
Ter Plutão em Áries pode ser lido como a marca de uma geração que ainda vai nascer, a partir de 2068: a que vai refazer o que é começar e o que é usar a própria força. Na astrologia, Plutão está associado à área da vida que não volta ao que era, onde a crise não devolve o que levou, onde o poder aparece (o seu e o dos outros) e onde a reconstrução vira a saída possível, porque o caminho de volta deixou de existir. Áries, por sua vez, é tradicionalmente relacionado ao impulso, à iniciativa e ao primeiro gesto. Quando aproximamos os dois campos simbólicos, aparece uma imagem curiosa: o começo deixa de ser leve e passa a ter consequência que não se desfaz.
Antes de seguir, a ressalva que acompanha as três séries geracionais, e aqui ela pesa ainda mais: o signo de Plutão é da sua geração, e só por meio dela fala de você. Ele fica de doze a trinta e um anos em cada signo, e essa variação vem da órbita dele, a mais excêntrica dos nove corpos que este blog lê. Sozinho, o signo de Plutão descreve o que uma faixa inteira de gente teve de refazer; é uma leitura de história, e a parte pessoal mora na casa em que ele caiu, que depende da hora exata de nascimento, e na conversa dele com o resto do mapa. Há também um relógio próprio: a quadratura de Plutão não tem idade fixa. Em Urano a oposição cai perto dos 42 e em Netuno a quadratura perto dos 41, para qualquer geração; em Plutão ela varia de 36 a mais de 80 anos, conforme o signo em que ele estava quando você nasceu.
Essa leitura de Plutão tem uma história curta no céu e longa no mito. O planeta só foi encontrado em 1930, numa comparação de chapas fotográficas, e recebeu o nome do deus romano do mundo de baixo, o mesmo que os gregos chamavam de Hades. Entre os poucos heróis que desceram até lá e voltaram está Héracles, que no último dos seus trabalhos foi buscar Cérbero, o cão que guardava a porta dos mortos. É uma imagem que conversa com Áries: a força que entra onde ninguém entra e sai com alguma coisa nas mãos. O carneiro do signo, por sua vez, é o do velocino de ouro, e Áries abre o zodíaco no equinócio de março, o começo do ano astrológico. Plutão entra em Áries em fevereiro de 2068 e fica até 2098, e a passagem anterior terminou em 1851. Ninguém vivo hoje tem este Plutão, e esta é a página mais distante da série.
O próprio símbolo diz bastante. Áries é fogo cardinal, regido por Marte: fogo, o elemento associado à vontade e ao que se acende; cardinal, a qualidade dos signos que abrem estação. O glifo ♈ costuma ser lido como os chifres do carneiro, ou como um broto que acabou de sair da terra. O glifo mais usado para Plutão, ♇, junta as letras P e L, e há uma versão mais antiga que desenha um círculo sobre uma taça e uma cruz, como um espírito pousado sobre a matéria. Juntas, essas imagens sugerem poder dentro do primeiro gesto, a partida que já carrega peso.
Uma maneira de investigar essa combinação, sabendo que ela descreve gente que ainda não nasceu, é imaginar o que pode mudar entre o que essa geração vai considerar aceitável começar e o que a anterior considerava. Podemos pensar em alguém que trata o próprio impulso como coisa séria, descobre cedo que agir tem consequência que não volta e talvez refaça a própria vida mais de uma vez, por inteiro. Podemos pensar também numa relação intensa com a própria vontade, que custa a aceitar um impedimento sem motivo, e no risco de confundir força com direito. Agressividade e dominação são dois rótulos que esta posição costuma carregar, e eles descrevem o excesso. A mecânica fala de outra coisa: uma geração que põe poder dentro do gesto de começar. Preencher essa página com adjetivos seria inventar uma biografia; o que dá para fazer é mostrar o mecanismo e deixar as perguntas abertas.
