
Ter Plutão em Peixes pode ser lido como a marca de uma geração que ainda vai nascer, a partir de 2044: a que vai refazer a fé e o que se faz com a compaixão. Na astrologia, Plutão está associado à área da vida que não volta ao que era, onde a crise não devolve o que levou, onde o poder aparece (o seu e o dos outros) e onde a reconstrução vira a saída possível. Peixes, por sua vez, é tradicionalmente relacionado ao que não tem contorno, à imaginação e à compaixão. Quando aproximamos esses dois campos simbólicos, a fé e o cuidado deixam de ser assunto privado e passam a ser força pública.
Antes de seguir, a ressalva que acompanha as três séries geracionais: o signo de Plutão é da sua geração, e só por meio dela fala de você. Ele fica de doze a trinta e um anos em cada signo, e essa variação vem da órbita dele, a mais excêntrica dos nove corpos que este blog lê. Sozinho, o signo descreve o que uma faixa inteira de gente teve de refazer; a parte pessoal mora na casa em que ele caiu, que depende da hora exata de nascimento. E há um relógio próprio: a quadratura de Plutão não tem idade fixa. Em Urano a oposição cai perto dos 42 e em Netuno a quadratura perto dos 41, para qualquer geração; em Plutão ela varia de 36 a mais de 80 anos, conforme o signo em que ele estava no nascimento.
No mito, o reino de Hades, o Plutão dos romanos, tinha um rio chamado Lete, o rio do esquecimento. Quem bebia da água dele esquecia a vida anterior, e em algumas versões era assim que as almas se preparavam para voltar. É uma imagem de dissolução, de contorno que se apaga, e conversa diretamente com Peixes. Os dois peixes do signo, por sua vez, costumam ser contados como Afrodite e Eros, que se transformaram em peixes para fugir de um monstro e se amarraram por uma corda para não se perderem um do outro na água. Plutão entra em Peixes em janeiro de 2044 e fica até 2068, vinte e quatro anos, e ninguém vivo hoje tem este Plutão. Esta é a última das quatro páginas da série que não descrevem uma geração adulta viva, e ela fecha a grade dizendo de que tempo está falando.
O próprio símbolo diz bastante. Peixes é água mutável, regido tradicionalmente por Júpiter e modernamente por Netuno: água, o elemento associado à emoção e ao vínculo; mutável, a qualidade dos signos que fecham estação, e Peixes fecha o zodíaco inteiro. O glifo ♓ costuma ser lido como os dois peixes nadando em sentidos opostos, ligados por uma linha. Plutão, cujo glifo mais usado, ♇, junta as letras P e L, concentra poder no assunto do signo em que está, e o de Peixes é justamente o que não tem contorno. O que dá para afirmar sobre esta posição é a mecânica: uma geração inteira vai lidar com o que a compaixão pode fazer quando ela tem poder, e essa é uma pergunta que ainda não foi respondida.
Uma maneira de investigar essa combinação, sabendo que ela descreve gente que ainda não nasceu, é imaginar o que pode mudar entre o que essa geração vai fazer com a compaixão e o que a anterior fazia. Podemos pensar em alguém que trata o cuidado como questão de poder e de direito, que lida cedo com o que não tem contorno definido e que leva a sério a busca de sentido em algo maior. Podemos pensar também numa relação intensa com o invisível, na recusa a ver o sofrimento tratado como estatística e no risco de confundir entrega com dissolução de si. Ingenuidade e desorientação são os rótulos que esta posição costuma carregar, e eles descrevem o excesso. A mecânica fala de uma geração que vai pôr poder dentro do que dissolve.
