
Ter Plutão em Sagitário pode ser lido como a marca da geração nascida entre 1995 e 2008, a que refez a crença e o alcance do mundo. Na astrologia, Plutão está associado à área da vida que não volta ao que era, onde a crise não devolve o que levou, onde o poder aparece (o seu e o dos outros) e onde a reconstrução vira a saída possível. Sagitário, por sua vez, é tradicionalmente relacionado à crença, ao horizonte, ao estudo longo e ao estrangeiro. Quando aproximamos esses dois campos simbólicos, a convicção deixa de ser assunto privado e passa a ser força que move gente.
Antes de seguir, a ressalva que acompanha as três séries geracionais: o signo de Plutão é da sua geração, e só por meio dela fala de você. Ele fica de doze a trinta e um anos em cada signo, e essa variação vem da órbita dele, a mais excêntrica dos nove corpos que este blog lê. Sozinho, o signo descreve o que uma faixa inteira de gente teve de refazer; a parte pessoal mora na casa em que ele caiu, que depende da hora exata de nascimento. E há um relógio próprio: a quadratura de Plutão não tem idade fixa. Em Urano a oposição cai perto dos 42 e em Netuno a quadratura perto dos 41, para qualquer geração; em Plutão ela varia de 36 a mais de 80 anos, conforme o signo em que ele estava quando você nasceu.
No mundo grego, a crença mais guardada tinha a ver com o reino de Plutão. Os Mistérios de Elêusis, celebrados por séculos em honra de Deméter e de Perséfone, a rainha do mundo de baixo ao lado de Hades, iniciavam quem participava num segredo sobre a vida e a morte, e quase nada do que se fazia lá dentro chegou até nós. Era uma fé que reunia multidões e mudava quem passava por ela. O arqueiro de Sagitário, por sua vez, é um centauro, e muitas vezes é associado a Quíron, o centauro sábio que ensinou heróis. Plutão passou por Sagitário de novembro de 1995 a novembro de 2008, treze anos, e é a faixa que hoje está entre os dezessete e os trinta. Quem nasceu nela cresceu no período em que o mundo ficou ao alcance de todos, e em que fundamentalismo, teoria conspiratória e polarização religiosa e política voltaram com força. Uma leitura possível é que essas duas coisas são a mesma posição, vista de dois lados.
O próprio símbolo diz bastante. Sagitário é fogo mutável, regido por Júpiter: fogo, o elemento associado à vontade e ao entusiasmo; mutável, a qualidade dos signos que fecham estação e preparam a mudança. O glifo ♐ costuma ser lido como a flecha do arqueiro apontada para cima e para longe. Plutão, cujo glifo mais usado, ♇, junta as letras P e L, põe poder dentro do assunto do signo em que está. Aqui o assunto é aquilo em que se acredita, e a combinação pode ser lida como aquela em que a crença vira poder, quase sempre sem aviso.
Uma maneira de investigar essa combinação é olhar a seriedade com que essa geração trata o que acredita. Podemos imaginar alguém que trata convicção como coisa que tem consequência, que viu a polarização de perto e cedo, e que muda de visão de mundo por inteiro em vez de mudar aos poucos. Alguém que busca sentido em algo maior que a própria vida, que reconhece discurso manipulador com mais facilidade que os mais velhos e que às vezes confunde ter certeza com ter razão. Fanatismo e ingenuidade são os rótulos que esta posição costuma carregar, e eles descrevem o excesso. A mecânica fala de uma geração que descobriu, na prática, que uma convicção compartilhada move mais gente que qualquer argumento, e que viu isso ser usado para o melhor e para o pior na mesma década, muitas vezes pelo mesmo canal.
Bertrand Russell, em O Triunfo da Estupidez, escreveu: "O problema do mundo é que os tolos e os fanáticos estão sempre tão certos de si, e as pessoas mais sábias, tão cheias de dúvidas." Pensada a partir de Plutão em Sagitário, a frase pode ser lida como um aviso para quem cresceu cercado de certezas: a dúvida também é uma forma de fé no que ainda não se sabe. Schopenhauer, em Parerga e Paralipomena, deixou uma observação que conversa com o signo do horizonte: "Todo homem toma os limites do seu próprio campo de visão pelos limites do mundo." A pergunta filosófica que mora nesta combinação pode ser esta: como acreditar com força sem confundir a nossa crença com o mundo inteiro?