Kierkegaard deixou nos seus Diários uma frase que serve a qualquer página escrita sobre o futuro: "A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente." Pensada a partir de Plutão em Áries, ela lembra que esta geração vai viver o próprio começo sem o mapa de quem veio antes, e que só depois saberá o que fez. Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, escreveu: "Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um monstro." A frase toca o ponto delicado desta combinação. Quando a força serve para derrubar o que oprime, ela pode acabar tomando a forma do que derrubou. Podemos pensar a pergunta filosófica que mora aqui como esta: o que separa a força que abre caminho da força que só se impõe?
A luz dessa posição pode ser lida como a iniciativa que muda a escala. Quando poder e impulso ficam na mesma peça, o que se começa tende a ser grande, e boa parte do que uma época deixa para a seguinte vem de gente disposta a começar sem garantia. Na prática, podemos imaginar a coragem de agir sem saber o resultado, a capacidade de refazer a vida do zero mais de uma vez e uma clareza sobre o próprio poder que muitas gerações levam décadas para ter. Essa força costuma render em fundação de coisa nova, esporte, socorro, liderança e qualquer arranjo em que alguém precise decidir. Em ambientes que exigem esperar autorização, onde ninguém decide ou onde a força é tratada como defeito, ela tende a perder o rumo.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se precisamos agir para existir, como reconhecemos a hora de esperar? Se a nossa força é real, de quem pedimos licença antes de usá-la? E quando o impulso vem acompanhado de raiva, conseguimos distinguir a sinceridade da descarga?
No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Em Plutão, o excesso e a deficiência fazem algo que em nenhum outro planeta acontece: costumam se alternar na mesma vida. Controlar tudo e não conseguir mexer em nada podem ser a mesma dificuldade em dois tempos. No excesso, o impulso pode virar imposição: decidir sem consultar, atropelar e depois não entender por que ninguém ficou por perto, ou tratar a raiva como franqueza. Na deficiência, a mesma força pode dar medo, e então se entrega o controle da própria vida e se chama isso de aceitação: não decidir, não começar, esperar que alguém resolva, enquanto a energia que não sai como iniciativa vira uma irritação de fundo com quem decide no seu lugar. As duas faces têm a mesma matéria-prima, e o que costuma ajudar nas duas é dar à força um alvo e um limite escrito, em vez de pedir menos coragem. Pedir contenção tende a produzir a segunda face. Uma decisão grande por vez, combinada antes com quem ela afeta, é um ajuste que a casa de Plutão e o resto do mapa ajudam a localizar.
Essas questões não significam que toda a geração com Plutão em Áries vá viver tais conflitos. Uma posição astrológica, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém, e menos ainda sobre quem ainda não nasceu. Elas são caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos de Plutão e de Áries.
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As partes suas que você esconde ou evita, e como elas podem virar a sua maior força.
Com o tempo, essa força pode ganhar destino; aprender a recuar, aqui, ajuda pouco. A iniciativa continua sendo o talento; o que pode mudar é ela deixar de custar as pessoas em volta. Há um relógio que ajuda a pensar esse amadurecimento: a quadratura de Plutão, quando ele chega a noventa graus do ponto que ocupava no nascimento, um quarto da volta. Como a órbita é excêntrica, a idade muda de geração para geração. Ela cai perto dos 36 em Virgem e em Libra, e depois dos 70 em Aquário. Para quem nascer com Plutão em Áries, ela vem depois dos oitenta e cinco, a mais tardia das doze, e esta página prefere admitir que não sabe como será chegar lá. Maturidade, aqui, pode ser distinguir a força que abre caminho da força que só derruba: continuar começando, e passar a avisar antes. É esse aviso que pode transformar imposição em liderança. Cada mapa tem o seu tempo para esse arco.
