
Ter Plutão em Leão pode ser lido como a marca da geração nascida entre 1939 e 1958, a que virou do avesso o poder do indivíduo. Na astrologia, Plutão está associado à área da vida que não volta ao que era, onde a crise não devolve o que levou, onde o poder aparece (o seu e o dos outros) e onde a reconstrução vira a saída possível. Leão, por sua vez, é tradicionalmente relacionado à autoria, ao brilho e ao direito de aparecer. Quando aproximamos esses dois campos simbólicos, o indivíduo passa a ser, ele mesmo, a unidade que importa.
Antes de seguir, a ressalva que acompanha as três séries geracionais: o signo de Plutão é da sua geração, e só por meio dela fala de você. Ele fica de doze a trinta e um anos em cada signo, e essa variação vem da órbita dele, a mais excêntrica dos nove corpos que este blog lê. Sozinho, o signo descreve o que uma faixa inteira de gente teve de refazer; a parte pessoal mora na casa em que ele caiu, que depende da hora exata de nascimento. E há um relógio próprio: a quadratura de Plutão não tem idade fixa. Em Urano a oposição cai perto dos 42 e em Netuno a quadratura perto dos 41, para qualquer geração; em Plutão ela varia de 36 a mais de 80 anos, conforme o signo em que ele estava quando você nasceu.
No mito, quase ninguém conseguia comover o senhor do mundo de baixo. Orfeu conseguiu: desceu ao reino de Hades, o Plutão dos romanos, com a lira, e cantou até o deus aceitar devolver Eurídice, com a condição de que ele não olhasse para trás no caminho de volta. Ele olhou, e a perdeu. É uma imagem que conversa com Leão: a força de uma voz pessoal, capaz de dobrar o poder, e o custo de não aceitar um limite. O leão do signo, por sua vez, é o de Nemeia, o primeiro dos trabalhos de Héracles, um animal que nenhuma arma feria. Plutão passou por Leão de junho de 1939 a junho de 1958, dezenove anos, e é a faixa que hoje está entre os sessenta e sete e os oitenta e seis. Quem nasceu nela é a geração mais numerosa que já existiu, e a primeira a crescer com a ideia de que a própria vida era um projeto pessoal. Derrubou instituições e reescreveu o que alguém pode querer, e fez isso também pelo peso do número.
O próprio símbolo diz bastante. Leão é fogo fixo, regido pelo Sol: fogo, o elemento associado à vontade e ao entusiasmo; fixo, a qualidade dos signos que conservam a estação no seu auge, aqui o alto verão do hemisfério norte. O glifo ♌ costuma ser lido como a juba do leão, ou como um coração com a sua curva. Plutão, cujo glifo mais usado, ♇, junta as letras P e L, concentra poder no assunto do signo em que está. Aqui o assunto é a própria pessoa, e a combinação pode ser lida como a que pôs o indivíduo no centro, coisa com que o mundo ainda está lidando.
Uma maneira de investigar essa combinação é olhar o tamanho do espaço que essa geração acha natural ocupar. Podemos imaginar alguém que trata a própria vida como projeto, que não aceita limite sem explicação e que refez a vida depois dos cinquenta, e mais de uma vez. Alguém com relação intensa com os filhos e com o que criou, que às vezes ocupa espaço sem perceber que ocupou e que pode confundir ser importante com ter razão. Arrogância e egocentrismo são os rótulos que esta posição costuma carregar, e eles descrevem o excesso. A mecânica fala de uma geração que pôs o indivíduo no centro e mudou muita coisa a partir daí, e que teve, junto, dificuldade real em aceitar limite, inclusive o do tempo.
