
Ter Plutão em Touro pode ser lido como a marca da geração nascida entre 1853 e 1884, a que refez o que é ter e o que o dinheiro vale. Na astrologia, Plutão está associado à área da vida que não volta ao que era, onde a crise não devolve o que levou, onde o poder aparece (o seu e o dos outros) e onde a reconstrução vira a saída possível. Touro, por sua vez, é tradicionalmente relacionado à posse, ao corpo, à terra e ao que dura. Quando aproximamos esses dois campos simbólicos, a propriedade deixa de ser costume e passa a ser lida como estrutura de poder. Ninguém vivo tem este Plutão, e por isso esta página fala no passado.
Antes de seguir, a ressalva que acompanha as três séries geracionais: o signo de Plutão é da sua geração, e só por meio dela fala de você. Ele fica de doze a trinta e um anos em cada signo, e essa variação vem da órbita dele, a mais excêntrica dos nove corpos que este blog lê. Sozinho, o signo descreve o que uma faixa inteira de gente teve de refazer; a parte pessoal mora na casa em que ele caiu, que depende da hora exata de nascimento. E há um relógio próprio: a quadratura de Plutão não tem idade fixa. Em Urano a oposição cai perto dos 42 e em Netuno a quadratura perto dos 41, para qualquer geração; em Plutão ela varia de 36 a mais de 80 anos, conforme o signo em que ele estava no nascimento.
Essa leitura tem raiz no próprio nome. Plutão vem do grego Plouton, que quer dizer "o rico", e era um dos nomes de Hades, o senhor do mundo de baixo. A riqueza vinha de lá: dos metais, das sementes guardadas, de tudo o que a terra esconde antes de dar. Em algumas imagens antigas ele aparece segurando uma cornucópia. O planeta só foi descoberto em 1930, mas o mito já ligava o poder subterrâneo à abundância. O touro, por sua vez, é uma das constelações mais antigas do céu, e o signo ficou ligado ao meio da primavera do hemisfério norte, quando a terra arada começa a render. Plutão passou por Touro de fevereiro de 1853 a abril de 1884: trinta e um anos, a passagem mais longa das doze. Quem nasceu nessa faixa viveu a industrialização, a formação das grandes fortunas e a mudança do que a terra significava. Foi a geração em que o capital tomou a forma que ainda tem, e a que produziu, em reação, as primeiras organizações de trabalhadores.
O próprio símbolo diz bastante. Touro é terra fixa, regido por Vênus: terra, o elemento associado ao material e ao resultado que se pode tocar; fixa, a qualidade dos signos que conservam a estação já instalada. O glifo ♉ costuma ser lido como a cabeça do touro, e há quem veja nele um recipiente que guarda. Plutão, cujo glifo mais usado, ♇, junta as letras P e L, concentra poder no assunto do signo em que está. Aqui o assunto é o que se possui. E o número da passagem tem peso próprio: trinta e um anos aqui, contra onze em Escorpião, porque ele anda devagar quando está longe do Sol. Uma faixa tão larga é quase duas gerações dividindo o mesmo Plutão, o que dilui ainda mais o que a posição diz de alguém em particular.
Uma maneira de investigar essa combinação é olhar a relação daquela geração com o que é possuído e com quem possui. Podemos imaginar alguém que tratava a propriedade como questão de sobrevivência, que viu a terra virar mercadoria numa vida só e passou por uma perda material que reorganizou tudo. Podemos imaginar também uma relação intensa com a comida e com a escassez, e a descoberta de que, diante do que faltava, era possível se organizar junto. Materialismo e ganância são os rótulos que esta posição costuma carregar, e eles descrevem o excesso. A mecânica conta outra história: uma geração que transformou o ter em estrutura de poder, para o bem e para o mal.