A luz dessa posição pode ser lida como a convicção com alcance, a capacidade de organizar gente em torno de uma ideia. Nenhuma faixa anterior conseguiu reunir tanta gente em torno de uma causa tão rápido, e essa capacidade é neutra: o que decide o resultado é a ideia escolhida, e é por isso que a escolha pesa tanto aqui. Na prática, podemos pensar numa capacidade de mobilizar, numa percepção afiada de discurso manipulador, aprendida cedo, e numa disposição de mudar de ideia por inteiro quando a evidência muda. Essa força costuma render em ensino, comunicação, causa pública, trabalho internacional e qualquer arranjo em que convencer honestamente seja o trabalho. Em ambientes sem propósito nenhum, que exigem fingir concordância ou onde a pergunta é tratada como ameaça, ela tende a perder o rumo.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se acreditamos com intensidade, conseguimos ouvir quem discorda sem sentir que estamos sendo atacados? Se vimos promessa demais desmoronar, o que sobra quando decidimos não acreditar em nada? E quem escolhe a nossa crença: nós, ou o grupo que já pensa igual?
No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Em Plutão, o excesso e a deficiência fazem algo que em nenhum outro planeta acontece: costumam se alternar na mesma vida. Controlar tudo e não conseguir mexer em nada podem ser a mesma dificuldade em dois tempos. No excesso, a convicção vira certeza que não escuta: confundir a intensidade da crença com prova, fechar-se num grupo que pensa igual e ver a distância até quem discorda ficar intransponível. É a face que a década em que essa faixa cresceu mostrou em escala mundial. Na deficiência, o poder é entregue e se chama isso de aceitação, e aqui ela pode aparecer como a decisão de não acreditar em nada: depois de ver promessa demais cair, cortar o assunto inteiro, chamar isso de lucidez e ficar sem a bússola que essa geração tem. As duas faces têm a mesma matéria-prima, e o que costuma ajudar nas duas é uma convicção que convive com quem discorda, em vez de menos fé. Pedir para acreditar menos tende a produzir a segunda face. Ter por perto alguém de confiança que pensa diferente, com quem dá para conversar sem que a amizade acabe, é um ajuste que a casa de Plutão e o resto do mapa ajudam a localizar.
Essas questões não significam que todos os nascidos com Plutão em Sagitário vivam tais conflitos. Uma posição astrológica, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. Elas são caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos de Plutão e de Sagitário.
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As partes suas que você esconde ou evita, e como elas podem virar a sua maior força.
Com o tempo, a convicção pode aprender a aguentar ser questionada, sem precisar duvidar de tudo. A força de acreditar continua sendo o talento; o que pode mudar é ela deixar de precisar que todo mundo concorde. Há um relógio que ajuda a pensar esse arco: a quadratura de Plutão, quando ele chega a noventa graus do ponto que ocupava no nascimento, um quarto da volta. Como a órbita é excêntrica, a idade muda de geração para geração. Ela cai perto dos 36 em Virgem e em Libra, e depois dos 70 em Aquário. Essa geração vai vivê-la entre os quarenta e sete e os cinquenta e oito anos, bem depois da meia-idade, e vale dizer isso em vez de repetir o número que vale para Urano. Maturidade, aqui, pode ser distinguir a crença que você escolheu da crença que escolheu você: continuar acreditando, e passar a escutar quem discorda. É essa escuta que pode transformar fanatismo em fé. Cada mapa tem o seu tempo para esse arco.