Erich Fromm, em Análise do Homem, escreveu: "A tarefa principal do homem na vida é dar à luz a si mesmo." Pensada a partir de Plutão em Leão, a frase descreve a convicção que essa faixa espalhou pelo mundo: a de que cada vida é uma obra a ser feita por quem a vive. Montaigne, nos Ensaios, deixou o contrapeso com humor: "Sentamo-nos no mais alto trono do mundo e ainda assim continuamos sentados sobre o nosso traseiro." A pergunta filosófica que mora nesta combinação pode ser esta: como alguém se torna autor da própria vida sem se tornar dono da vida dos outros?
A luz dessa posição pode ser lida como a convicção pessoal, a crença de que alguém muda as coisas. E há razão histórica para isso: mudou. Direito civil, direito da mulher, costume, arte, trabalho: boa parte do que se considera avanço no último meio século saiu dessa faixa acreditando que dava. Na prática, podemos pensar numa coragem de ir contra o consenso, numa generosidade em criar e em liderar e numa vitalidade que costuma durar bem mais que a dos pais dessa geração. Essa força costuma render em criação, liderança, ensino, política, arte e qualquer arranjo em que assinar o que se faz seja parte do trabalho. Em ambientes que exigem apagamento, sem reconhecimento nenhum ou em que a hierarquia não se explica, ela tende a sofrer.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se aprendemos que a nossa vida é obra nossa, como aceitamos o capítulo em que ela passa a ser de outra pessoa? Se a convicção mudou o mundo, em que momento ela começa a impedir que alguém mais novo mude também? E o que fazemos com o limite que não tem explicação, como o do tempo?
No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Em Plutão, o excesso e a deficiência fazem algo que em nenhum outro planeta acontece: costumam se alternar na mesma vida. Controlar tudo e não conseguir mexer em nada podem ser a mesma dificuldade em dois tempos. No excesso, a convicção vira a certeza de estar sempre com a razão: decidir pelos outros, ocupar o espaço todo sem notar, ou ter dificuldade em envelhecer, em aceitar que a vez agora é de outra pessoa. Na deficiência, o poder é entregue e se chama isso de aceitação, e aqui ela pode aparecer em quem nunca ocupou o próprio lugar: ficou à sombra de alguém da mesma geração, não criou, não assinou, e guardou a sensação de que a própria vida aconteceu com os outros. As duas faces têm a mesma matéria-prima, e o que costuma ajudar nas duas é um poder pessoal que prepara a sucessão, em vez de menos convicção. Pedir humildade forçada tende a produzir a segunda face. Formar alguém mais novo de propósito, com nome e com lugar, ainda no auge, é um ajuste que a casa de Plutão e o resto do mapa ajudam a localizar.
Essas questões não significam que todos os nascidos com Plutão em Leão vivam tais conflitos. Uma posição astrológica, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. Elas são caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos de Plutão e de Leão.
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As partes suas que você esconde ou evita, e como elas podem virar a sua maior força.
Com o tempo, esse poder pode passar a ser passado adiante, e se conter à força costuma ajudar pouco nesse caminho. A convicção continua sendo o talento; o que pode mudar é ela deixar de precisar do lugar de todo mundo. Há um relógio que ajuda a pensar esse arco: a quadratura de Plutão, quando ele chega a noventa graus do ponto que ocupava no nascimento, um quarto da volta. Como a órbita é excêntrica, a idade muda de geração para geração. Ela cai perto dos 36 em Virgem e em Libra, e depois dos 70 em Aquário. Essa geração a viveu entre os trinta e oito e os quarenta e cinco anos, junto com a oposição de Urano, e talvez por isso a crise da meia-idade dela tenha virado assunto de cinema e de livro. Maturidade, aqui, pode ser distinguir o lugar que é seu do lugar ocupado só porque estava vazio: continuar criando, e passar a abrir espaço. É esse espaço que pode transformar domínio em legado. Cada mapa tem o seu tempo para esse arco.
