A astrologia na França
A França deu à astrologia o seu tratado mais sistemático — e a primeira tentativa de medi-la.
A corte francesa do século XVI foi um dos lugares onde a astrologia esteve mais perto do poder. Catarina de Médici, italiana de nascimento, levou para França o gosto florentino pelo assunto, e Nostradamus é o nome que todos conhecem desse período. Vale separar o que ele era do que virou: médico e astrólogo, consultado pela rainha, e autor de versos proféticos deliberadamente obscuros que hoje ofuscam o resto do trabalho dele.
Menos conhecido e muito mais importante para a técnica é Jean-Baptiste Morin de Villefranche, astrólogo de Luís XIII e autor da Astrologia Gallica, do século XVII. O projeto dele era organizar a astrologia como um sistema coerente, derivado de princípios, em vez de uma coleção de regras herdadas que cada autor repetia do anterior. Quem estuda astrologia técnica ainda discute Morin, e ainda discorda dele.
Conta-se que Morin esteve presente ao nascimento de Luís XIV para anotar a hora exata. Verdadeiro ou não, o episódio diz o que interessa sobre a época: a hora do nascimento de um rei era informação de Estado, porque dela saía o mapa de um reinado.
E há um terceiro capítulo, do século XX, que é o mais próximo do que este site tenta fazer. Michel Gauquelin passou décadas a submeter afirmações astrológicas a teste estatístico, com bases de milhares de nascimentos recolhidos em registros oficiais. A maior parte do que ele testou não se confirmou — e ele publicou isso, o que quase ninguém faz. Algumas correlações que ele encontrou continuam sendo discutidas até hoje, sem acordo.
É a atitude que falta à astrologia popular: medir, e dizer o que a medição respondeu, mesmo quando a resposta é "não".
O que a França deu à astrologia
A França deu a Morin, que quis organizar a astrologia por dentro, e Gauquelin, que quis testá-la por fora. Os dois projetos são mais interessantes que as profecias que ficaram famosas.
Cinco coisas sobre o céu da França
Comece pelas palavras. Influência era termo técnico de astrologia: o influxus, o fluido que se acreditava escorrer dos astros para as coisas daqui. Passou ao francês e do francês às outras línguas modernas, e hoje descreve o que um amigo faz com a opinião do outro. Está na mesma família de desastre — estrela contrária —, de jovial, de saturnino, de marcial, de mercurial e de lunático. O vocabulário sobreviveu à doutrina, e é falado todo dia por gente que não acredita em nada disso.
A corte que consultava astrólogos foi também a que os proibiu. Depois do caso dos venenos, que na década de 1670 expôs uma rede parisiense de envenenadoras, adivinhas e vendedores de filtros ligada à própria nobreza, Luís XIV assinou em 1682 um édito contra a adivinhação. O texto tratava a leitura do futuro como embuste e a punha ao lado do veneno e da magia. Não foi uma discussão sobre astronomia: foi polícia.
Um século depois, a Revolução tentou refazer o tempo. O calendário republicano de 1793 acabou com a semana de sete dias — que é uma lista de planetas, e continua sendo em francês: lundi é o dia da Lua, mardi o de Marte, mercredi o de Mercúrio, jeudi o de Júpiter, vendredi o de Vênus. No lugar, dez dias por década e meses batizados pelo tempo e pela colheita: Germinal, Floreal, Brumário.
Aqui cabe um desvio: o português é a exceção da família. Segunda-feira, terça, quarta — os números no lugar dos deuses. A troca é atribuída a Martinho de Dume, bispo do século VI no noroeste da península, que preferiu os nomes litúrgicos aos planetários. O francês guardou os planetas e a Revolução teve de brigar com eles; o português já os tinha perdido mil anos antes, por decisão da Igreja.
E, ainda assim, o ano novo republicano começava no equinócio de setembro, calculado para o meridiano de Paris. Quiseram tirar os planetas do calendário e ficaram com o Sol, porque sem um acontecimento do céu não há como começar um ano. Durou treze anos. A semana dos planetas voltou e está aí.
De volta ao século XX: o que Gauquelin encontrou tem nome e ainda rende discussão. Ele reparou que, nos nascimentos de esportistas de alto nível, Marte aparecia com frequência um pouco acima do esperado logo depois de nascer ou de culminar — as duas regiões que a astrologia chama de angulares. O efeito é pequeno, aparece só em amostras grandes, e foi alvo de várias tentativas de repetição, com resultados que os dois lados leem de maneira diferente até hoje.
Duas coisas merecem ser ditas com todas as letras. A primeira: o resto do que Gauquelin testou — signo solar, aspectos, compatibilidade de casais — não se confirmou, e ele publicou isso. A segunda: mesmo a parte que sobrou não dá base a nenhuma coluna de jornal, porque fala de uma inclinação estatística numa população inteira, e não do que vai acontecer com uma pessoa na terça-feira.
