A astrologia nos Países Baixos
Os Países Baixos imprimiram a astrologia que o resto da Europa não podia imprimir.
A contribuição neerlandesa à astrologia é menos de doutrina e mais de circulação. Não há aqui um Kepler nem um Lilly, e inventar um seria fácil e errado. O que há é o que uma lista de nomes esconde: sem os Países Baixos, boa parte do que se escreveu noutros lugares teria chegado a muito menos gente, e vários instrumentos de que a astrologia depende não existiriam.
Durante o século XVII, a República Neerlandesa foi o centro de impressão da Europa, com uma tolerância a ideias que outros lugares não tinham. Livros proibidos noutros países eram impressos em Amsterdã e Leida e dali seguiam para toda a parte, às vezes com falsa indicação de origem na folha de rosto.
E os almanaques foram impressos e vendidos em enorme quantidade. Um almanaque daquela época misturava calendário, fases da Lua, previsão do tempo, conselhos de plantio, tabelas de marés e astrologia — tudo no mesmo caderno barato, comprado por gente que talvez não tivesse outro livro em casa.
É uma peça subestimada nesta história. Foi pelo almanaque que a astrologia chegou a quem não lia latim nem frequentava corte nenhuma, e o formato sobreviveu: a coluna de jornal do século XX, que este blog conta na página da Inglaterra, é neta direta dele. O mesmo pacote de utilidade e curiosidade, vendido barato e lido por milhões.
O que os Países Baixos deram à astrologia
Os Países Baixos deram à astrologia a imprensa. Sem a circulação que eles garantiram, boa parte do que se escreveu noutros lugares teria ficado nas bibliotecas.
Cinco coisas sobre o céu dos Países Baixos
O instrumento que mudou a astronomia foi inventado aqui, e por um fabricante de óculos. Em 1608, em Middelburg, Hans Lipperhey pediu patente de um aparelho que aproximava as coisas distantes. A patente foi negada porque outros diziam ter feito o mesmo, mas a notícia correu a Europa em poucos meses — e foi ao ouvir falar dela que Galileu montou o seu e o apontou para Júpiter. A luneta é neerlandesa; virá-la para o céu foi ideia de outro.
Há uma ligação direta entre a ilha de Tycho Brahe e as prensas de Amsterdã, e ela tem nome. Willem Blaeu passou meses em Hven, no fim do século XVI, aprendendo a medir e a construir instrumentos com Tycho. Voltou para casa, abriu oficina em Amsterdã e virou o maior fabricante de globos, mapas e atlas do seu tempo, cartógrafo oficial da Companhia das Índias Orientais.
Repare no que isso quer dizer para esta série: a precisão que a página da Dinamarca conta virou, nas mãos de um aluno, o mapa impresso que a Europa inteira comprou. Medir bem é uma coisa; fazer o resultado chegar a milhares de mãos é outra, e foi a segunda que os Países Baixos fizeram melhor do que ninguém.
E há uma contribuição neerlandesa que toca o mapa astral de perto, embora quase nunca seja lembrada por isso. Christiaan Huygens construiu em 1656 o primeiro relógio de pêndulo que funcionava, e com ele o erro diário na medição do tempo caiu de minutos para segundos. Um mapa astral precisa da hora do nascimento, porque o Ascendente anda, em média, um grau a cada quatro minutos. Antes de existir relógio confiável, essa hora era um palpite — e quem a tornou anotável foi um holandês que estava atrás da longitude no mar.
Huygens também descobriu Titã e explicou as formas estranhas que Galileu tinha visto em Saturno: um anel, sem contato com o planeta. Publicou a conclusão em anagrama, para garantir a prioridade sem entregar o resultado antes de ter certeza — um costume da época que hoje pareceria loucura.
Willebrord Snellius, de Leiden, deixou duas coisas úteis para quem mede o céu. Calculou a distância entre duas cidades por triangulação, criando o método com que se levantaram cartas por três séculos, e formulou a lei da refração — a que explica por que o Sol aparece inteiro acima do horizonte quando, pela geometria, ainda está abaixo dele. Quem compara "o Sol nascendo" com o grau que sobe no horizonte precisa dessa correção, e é ela que faz o nascer do Sol não bater com a conta pura.
Antes de todos eles, Gemma Frisius, nascido em Dokkum, propôs em 1530 achar a longitude comparando a hora de um relógio levado a bordo com a hora local — a solução certa, cem anos antes de existir relógio capaz de aguentar a viagem. Era matemático, médico e levantava horóscopos, como se esperava de quem tinha essa formação. Mercator foi aluno dele.
E a história dos almanaques tem um fim que ninguém espera: ela não acabou. O Enkhuizer Almanak, impresso desde o fim do século XVI, continua saindo todo ano, com fases da Lua, tábuas de maré, calendário e conselho de plantio, e é a publicação periódica mais antiga do país. O formato que levou a astrologia a quem não lia latim sobreviveu a tudo — às academias, aos jornais, à internet — e ainda está nas prateleiras.
