A astrologia na Itália
Na Itália a astrologia foi assunto de filósofo, e teve o seu melhor inimigo.
A Itália fez pela astrologia uma coisa que nenhum outro lugar fez: pô-la no centro de uma discussão filosófica séria sobre a natureza do mundo — e produziu, no mesmo século, a defesa mais sofisticada e o ataque mais duro.
Antes disso, no século XIII, Guido Bonatti deixou um tratado que organizou a prática medieval e circulou pela Europa inteira. Ele era astrólogo de cidades em guerra, e a fama dele chegou longe o bastante para Dante o pôr no Inferno, entre os adivinhos que andam com a cabeça virada para trás — castigo para quem quis ver o que estava à frente. Dante conhecia astrologia bem: a estrutura da Divina Comédia assenta nos céus planetários.
No século XV, Marsílio Ficino, em Florença, escreveu sobre como usar as qualidades planetárias na vida prática — escolher músicas, cores, alimentos e horas conforme o planeta que se quer chamar. É a raiz culta do que hoje se chama magia astrológica, e é um assunto que este blog trata numa página própria.
E foi um aluno do círculo de Ficino que escreveu contra ela. Pico della Mirandola produziu uma refutação em doze livros da astrologia que prevê o destino, com argumentos que ainda hoje se usam: os astrólogos discordam entre si, erram nas previsões verificáveis, e atribuem aos planetas causas que se explicam melhor por outras vias. A crítica mais forte à astrologia veio de dentro do lugar onde ela era mais levada a sério.
Girolamo Cardano, médico e matemático do século XVI, publicou coleções de mapas de pessoas conhecidas com comentários — uma forma antiga de fazer o que hoje se chamaria de estudo de casos. A Itália também foi onde a tensão com a Igreja ficou mais visível: papas consultaram astrólogos e papas condenaram a astrologia, às vezes no mesmo século.
O que a Itália deu à astrologia
A Itália deu à astrologia a sua camada culta — a pergunta sobre o que ela significa, feita por gente que também sabia calcular, e a objeção mais bem escrita que ela já recebeu.
Cinco coisas sobre o céu da Itália
Em Ferrara existe uma sala que é um tratado de astrologia pintado na parede. O Palácio Schifanoia tem o Salão dos Meses, do século XV, com cada mês em três faixas: em cima o deus romano em desfile, embaixo a vida da corte, e no meio uma faixa de figuras estranhas que durante séculos ninguém soube explicar. São os decanatos — as três divisões de dez graus de cada signo —, e as figuras chegaram ali por tratados árabes que por sua vez recolhiam imagens de origem indiana.
Quem identificou isso foi o historiador da arte Aby Warburg, no começo do século XX. A parede de Ferrara é o mapa do caminho que a astrologia fez: uma imagem nascida na Índia, escrita em árabe, traduzida no Ocidente e pintada num palácio italiano por um pintor que provavelmente não sabia de onde ela vinha.
Em Florença há duas cúpulas com o céu de uma noite determinada. Na Sacristia Velha de San Lorenzo e na Capela Pazzi, estrelas e planetas estão em posições que correspondem a uma data concreta do século XV — a proposta mais aceita é 4 de julho de 1442, e ainda se discute por que essa. Não é um céu decorativo: é um instante escolhido e registrado em pedra, pelo mesmo motivo que faz alguém anotar a hora de um nascimento.
Galileu levantava mapas astrais por encomenda, e cobrava por isso. Estão no arquivo dele, escritos de próprio punho, incluindo os das duas filhas e os de patronos que os pediam. Ele ensinava astrologia como parte do curso de medicina em Pádua, que era o que se esperava de um professor de matemática na época. Quem imagina a ciência moderna começando com uma recusa limpa da astrologia tem de explicar essa caligrafia.
O caso mais extraordinário envolve um papa. Corria em Roma, no fim dos anos 1620, que os astros anunciavam a morte de Urbano VIII, e os astrólogos falavam nisso. O papa chamou Tommaso Campanella, que executou com ele um procedimento de magia astrológica na linha de Ficino — sala fechada, panos brancos, tochas e música, para imitar um céu favorável e substituir o eclipse que acontecia lá fora. Pouco depois, em 1631, veio a bula Inscrutabilis, que condenava a astrologia judiciária com dureza inédita.
Vale ler a sequência na ordem: o papa usou a astrologia para se defender dela e depois a proibiu. A condenação mais severa partiu de quem tinha acabado de recorrer ao procedimento. É um retrato do lugar que a astrologia ocupava — levada a sério o bastante para dar medo.
E há um instrumento astronômico dentro de uma igreja italiana, que é o melhor fecho possível para esta seção. Na basílica de San Petronio, em Bolonha, Cassini instalou em 1655 uma linha meridiana: um furo no alto da nave deixa entrar um raio de Sol que cai sobre uma faixa de metal no chão, marcada com os signos. O comprimento é tamanho que dá para acompanhar, dia a dia, a posição do Sol com boa precisão. Servia ao calendário — a data da Páscoa — e continua lá. Um relógio de Sol do tamanho de uma catedral, com o zodíaco no chão, dentro do prédio da instituição que condenava a astrologia judiciária.