Agostinho, nas Confissões, escreveu: "Tornei-me para mim mesmo uma questão." A frase, vinda de quem fez da fé o centro da vida, pode ser lida como a porta de entrada desta combinação: a fé que interroga, em vez da fé que dissolve as perguntas. Lao Tsé, no Tao Te Ching, deixou uma imagem que conversa com o signo do que não tem forma: "É o vazio que torna a taça útil." O vazio, aqui, só serve porque tem borda. A pergunta filosófica que mora nesta combinação pode ser esta: como se entregar a algo maior sem desaparecer dentro dele?
A luz dessa posição pode ser lida como a compaixão com peso. Quando a compaixão deixa de ser caridade e vira estrutura, o que muda é o que cabe a cada um, e essa é a transformação que esta posição costuma sugerir. Na prática, podemos imaginar uma disposição de cuidar em escala, uma capacidade de imaginar arranjos que ainda não existem e uma percepção do que não é dito que nenhuma técnica ensina. Essa força tende a render em cuidado, saúde, arte, causa coletiva, espiritualidade e qualquer arranjo em que o invisível precise de forma. Em ambientes de disputa aberta o tempo todo, puramente numéricos ou onde o sofrimento não conta, ela pode se perder.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se nos entregamos a uma causa maior, onde termina ela e onde começamos nós? Se o nosso sofrimento parece provar alguma coisa, o que acontece quando precisamos de cuidado em vez de dar? E quando a compaixão cansa, cortamos o sentimento inteiro ou aprendemos a dar forma a ele?
No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Em Plutão, o excesso e a deficiência fazem algo que em nenhum outro planeta acontece: costumam se alternar na mesma vida. Controlar tudo e não conseguir mexer em nada podem ser a mesma dificuldade em dois tempos. No excesso, a entrega vira dissolução de si: sumir dentro do que se cuida, apagar-se em nome de algo maior e chamar isso de doação, ou acreditar que o próprio sofrimento prova alguma coisa, uma das ideias que mais custam caro. Na deficiência, o poder é entregue e se chama isso de aceitação, e aqui ela pode aparecer na compaixão cortada por inteiro, para não ser engolida por ela: tratar tudo com distância técnica, chamar isso de profissionalismo e desligar a competência que essa geração tem. As duas faces têm a mesma matéria-prima, e o que tende a ajudar nas duas é uma compaixão com forma e limite, em vez de menos entrega. Pedir para se blindar apaga a competência. Horário, escopo e um lugar onde o cuidado termina e a própria vida recomeça formam um ajuste que a casa de Plutão e o resto do mapa ajudam a localizar.
Essas questões não significam que toda a geração com Plutão em Peixes vá viver tais conflitos. Uma posição astrológica, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém, e menos ainda sobre quem ainda não nasceu. Elas são caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos de Plutão e de Peixes.
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As partes suas que você esconde ou evita, e como elas podem virar a sua maior força.
Com o tempo, a compaixão pode ganhar forma, sem que seja preciso se importar menos. A entrega continua sendo o talento; o que pode mudar é ela deixar de dissolver quem a pratica. Há um relógio que ajuda a pensar esse arco: a quadratura de Plutão, quando ele chega a noventa graus do ponto que ocupava no nascimento, um quarto da volta. Como a órbita é excêntrica, a idade muda de geração para geração. Ela cai perto dos 36 em Virgem e em Libra, e depois dos 70 em Aquário. Para quem nascer com Plutão em Peixes, ela vem entre os oitenta e cinco e os noventa e um anos, quase no fim, e esta página prefere admitir que não sabe o que isso vai significar. Maturidade, aqui, pode ser distinguir a entrega que constrói da entrega que apaga: continuar se doando, e passar a existir também fora disso. É essa existência que pode transformar sacrifício em cuidado. Cada mapa tem o seu tempo para esse arco.