Para ler Plutão no seu mapa, a casa é a peça que importa, porque ela depende da hora exata e dezenas de milhões de pessoas da mesma faixa dividem o mesmo signo. Pensando nesta posição, na casa 1 ela pode aparecer como uma presença que muda o ambiente sem pedir; na casa 10, em quem refaz uma área inteira de trabalho; na casa 7, em relações que são todas intensas; na casa 2, em quem refaz a própria fonte de renda várias vezes. A série Plutão nas 12 casas é onde esta leitura fica sua. E há Saturno, o contrapeso de Plutão: um constrói devagar o que o outro derruba de uma vez, e ler os dois juntos ajuda a separar uma crise que refaz de uma que só destrói. Vale ver também Urano e Netuno nos 12 signos, os outros dois planetas da sua geração, e O Sol nos 12 signos, que a data torna seu de verdade.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a experiência. Ela descreve tendências e não faz previsão, nem ocupa o lugar do seu trabalho e das suas decisões.
Se você quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Mapa das sombras olha para o seu Plutão, para a casa em que ele caiu e para o jeito como você lida com a própria força. O Mapa kármico acompanha o que se repete e pede para ser refeito, que é assunto de Plutão em qualquer signo.
A pergunta que fica é: onde, na sua vida, um começo já teve consequência que não voltou atrás, e o que você aprendeu sobre a sua força com isso?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre Plutão em Áries:
Como eu descubro em que signo está o meu Plutão? Pela data: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, dependendo de onde está na órbita. As datas desta série marcam a passagem contínua; nas viradas ele entra, retrograda e entra outra vez, e esse vaivém dura meses, então quem nasceu perto de uma delas precisa do mapa calculado. Sozinho, o signo diz pouco: o pessoal está na casa.
Plutão retrógrado no mapa de nascimento é ruim? Não. Quase metade dos nascimentos tem Plutão assim, uma condição de rotina. O que pode mudar é onde a transformação começa: em vez de vir de um evento externo, ela tende a começar por dentro, e muitas vezes você muda de ideia sobre a própria vida antes de qualquer coisa mudar nela.
Alguém vivo tem Plutão em Áries? Ninguém. Plutão entra em Áries em fevereiro de 2068, e a passagem anterior terminou em 1851. Esta página existe para a série ficar completa e para quem chegar aqui em 2070 já encontrar o texto pronto, e ela prefere dizer isso a imaginar uma geração que ainda não existe.
Por que Plutão fica tão mais tempo em uns signos que em outros? Porque a órbita dele é a mais excêntrica dos corpos que este blog lê: ele se aproxima muito do Sol numa parte da volta e se afasta muito na outra, e anda mais rápido quando está perto. São onze anos em Escorpião e trinta e um em Touro, e é por isso que a quadratura de Plutão não tem uma idade só.
Plutão ainda é planeta? Para a astronomia, desde 2006 ele é planeta anão. Para a astrologia, a mudança de classificação não altera nada: o que se lê é a posição de um corpo no céu, e ela continua lá, com o mesmo tempo de órbita e o mesmo lugar no mapa. É uma pergunta justa, e a resposta é que as duas disciplinas medem coisas diferentes.
Por que este signo diz tão pouco sobre mim? Porque ele é da sua geração inteira. Plutão leva de doze a trinta e um anos em cada signo, então o texto descreve um clima que dezenas de milhões de pessoas dividem com você. A parte pessoal é a casa em que ele caiu, que depende da hora do seu nascimento, e o jeito como ele conversa com o Sol, a Lua e o Ascendente. Prometer mais que isso seria prometer o que o signo não tem.
Em resumo, Plutão em Áries pode ser lido como a marca de uma geração que ainda vai nascer, a partir de 2068, e que vai pôr poder dentro do gesto de começar. O que dá para descrever agora é a mecânica; o que fará disso a história de alguém é a casa e o resto do mapa.
Palavras-chave início, força, ruptura, violência
Este dá para saber pela data, quase sempre: Plutão fica de doze a trinta e um anos em cada signo, por causa da órbita alongada. Quem nasceu perto de uma troca de signo, ou num período em que o planeta retrograda e volta ao signo anterior, só tem certeza calculando o mapa com data, hora e cidade. Dá para calcular de graça aqui.