O observatório universitário mais antigo ainda em funcionamento é neerlandês: o de Leiden, montado em 1633 no telhado do prédio principal da universidade para abrigar um dos quadrantes de Tycho Brahe que tinham vindo parar ali. Outra vez a mesma corrente — os instrumentos da ilha dinamarquesa, os alunos, as prensas de Amsterdã.
E um detalhe que junta filosofia e vidro: Espinosa, em Amsterdã e depois em Haia, ganhava a vida polindo lentes, e as dele eram boas o bastante para Huygens comentar a qualidade. O filósofo que escreveu contra a ideia de que a natureza age com um propósito — que é a hipótese de fundo de toda astrologia — fabricava o vidro com que se olhava para os planetas. Ele não precisou escolher entre as duas coisas para pagar o aluguel.
Os globos da casa Blaeu, aliás, eram vendidos aos pares: um da Terra e um do céu, do mesmo tamanho, para ficarem lado a lado na sala. Um comerciante de Amsterdã com dinheiro tinha em casa, como móvel, o desenho completo das constelações. Era o objeto que dizia ao visitante que ali morava gente que entendia do mundo — e o céu fazia parte disso.
E a imagem astrológica mais reproduzida da história da impressão saiu desses almanaques: o homem zodiacal, a figura de um corpo humano com os doze signos distribuídos pelas partes — Áries na cabeça, Peixes nos pés —, que servia para escolher onde e quando sangrar um doente. Estava em quase todo almanaque europeu, e foi por ela que milhões de pessoas que não liam tratado nenhum aprenderam os nomes dos doze signos. É a avó da coluna de jornal.
E o céu de Amsterdã é diferente — isto dá para medir
A parte da astrologia que depende do LUGAR, e não só da data, é o Ascendente: o grau do zodíaco que está a subir no horizonte no instante do nascimento. Ele muda a cada duas horas e depende da latitude da cidade.
E os doze signos não sobem à mesma velocidade. Alguns levam mais de duas horas a cruzar o horizonte e outros menos de uma, e essa diferença cresce quanto mais longe do equador se está. Sorteei 200 mil instantes entre 1950 e 2010 e calculei o Ascendente para Amsterdã, a 52° ao norte:
| Em Amsterdã, 52° ao norte | Medido |
|---|---|
| O Ascendente mais comum | Escorpião, 12,0% |
| O menos comum | Áries, 3,5% |
| Quantas vezes um é mais provável que o outro | 3,4× |
| Se o sorteio fosse justo | 8,3% para cada |
Repare no que isso quer dizer: duas pessoas nascidas exatamente na mesma hora, uma em Amsterdã e outra numa cidade de outra latitude, podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada Ascendente muda com o lugar. A cidade do nascimento não é um detalhe administrativo do formulário: ela entra na conta.
O padrão desta série é de geometria pura, e dá para dizer numa frase: quanto mais longe do equador, mais desigual o sorteio. Em Copenhague, a 56 graus norte, a diferença entre o Ascendente mais comum e o menos comum é de 4,3 vezes; em São Paulo, a 23 graus sul, cai para 1,5.
O seu Ascendente depende da hora e da cidade em que você nasceu, e nenhuma tabela de signo solar alcança isso. São dois dados que só o cálculo entrega.
Gerar o meu mapa de graçaPerguntas frequentes
A astrologia nos Países Baixos tem história própria?
A contribuição neerlandesa à astrologia é menos de doutrina e mais de circulação. Não há aqui um Kepler nem um Lilly, e inventar um seria fácil e errado. O que há é o que uma lista de nomes esconde: sem os Países Baixos, boa parte do que se escreveu noutros lugares teria chegado a muito menos gente, e vários instrumentos de que a astrologia depende não existiriam.
Por que a latitude muda o Ascendente?
Porque o Ascendente é o grau do zodíaco que está a subir no horizonte, e os signos não sobem todos à mesma velocidade. Quanto mais longe do equador, maior a diferença: alguns signos levam mais de duas horas a subir e outros menos de uma. Perto do equador o sorteio é quase justo; perto do polo, alguns signos quase não aparecem.
Isso quer dizer que o meu signo ascendente é comum ou incomum?
Quer dizer que a conta depende de onde você nasceu, e não só de quando. Duas pessoas nascidas na mesma hora em cidades de latitudes diferentes podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada um muda com o lugar. É uma das razões pelas quais um mapa precisa da cidade, e não só da data.
Onde posso ver o meu Ascendente?
No mapa astral, que este site calcula de graça a partir de data, hora e cidade de nascimento. O Ascendente muda a cada duas horas, então a hora importa: um erro de duas horas costuma trocar o signo inteiro.
A astrologia nos Países Baixos em resumo
Palavras-chave almanaques, imprensa, circulação
Os números desta página valem para quem nasceu em Amsterdã ou perto dela, porque saem da latitude. O que não sai deles é o seu Ascendente. Ele muda a cada duas horas, e sem a hora do nascimento não há como saber qual é o seu — a frequência de cada um descreve a população, e não você.