Há uma palavra italiana de origem astrológica que o mundo inteiro repete todo inverno sem pensar nisso. Influenza é o nome de uma doença porque os médicos italianos atribuíam as epidemias à influência dos astros — o mesmo influxus da página da França. Quando alguém diz que está com gripe, está repetindo um diagnóstico astrológico do século XVI.
A Universidade de Bolonha tinha um cargo de astrólogo com obrigação contratual: quem o ocupava devia publicar todo ano um juízo sobre o que esperar dos meses seguintes, para a cidade. Era função pública, com prazo e entrega — e obrigava a errar por escrito, em documento arquivado, o que é mais do que a maioria dos praticantes de hoje aceita.
E foi em Bolonha que um estudante polonês se hospedou em casa do astrônomo Domenico Maria Novara e o ajudou nas observações. O estudante era Copérnico. Quem veio a mover a Terra do centro do mundo aprendeu o ofício ao lado de alguém cuja função incluía produzir prognósticos, na universidade que pagava por eles.
E há em Roma um mapa astral pintado no teto de uma sala. Na Villa Farnesina, o banqueiro Agostino Chigi mandou Peruzzi cobrir a abóbada da entrada com as figuras do céu na posição exata do nascimento dele. Historiadores calcularam a data a partir do que está pintado e chegaram a 1466. Não é alegoria: é a carta natal de um homem vivo, em escala de teto, feita para quem entrasse na casa ver de quem era aquele destino.
E o céu de Roma é diferente — isto dá para medir
A parte da astrologia que depende do LUGAR, e não só da data, é o Ascendente: o grau do zodíaco que está a subir no horizonte no instante do nascimento. Ele muda a cada duas horas e depende da latitude da cidade.
E os doze signos não sobem à mesma velocidade. Alguns levam mais de duas horas a cruzar o horizonte e outros menos de uma, e essa diferença cresce quanto mais longe do equador se está. Sorteei 200 mil instantes entre 1950 e 2010 e calculei o Ascendente para Roma, a 42° ao norte:
| Em Roma, 42° ao norte | Medido |
|---|---|
| O Ascendente mais comum | Escorpião, 10,8% |
| O menos comum | Peixes, 4,8% |
| Quantas vezes um é mais provável que o outro | 2,3× |
| Se o sorteio fosse justo | 8,3% para cada |
Repare no que isso quer dizer: duas pessoas nascidas exatamente na mesma hora, uma em Roma e outra numa cidade de outra latitude, podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada Ascendente muda com o lugar. A cidade do nascimento não é um detalhe administrativo do formulário: ela entra na conta.
O padrão desta série é de geometria pura, e dá para dizer numa frase: quanto mais longe do equador, mais desigual o sorteio. Em Copenhague, a 56 graus norte, a diferença entre o Ascendente mais comum e o menos comum é de 4,3 vezes; em São Paulo, a 23 graus sul, cai para 1,5.
O seu Ascendente depende da hora e da cidade em que você nasceu, e nenhuma tabela de signo solar alcança isso. São dois dados que só o cálculo entrega.
Gerar o meu mapa de graçaPerguntas frequentes
A astrologia na Itália tem história própria?
A Itália fez pela astrologia uma coisa que nenhum outro lugar fez: pô-la no centro de uma discussão filosófica séria sobre a natureza do mundo — e produziu, no mesmo século, a defesa mais sofisticada e o ataque mais duro. Antes disso, no século XIII, Guido Bonatti deixou um tratado que organizou a prática medieval e circulou pela Europa inteira.
Por que a latitude muda o Ascendente?
Porque o Ascendente é o grau do zodíaco que está a subir no horizonte, e os signos não sobem todos à mesma velocidade. Quanto mais longe do equador, maior a diferença: alguns signos levam mais de duas horas a subir e outros menos de uma. Perto do equador o sorteio é quase justo; perto do polo, alguns signos quase não aparecem.
Isso quer dizer que o meu signo ascendente é comum ou incomum?
Quer dizer que a conta depende de onde você nasceu, e não só de quando. Duas pessoas nascidas na mesma hora em cidades de latitudes diferentes podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada um muda com o lugar. É uma das razões pelas quais um mapa precisa da cidade, e não só da data.
Onde posso ver o meu Ascendente?
No mapa astral, que este site calcula de graça a partir de data, hora e cidade de nascimento. O Ascendente muda a cada duas horas, então a hora importa: um erro de duas horas costuma trocar o signo inteiro.
A astrologia na Itália em resumo
Palavras-chave Ficino, Pico della Mirandola, Bonatti
Os números desta página valem para quem nasceu em Roma ou perto dela, porque saem da latitude. O que não sai deles é o seu Ascendente. Ele muda a cada duas horas, e sem a hora do nascimento não há como saber qual é o seu — a frequência de cada um descreve a população, e não você.