Antes dele, Paul Choisnard já tinha tentado o mesmo no começo do século, com amostras menores e método mais frágil. A França tem essa linhagem própria: a de quem resolveu contar em vez de discutir. É a linhagem em que esta página procura se encaixar — daqui para baixo, só número.
Paris teve o próprio meridiano e brigou por ele. O Observatório foi fundado em 1667, com Cassini à frente, e a linha que passa por ali foi a referência de longitude francesa por mais de dois séculos. A França só aceitou oficialmente o meridiano de Greenwich em 1911 — e ainda assim, por algum tempo, escreveu a lei falando em "hora de Paris atrasada de nove minutos e vinte e um segundos". Todo mapa astral depende de uma hora de referência, e qual é ela foi assunto diplomático.
E o zodíaco mais antigo que se conhece desenhado por inteiro está em Paris. O teto de um templo de Dendera, no Egito, foi serrado e levado para a França em 1821, e hoje está no Louvre: nele os doze signos aparecem na volta completa, já na forma que a tradição grega fixaria. A chegada da peça gerou uma discussão pública violenta, porque as primeiras estimativas de idade que se fizeram dela contrariavam a cronologia bíblica corrente. Uma pedra com doze desenhos pôs em dúvida a idade do mundo.
E vale corrigir o retrato de Nostradamus com um dado de contabilidade: o que ele publicava todo ano, e o que lhe dava dinheiro regular, eram almanaques — calendário, tempo, colheita e previsões gerais, no mesmo formato barato que a série conta na página dos Países Baixos. As Profecias em verso são a parte que ficou famosa; o ganha-pão era o caderninho anual vendido nas feiras.
E o céu de Paris é diferente — isto dá para medir
A parte da astrologia que depende do LUGAR, e não só da data, é o Ascendente: o grau do zodíaco que está a subir no horizonte no instante do nascimento. Ele muda a cada duas horas e depende da latitude da cidade.
E os doze signos não sobem à mesma velocidade. Alguns levam mais de duas horas a cruzar o horizonte e outros menos de uma, e essa diferença cresce quanto mais longe do equador se está. Sorteei 200 mil instantes entre 1950 e 2010 e calculei o Ascendente para Paris, a 49° ao norte:
| Em Paris, 49° ao norte | Medido |
|---|---|
| O Ascendente mais comum | Escorpião, 11,5% |
| O menos comum | Áries, 4,0% |
| Quantas vezes um é mais provável que o outro | 2,9× |
| Se o sorteio fosse justo | 8,3% para cada |
Repare no que isso quer dizer: duas pessoas nascidas exatamente na mesma hora, uma em Paris e outra numa cidade de outra latitude, podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada Ascendente muda com o lugar. A cidade do nascimento não é um detalhe administrativo do formulário: ela entra na conta.
O padrão desta série é de geometria pura, e dá para dizer numa frase: quanto mais longe do equador, mais desigual o sorteio. Em Copenhague, a 56 graus norte, a diferença entre o Ascendente mais comum e o menos comum é de 4,3 vezes; em São Paulo, a 23 graus sul, cai para 1,5.
O seu Ascendente depende da hora e da cidade em que você nasceu, e nenhuma tabela de signo solar alcança isso. São dois dados que só o cálculo entrega.
Gerar o meu mapa de graçaPerguntas frequentes
A astrologia na França tem história própria?
A corte francesa do século XVI foi um dos lugares onde a astrologia esteve mais perto do poder. Catarina de Médici, italiana de nascimento, levou para França o gosto florentino pelo assunto, e Nostradamus é o nome que todos conhecem desse período. Vale separar o que ele era do que virou: médico e astrólogo, consultado pela rainha, e autor de versos proféticos deliberadamente obscuros que hoje ofuscam o resto do trabalho dele.
Por que a latitude muda o Ascendente?
Porque o Ascendente é o grau do zodíaco que está a subir no horizonte, e os signos não sobem todos à mesma velocidade. Quanto mais longe do equador, maior a diferença: alguns signos levam mais de duas horas a subir e outros menos de uma. Perto do equador o sorteio é quase justo; perto do polo, alguns signos quase não aparecem.
Isso quer dizer que o meu signo ascendente é comum ou incomum?
Quer dizer que a conta depende de onde você nasceu, e não só de quando. Duas pessoas nascidas na mesma hora em cidades de latitudes diferentes podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada um muda com o lugar. É uma das razões pelas quais um mapa precisa da cidade, e não só da data.
Onde posso ver o meu Ascendente?
No mapa astral, que este site calcula de graça a partir de data, hora e cidade de nascimento. O Ascendente muda a cada duas horas, então a hora importa: um erro de duas horas costuma trocar o signo inteiro.
A astrologia na França em resumo
Palavras-chave Morin de Villefranche, Gauquelin, medir
Os números desta página valem para quem nasceu em Paris ou perto dela, porque saem da latitude. O que não sai deles é o seu Ascendente. Ele muda a cada duas horas, e sem a hora do nascimento não há como saber qual é o seu — a frequência de cada um descreve a população, e não você.