Para ler Plutão no seu mapa, a casa é a peça que importa, porque ela depende da hora exata e milhões de pessoas da mesma faixa dividem o mesmo signo. Nesta posição, na casa 5 ela pode aparecer em quem criou algo que mudou a vida de muita gente; na casa 1, numa presença que ocupa o ambiente inteiro; na casa 10, numa carreira que mudou uma área inteira; na casa 7, em relações todas intensas e definitivas. A série Plutão nas 12 casas é onde esta leitura fica sua. E há Saturno, o contrapeso de Plutão: um constrói devagar o que o outro derruba de uma vez, e ler os dois juntos ajuda a separar uma crise que refaz de uma que só destrói. Vale ver também Urano e Netuno nos 12 signos, os outros dois planetas da sua geração, e O Sol nos 12 signos, que a data torna seu de verdade.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a experiência. Ela descreve tendências e não faz previsão, nem ocupa o lugar do seu trabalho e das suas decisões.
Se você quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Mapa das sombras olha para o seu Plutão e para a casa em que ele caiu, onde o poder pede forma. E Propósito de vida acompanha a pergunta que esta geração costuma fazer na maturidade: o que fica do que eu criei, e para quem?
A pergunta que fica é: que espaço você ocupa hoje porque é seu, e que espaço já poderia ser de outra pessoa?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre Plutão em Leão:
Como eu descubro em que signo está o meu Plutão? Pela data: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, dependendo de onde está na órbita. As datas desta série marcam a passagem contínua; nas viradas ele entra, retrograda e entra outra vez, e esse vaivém dura meses, então quem nasceu perto de uma delas precisa do mapa calculado. Sozinho, o signo diz pouco: o pessoal está na casa.
Plutão retrógrado no mapa de nascimento é ruim? Não. Quase metade dos nascimentos tem Plutão assim, uma condição de rotina. O que pode mudar é onde a transformação começa: em vez de vir de um evento externo, ela tende a começar por dentro, e muitas vezes você muda de ideia sobre a própria vida antes de qualquer coisa mudar nela.
Plutão em Leão quer dizer egocentrismo? Quer dizer que a geração inteira pôs o indivíduo no centro, e isso fala de história; o caráter de cada um se lê em outras peças. Dezenove anos de gente dividem este Plutão, inclusive quem passou a vida servindo aos outros. A parte que é sua está na casa em que ele caiu, e ela depende da hora exata do seu nascimento.
Por que essa geração mudou tanta coisa? Por duas razões que chegaram juntas: ela é a mais numerosa que já existiu, e Plutão em Leão espalhou a convicção de que cada um tem direito à própria vida. Número somado a convicção derruba instituição, e foi o que aconteceu, em quase todo país ao mesmo tempo, entre os anos sessenta e oitenta.
Plutão ainda é planeta? Para a astronomia, desde 2006 ele é planeta anão. Para a astrologia, a mudança de classificação não altera nada: o que se lê é a posição de um corpo no céu, e ela continua lá, com o mesmo tempo de órbita e o mesmo lugar no mapa. É uma pergunta justa, e a resposta é que as duas disciplinas medem coisas diferentes.
Por que este signo diz tão pouco sobre mim? Porque ele é da sua geração inteira. Plutão leva de doze a trinta e um anos em cada signo, então o texto descreve um clima que dezenas de milhões de pessoas dividem com você. A parte pessoal é a casa em que ele caiu, que depende da hora do seu nascimento, e o jeito como ele conversa com o Sol, a Lua e o Ascendente. Prometer mais que isso seria prometer o que o signo não tem.
Em resumo, Plutão em Leão pode ser lido como a marca da geração de 1939 a 1958, a mais numerosa que já existiu, que pôs o indivíduo no centro e mudou boa parte do mundo com essa convicção. A maturidade dela passa por abrir espaço, e a casa mostra onde.
Palavras-chave poder, autoria, geração, arrogância
Este dá para saber pela data, quase sempre: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, por causa da órbita alongada. Quem nasceu perto de uma troca de signo, ou num período em que o planeta retrograda e volta ao signo anterior, só tem certeza calculando o mapa com data, hora e cidade. Dá para calcular de graça aqui.