Epicuro, nas Máximas Principais, separou duas riquezas: "A riqueza natural é limitada e fácil de obter; a que nasce das opiniões vãs não tem limite." Pensada a partir de Plutão em Touro, a frase ajuda a ler a época: quando a posse vira poder, o desejo de ter perde o ponto de parada. La Rochefoucauld, nas Máximas, deixou uma suspeita que serve ao outro lado da mesma história: "As nossas virtudes são, quase sempre, vícios disfarçados." Uma geração que guardou tudo pode ter chamado de prudência um medo que vinha da falta. A pergunta filosófica que mora nesta combinação pode ser esta: quanto é o bastante, e quem decide?
A luz dessa posição pode ser lida como a resistência material. Estrada, ferrovia, cidade, indústria: boa parte da base física do mundo moderno foi levantada por essa faixa, e uma geração que trata o concreto com tanta seriedade deixa coisa que dura mais que ela. Na prática, podemos pensar na capacidade de construir para durar, numa resistência à privação que poucas gerações depois precisaram ter e numa noção prática de valor, aprendida na falta. Essa força rendia em construção, agricultura, indústria, finanças e qualquer arranjo em que o resultado fosse físico e demorasse. Em ambientes onde nada era palpável, que mudavam de rumo toda semana ou onde a paciência não valia nada, ela perdia o chão.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se medimos a segurança pelo que temos, em que momento ela chega? Se já faltou uma vez, conseguimos parar de guardar quando já não falta? E o que passamos adiante quando chamamos de prudência um medo que ficou de outra época?
No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Em Plutão, o excesso e a deficiência fazem algo que em nenhum outro planeta acontece: costumam se alternar na mesma vida. Controlar tudo e não conseguir mexer em nada podem ser a mesma dificuldade em dois tempos. No excesso, a posse vira a medida de tudo: o próprio valor passa a ser contado pelo que se tem, e nenhuma quantidade basta. Foi essa face que produziu as fortunas mais brutais do período, e a violência que veio com elas. Na deficiência, o poder é entregue e se chama isso de aceitação, e na mesma faixa ela apareceu em quem perdeu tudo e nunca mais confiou em nada material: o medo constante de faltar, mesmo tendo, passado adiante como se fosse cuidado. As duas faces têm a mesma matéria-prima, e o que costumava ajudar nas duas era um chão suficiente, em vez de mais acúmulo. Acumular mais alimenta o mesmo medo. Definir o bastante, com um número escrito acima do qual o resto passa a ser escolha, é um ajuste que a casa de Plutão e o resto do mapa ajudam a localizar.
Essas questões não significam que todos os nascidos com Plutão em Touro tenham vivido tais conflitos. Uma posição astrológica, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. Elas são caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos de Plutão e de Touro.
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As partes suas que você esconde ou evita, e como elas podem virar a sua maior força.
Com o tempo, essa solidez podia amadurecer quando se definia o que era suficiente, e isso dispensava o esforço de desapego. A solidez continuava sendo o talento; o que mudava era ela deixar de ser a única defesa contra o medo. Há um relógio que ajuda a pensar esse arco: a quadratura de Plutão, quando ele chega a noventa graus do ponto que ocupava no nascimento, um quarto da volta. Como a órbita é excêntrica, a idade muda de geração para geração. Ela cai perto dos 36 em Virgem e em Libra, e depois dos 70 em Aquário. Aquela geração a viveu entre os setenta e os oitenta e seis anos, a mais tardia das faixas vivas na época, e para muitos ela não chegou. Maturidade, ali, podia ser distinguir o que se tinha do que se era: continuar construindo, e passar a saber quando parar. É essa parada que transforma acúmulo em patrimônio. Cada mapa tinha o seu tempo para esse arco.