Para ler Plutão no seu mapa, a casa é a peça que importa, porque ela depende da hora exata e milhões de pessoas da mesma faixa dividem o mesmo signo. Nesta posição, na casa 9 ela pode aparecer em quem refez a própria visão de mundo do zero; na casa 3, numa palavra que move um grupo inteiro; na casa 10, numa carreira que nasce de uma convicção; na casa 11, em quem organiza um grupo em torno de uma causa. A série Plutão nas 12 casas é onde esta leitura fica sua. E há Saturno, o contrapeso de Plutão: um constrói devagar o que o outro derruba de uma vez, e ler os dois juntos ajuda a separar uma crise que refaz de uma que só destrói. Vale ver também Urano e Netuno nos 12 signos, os outros dois planetas da sua geração, e O Sol nos 12 signos, que a data torna seu de verdade.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a experiência. Ela descreve tendências e não faz previsão, nem ocupa o lugar do seu trabalho e das suas decisões.
Se você quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Propósito de vida olha para aquilo em que vale a pena pôr a sua força, a pergunta que esta geração faz cedo. E o Mapa do estudante acompanha o jeito como você aprende e escolhe o que estudar, numa idade em que essas escolhas ainda estão abertas.
A pergunta que fica é: em que você acredita hoje que gostaria de ver questionado por alguém de confiança?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre Plutão em Sagitário:
Como eu descubro em que signo está o meu Plutão? Pela data: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, dependendo de onde está na órbita. As datas desta série marcam a passagem contínua; nas viradas ele entra, retrograda e entra outra vez, e esse vaivém dura meses, então quem nasceu perto de uma delas precisa do mapa calculado. Sozinho, o signo diz pouco: o pessoal está na casa.
Plutão retrógrado no mapa de nascimento é ruim? Não. Quase metade dos nascimentos tem Plutão assim, uma condição de rotina. O que pode mudar é onde a transformação começa: em vez de vir de um evento externo, ela tende a começar por dentro, e muitas vezes você muda de ideia sobre a própria vida antes de qualquer coisa mudar nela.
Plutão em Sagitário quer dizer fanatismo? Quer dizer que a geração inteira cresceu num período em que a crença virou força pública, e isso fala de história; o caráter de cada um se lê em outras peças. Treze anos de gente dividem este Plutão, incluindo quem não acredita em quase nada. O que é seu está na casa em que ele caiu, e ela exige a hora exata do seu nascimento.
Quando eu vivo a quadratura de Plutão? Entre os quarenta e sete e os cinquenta e oito anos, dependendo do ano exato em que você nasceu, bem depois da meia-idade. Muitos textos repetem o número de Urano, mas a órbita de Plutão é excêntrica e a idade da quadratura muda de geração para geração: dos 36 em Virgem aos mais de 70 em Aquário.
Plutão ainda é planeta? Para a astronomia, desde 2006 ele é planeta anão. Para a astrologia, a mudança de classificação não altera nada: o que se lê é a posição de um corpo no céu, e ela continua lá, com o mesmo tempo de órbita e o mesmo lugar no mapa. É uma pergunta justa, e a resposta é que as duas disciplinas medem coisas diferentes.
Por que este signo diz tão pouco sobre mim? Porque ele é da sua geração inteira. Plutão leva de doze a trinta e um anos em cada signo, então o texto descreve um clima que dezenas de milhões de pessoas dividem com você. A parte pessoal é a casa em que ele caiu, que depende da hora do seu nascimento, e o jeito como ele conversa com o Sol, a Lua e o Ascendente. Prometer mais que isso seria prometer o que o signo não tem.
Em resumo, Plutão em Sagitário pode ser lido como a marca da geração de 1995 a 2008, que cresceu com o mundo ao alcance e viu a crença virar força pública. O talento é mobilizar em torno de uma ideia, e a casa mostra onde a convicção pede companhia de quem discorda.
Palavras-chave crença, verdade, alcance, fanatismo
Este dá para saber pela data, quase sempre: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, por causa da órbita alongada. Quem nasceu perto de uma troca de signo, ou num período em que o planeta retrograda e volta ao signo anterior, só tem certeza calculando o mapa com data, hora e cidade. Dá para calcular de graça aqui.
