificuldade de fazer alguma coisa que desagrade a quem se estima. Pode ter um charme que nem percebe estar a usar, evitar conflito por reflexo e sem medo, ligar a própria imagem ao que acha bonito, dizer sim antes de pensar e arrepender-se depois, ter um gosto formado e defendê-lo com calma, e passar uma impressão agradável mesmo quando discorda. Nada disso quer dizer vaidade ou interesse, rótulos que descrevem o extremo. Uma leitura possível é que a sua identidade passa pelo gosto, e que agradar, para si, acontece antes da decisão.
Existe, porém, uma tensão aqui. Se nos reconhecemos naquilo que agrada, o que acontece quando o que queremos desagrada a alguém que amamos? Se nos identificamos com a harmonia, conseguimos reconhecer quando custa a nossa própria vontade? E quantos dos nossos sins foram, na verdade, um modo de não arriscar o afeto de alguém?
Estas perguntas mostram-se de modos diferentes em cada mapa. O que muda é em que signos e em que casas as duas peças caíram, e como se dão com o resto do desenho.
Ver isso no meu mapa, de graçaHá uma inversão que vale para todos os pares: o que corre sem atrito pode nunca ter sido testado, e o que incomoda costuma produzir. Nos outros pares, aparece entre o trígono e a quadratura. Aqui, como só existe a conjunção, aparece na distância: a colagem que dá charme é a mesma que dificulta desagradar. É a única forma de atrito que este par conhece, e mede-se em graus. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspeto costumam distribuir-se entre as duas peças: muitas vezes uma está em excesso e a outra em deficiência, e o cuidado começa pelo lado mais fraco.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando desagradamos a alguém de propósito e descobrimos que continuamos inteiros. Muitas vezes é um episódio único, lembrado com detalhe, porque foi o dia em que o afeto não acabou com um não. Epicteto, no Manual, deixou um conselho que combina com esse momento: "Se queres progredir, deixa que te considerem tolo." Talvez a maturidade deste par seja distinguir o que gosta do que imagina que vão gostar, e essa distinção pode transformar agrado em gosto próprio. A idade exata depende do mapa inteiro.
Para ler este aspeto no seu mapa, vale lembrar que descreve como as duas peças se dão, e não quem é. Ter Vénus junto do Sol não torna ninguém superficial; pode indicar uma afinação com o que agrada, que é competência em quase todo o trabalho que envolve gente. Os signos e as casas mudam bastante a leitura: um Sol em Leão com Vénus colada pode ser lido como alguém cujo charme é a assinatura; um Sol em Virgem com Vénus a 40 graus, como alguém de gosto próprio e pouca vontade de agradar. As séries O Sol nos 12 signos e Vénus nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e são a leitura que vem antes desta.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Nada disto é previsão: descreve tendências e ajuda a dar nome ao que já se vive, sem ocupar o lugar do seu trabalho nem das suas decisões.
Se quiser investigar como o seu modo de amar e de encantar se liga a quem é, o Mapa do amor lê Vénus junto com a casa 7 e a Lua, e a leitura Magnetismo e beleza olha para o modo como os outros o percebem e para o que chama de bonito.
A pergunta que fica é: do que gosta quando ninguém está a olhar?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Sol e Vénus:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e o grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a menos de 6 graus da distância exata para o aspeto existir. O signo, a data entrega-o; o aspeto, não, e por isso esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso pode nunca ter sido testado, e às vezes isso só se nota no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Existe Sol em quadratura com Vénus? Não existe, e nunca existiu no mapa de ninguém. Vénus nunca se afasta do Sol mais de 47,3 graus, e a quadratura exige 90. Uma descrição desse aspeto fala de uma configuração que a órbita não permite.
Vénus pode estar num signo diferente do meu? Pode, e é comum: vai até quase 48 graus do Sol, o que dá um signo e meio. Pode ser de Leão com Vénus em Caranguejo ou em Virgem, e isso muda a leitura; só o mapa calculado diz qual é o caso.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta, sempre. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara depois de conhecer as duas. Se chegou aqui diretamente, vale a pena passar pelas séries de cada peça no signo e na casa e depois voltar a esta: a leitura muda.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e fica mais fraco quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, Sol e Vénus só formam conjunção, porque Vénus nunca passa de 47,3 graus do Sol, e o que se lê neste par é a distância entre os dois: colada, a identidade mistura-se com o desejo de agradar; com folga, sobra espaço para um gosto próprio.
Palavras-chave identidade, afeto, conjunção, órbita
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
