
O aspeto entre Marte e Júpiter pode ser lido como o tamanho da aposta que faz ao agir. Na astrologia, Marte está associado à ação, ao que fazemos e à força com que o fazemos; Júpiter, àquilo que aumenta tudo em que toca. Quando os dois formam um aspeto, a ação tende a ganhar escala: arrisca-se acima da média e, quando corre bem, corre muito bem. A pergunta que este par traz é a da medida da coragem.
Um aspeto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e descreve como se dão uma com a outra. Ptolomeu, no Tetrabiblos, explicou os aspetos como frações do círculo, e a tradição guardou cinco distâncias como aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Na mesma tradição, Marte é o maléfico menor, o planeta do corte e do combate, e Júpiter é o benéfico maior, o que amplia e protege. Os romanos colocaram-nos lado a lado no início da cidade: Júpiter, Marte e Quirino formavam a tríade mais antiga do culto romano, o rei do céu junto do deus da guerra, como se uma comunidade precisasse das duas coisas para existir, a força que age e a grandeza que dá sentido à ação.
O glifo ♂ é um círculo com uma flecha que aponta para fora, lido como o escudo e a lança; o ♃ costuma ser lido como um crescente que se ergue sobre a cruz, a alma que se expande acima da matéria. Marte rege Carneiro e Júpiter rege Sagitário, dois signos de fogo que se olham em trígono no zodíaco. E há um desenho curioso nas exaltações: Júpiter fica exaltado em Caranguejo e Marte em Capricórnio, signos opostos. O planeta que amplia encontra o seu auge no signo do cuidado; o planeta que age, no signo da estrutura. A tradição parece sugerir que cada um precisa do que o outro tem.
Há um número que decide se o aspeto existe: o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, que é outra coisa. Júpiter fica um ano em cada signo, enquanto Marte fica dois meses: é Marte que decide se há aspeto, e ele muda em semanas. Isto pede o mapa calculado, e pede também uma ordem: o aspeto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa. O texto o que é um aspeto explica essa conta.
Uma maneira de investigar este par é pensar numa aposta que estourou. Alguém pode tratar como azar o projeto que não coube no prazo, a lesão no treino, a dívida do negócio, e só depois perceber que a aposta foi feita no tamanho que este par acha normal. Séneca, nas Cartas a Lucílio, escreveu: "Nenhum vento é favorável a quem não sabe para onde vai." Pensada a partir de Marte e Júpiter, a frase lembra que a força e o entusiasmo rendem mais quando têm direção e conta feita. Montaigne, nos Ensaios, deixou uma imagem que traz o par de volta ao chão: "Sentamo-nos no mais alto trono do mundo e ainda assim continuamos sentados sobre o nosso traseiro." Por maior que seja a aposta, o corpo, o tempo e o dinheiro continuam a ter tamanho.
Na conjunção, força e tamanho juntam-se. Podemos ler essa posição como agir no maior tamanho disponível. Energia física acima da média, disposição para encarar um desafio grande sem ensaio, rapidez para recuperar de um fracasso: é a presença que começa a coisa que os outros só discutem. O ponto de atenção é a falta de travão. Abraçar além do que cabe, começar três projetos e terminar um, não ver o tamanho do risco enquanto ele ainda pode ser evitado. Combinar o limite antes ajuda, porque no meio da ação este par costuma escutar pouco.
No sextil e no trígono, o ímpeto costuma vir sem estrago. Há confiança que contagia, noção da hora de avançar e facilidade com situações que pedem decisão rápida com informação incompleta. É o tipo de presença que os outros seguem. O custo é discreto: talvez o próprio limite nunca tenha sido testado. Se sempre houve energia de sobra, administrar o cansaço pode não ter sido aprendido, e isso costuma aparecer pelo corpo antes de aparecer na agenda.
Na quadratura e na oposição, a força e o tamanho discutem. Pode acontecer prometer uma entrega que não cabe no dia, exagerar na dose de tudo, treino, trabalho, gasto, discussão, e irritar-se com quem pede cautela. Ou o inverso: paralisar antes de começar, por medo do próprio tamanho. É dessa discussão que costuma sair alguém que arrisca sabendo quanto está a arriscar. O que ajuda é escrever a conta antes de agir: quanto tempo, quanto dinheiro, quanto corpo. A medida separa a coragem da imprudência sem tirar o ímpeto.