Para ler Plutão num mapa, a casa é a peça que importa, porque ela depende da hora exata e milhões de pessoas da mesma faixa dividiam o mesmo signo. Nesta posição, na casa 2 ela podia aparecer numa vida que girava em torno de acumular ou perder; na casa 8, numa marca de herança ou de dívida; na casa 4, em quem fez da casa o assunto da vida inteira; na casa 6, em quem refez o próprio ofício do zero. A série Plutão nas 12 casas é onde esta leitura fica pessoal. E há Saturno, o contrapeso de Plutão: um constrói devagar o que o outro derruba de uma vez, e ler os dois juntos ajuda a separar uma crise que refaz de uma que só destrói. Vale ver também Urano e Netuno nos 12 signos, os outros dois planetas de geração, e O Sol nos 12 signos, que a data torna seu de verdade.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a experiência. Ela descreve tendências e não faz previsão, nem ocupa o lugar do trabalho e das decisões de ninguém.
Se essa geração é a dos seus bisavós, o que ela viveu com dinheiro e com escassez pode ainda morar na sua família. O Mapa da constelação familiar e a leitura Mapa da ancestralidade ajudam a ver essa herança no seu desenho, e Mapa financeiro olha para a sua própria relação com o valor, peça por peça.
A pergunta que fica é: quanto é o bastante para você, e de quem é a voz que diz que ainda falta?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre Plutão em Touro:
Como eu descubro em que signo está o meu Plutão? Pela data: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, dependendo de onde está na órbita. As datas desta série marcam a passagem contínua; nas viradas ele entra, retrograda e entra outra vez, e esse vaivém dura meses, então quem nasceu perto de uma delas precisa do mapa calculado. Sozinho, o signo diz pouco: o pessoal está na casa.
Plutão retrógrado no mapa de nascimento é ruim? Não. Quase metade dos nascimentos tem Plutão assim, uma condição de rotina. O que pode mudar é onde a transformação começa: em vez de vir de um evento externo, ela tende a começar por dentro, e muitas vezes se muda de ideia sobre a própria vida antes de qualquer coisa mudar nela.
Ainda existe alguém com Plutão em Touro? Não. A faixa vai de fevereiro de 1853 a abril de 1884, então quem nasceu por último com este Plutão nasceu há mais de cento e quarenta anos. A página está escrita no passado por isso, e serve a quem estuda mapa histórico ou a série inteira.
Trinta e um anos num signo só? Sim, a passagem mais longa das doze. A órbita de Plutão é muito excêntrica: ele anda rápido quando está perto do Sol e devagar quando está longe. São onze anos em Escorpião e trinta e um em Touro, e é essa diferença que faz a quadratura de Plutão não ter uma idade só, ao contrário da de Urano e da de Netuno.
Plutão ainda é planeta? Para a astronomia, desde 2006 ele é planeta anão. Para a astrologia, a mudança de classificação não altera nada: o que se lê é a posição de um corpo no céu, e ela continua lá, com o mesmo tempo de órbita e o mesmo lugar no mapa. É uma pergunta justa, e a resposta é que as duas disciplinas medem coisas diferentes.
Por que este signo diz tão pouco sobre mim? Porque ele é de uma geração inteira. Plutão leva de doze a trinta e um anos em cada signo, então o texto descreve um clima que milhões de pessoas dividiam. A parte pessoal é a casa em que ele caiu, que depende da hora do nascimento, e o jeito como ele conversa com o Sol, a Lua e o Ascendente. Prometer mais que isso seria prometer o que o signo não tem.
Em resumo, Plutão em Touro pode ser lido como a marca da geração de 1853 a 1884, a passagem mais longa das doze, que transformou a posse em estrutura de poder e deixou de pé boa parte do mundo material. A casa mostrava em que área da vida isso pesava mais.
Palavras-chave terra, posse, dinheiro, ganância
Este dá para saber pela data, quase sempre: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, por causa da órbita alongada. Quem nasceu perto de uma troca de signo, ou num período em que o planeta retrograda e volta ao signo anterior, só tem certeza calculando o mapa com data, hora e cidade. Dá para calcular de graça aqui.