Para ler Plutão no seu mapa, a casa é a peça que importa, porque ela depende da hora exata e dezenas de milhões de pessoas da mesma faixa dividem o mesmo signo. Pensando nesta posição, na casa 12 ela pode aparecer em quem carrega o que ninguém vê; na casa 9, em quem refaz uma crença de muita gente; na casa 6, em quem faz do cuidado um ofício com regra; na casa 10, numa carreira que lida com o que não se vê. A série Plutão nas 12 casas é onde esta leitura fica sua. E há Saturno, o contrapeso de Plutão: um constrói devagar o que o outro derruba de uma vez, e ler os dois juntos ajuda a separar uma crise que refaz de uma que só destrói. Vale ver também Urano e Netuno nos 12 signos, os outros dois planetas da sua geração, e O Sol nos 12 signos, que a data torna seu de verdade.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a experiência. Ela descreve tendências e não faz previsão, nem ocupa o lugar do seu trabalho e das suas decisões.
Se a pergunta desta página, a da fé e da entrega, também é sua, dá para investigá-la no seu próprio desenho. A leitura Espiritualidade e magia olha para a sua relação com o invisível, e o Mapa de vidas passadas acompanha o que o mapa sugere sobre aquilo que você traz de antes e ainda pede forma.
A pergunta que fica é: no que você se entrega hoje, onde está a borda que deixa você continuar existindo?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre Plutão em Peixes:
Como eu descubro em que signo está o meu Plutão? Pela data: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, dependendo de onde está na órbita. As datas desta série marcam a passagem contínua; nas viradas ele entra, retrograda e entra outra vez, e esse vaivém dura meses, então quem nasceu perto de uma delas precisa do mapa calculado. Sozinho, o signo diz pouco: o pessoal está na casa.
Plutão retrógrado no mapa de nascimento é ruim? Não. Quase metade dos nascimentos tem Plutão assim, uma condição de rotina. O que pode mudar é onde a transformação começa: em vez de vir de um evento externo, ela tende a começar por dentro, e muitas vezes você muda de ideia sobre a própria vida antes de qualquer coisa mudar nela.
Alguém vivo tem Plutão em Peixes? Ninguém. Plutão entra em Peixes em janeiro de 2044 e fica até 2068. Esta página existe para a série ficar completa e para quem chegar aqui em 2045 já encontrar o texto pronto, e ela prefere dizer isso a imaginar uma geração que ainda não existe.
Por que quatro páginas desta série não falam no presente? Porque Plutão leva duzentos e quarenta e oito anos para dar a volta inteira, e uma vida humana não cobre isso. Touro e Gêmeos já se foram, Aquário está nascendo agora e Peixes só chega em 2044. Preencher essas quatro com adjetivos no presente seria inventar gente, então cada uma diz de que tempo está falando.
Plutão ainda é planeta? Para a astronomia, desde 2006 ele é planeta anão. Para a astrologia, a mudança de classificação não altera nada: o que se lê é a posição de um corpo no céu, e ela continua lá, com o mesmo tempo de órbita e o mesmo lugar no mapa. É uma pergunta justa, e a resposta é que as duas disciplinas medem coisas diferentes.
Por que este signo diz tão pouco sobre mim? Porque ele é da sua geração inteira. Plutão leva de doze a trinta e um anos em cada signo, então o texto descreve um clima que dezenas de milhões de pessoas dividem com você. A parte pessoal é a casa em que ele caiu, que depende da hora do seu nascimento, e o jeito como ele conversa com o Sol, a Lua e o Ascendente. Prometer mais que isso seria prometer o que o signo não tem.
Em resumo, Plutão em Peixes pode ser lido como a marca de uma geração que nasce de 2044 a 2068 e que vai lidar com o poder da compaixão e da fé. É a página que fecha a grade; o que fará disso a história de alguém é a casa e o resto do mapa.
Palavras-chave dissolução, fé, compaixão, ilusão
Este dá para saber pela data, quase sempre: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, por causa da órbita alongada. Quem nasceu perto de uma troca de signo, ou num período em que o planeta retrograda e volta ao signo anterior, só tem certeza calculando o mapa com data, hora e cidade. Dá para calcular de graça aqui.