Na semana comum, este par pode mostrar-se no tamanho da coisa que se aceita começar. Os sinais valem para qualquer aspeto entre os dois: começar o que os outros só discutem, aceitar um prazo que não cabe no dia, exagerar na dose de treino, trabalho ou gasto, recuperar rápido de um fracasso, irritar-se com quem pede cautela, tomar uma decisão grande com informação incompleta. Repare no que a lista deixa de fora. Não chama ninguém de imprudente nem de exibido, rótulos que este par carrega e que descrevem o extremo. Observa uma ação de tamanho grande, que pede conta e conserva a coragem.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se nos reconhecemos na coragem, conseguimos admitir o medo quando ele tem razão? Se apostamos alto, sabemos antes quanto podemos perder? E quando a aposta dá errado, olhamos para o tamanho dela ou só para a sorte?
Essas questões não significam que todo o mapa com Marte e Júpiter em aspeto viva tais conflitos. Um aspeto, sozinho, não permite afirmar isso sobre ninguém. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspeto elas distribuem-se entre as duas peças: quase sempre uma está em excesso e a outra em deficiência, e o trabalho começa pelo lado mais fraco.
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Vale a pena considerar uma inversão que serve para todos os pares: o que corre sem atrito nunca foi testado, e o que incomoda costuma produzir. O trígono entre Marte e Júpiter entrega o resultado com pouco esforço, e o músculo pode ficar sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: alguém que já pagou por uma aposta mal medida e que por isso mede, sem perder o ímpeto. Neste par a inversão deixa rasto, um projeto que estourou, uma lesão, uma dívida, e o que costuma ensinar é a conta feita depois da queda.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando o ímpeto se junta ao cálculo do custo. Muitas vezes isso acontece depois de um projeto grande que deu errado pelo tamanho, com uma ideia que era boa, uma distinção que só se aprende tendo passado por ela. A coragem pode continuar do mesmo tamanho; o que muda é saber, antes de começar, quanto se pode perder. Nenhuma idade exata dá conta disso, porque o arco depende do mapa inteiro.
Para ler este aspeto no seu mapa, vale a pena olhar os signos e as casas das duas peças. Um Marte em Sagitário com Júpiter em conjunção pode apostar alto e saber disso; um Marte em Caranguejo com a mesma conjunção pode arriscar sobretudo por quem ama. A leitura de Marte nos 12 signos e a de Júpiter nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e é bom começar por elas. Júpiter fica um ano em cada signo, pelo que o signo dele é quase de uma turma inteira; o aspeto com o seu Marte é que é seu, e ele muda em semanas.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Descreve tendências, não faz previsão e não ocupa o lugar do seu trabalho e das suas decisões.
Se quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Mapa vocacional olha para onde essa ação grande encontra trabalho à altura. Mapa financeiro acompanha o lado das apostas que deixa rasto no extrato, e as Previsões para os próximos 12 meses mostram quando o céu favorece avançar e quando pede conta.
A pergunta que fica é: quanto aceita perder pelo que quer começar, e já fez essa conta?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Marte e Júpiter:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a até 6 graus da distância exata para o aspeto existir. É diferente do signo, que a data entrega, e é por isso que esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso costuma não ser testado, e o músculo pode ficar sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Marte com Júpiter é o aspeto do sucesso? Uma leitura mais exata é a da aposta grande, e aposta grande ganha grande e perde grande. O que costuma parecer sucesso é a rapidez com que se recomeça depois de perder, e isso tem mais de material do que de sorte.
Como eu paro de abraçar mais do que cabe? Escrevendo a conta antes de começar: quanto tempo, quanto dinheiro, quanto corpo. No meio da ação este par costuma escutar pouco, inclusive o próprio, e por isso o limite funciona melhor combinado antes, e por escrito.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara quando conhecemos as duas. Se chegou aqui direto, vale a pena passar pelas séries de cada planeta no signo e na casa, e voltar depois: a leitura fica outra.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e com menos força quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, o aspeto entre Marte e Júpiter pode ser lido como o tamanho da aposta que faz ao agir, uma coragem larga que pede conta feita, e o convite a arriscar sabendo quanto se arrisca. Os signos e as casas das duas peças mostram onde essa aposta acontece.
Palavras-chave ação, aposta, ímpeto, medida
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
