
Sol e Mercúrio só formam um aspecto, a conjunção, e quem decide isso é a órbita. Mercúrio nunca se afasta do Sol mais de 27,8 graus: é o planeta mais perto dele, e visto da Terra parece oscilar em volta do Sol como um pêndulo curto. Sextil, quadratura, trígono e oposição entre os dois não existem, e nunca existiram no mapa de ninguém. O que pode ser investigado, então, é a distância entre eles: o quanto o seu pensamento está colado à sua identidade, e o quanto ele consegue olhar para ela de fora.
Antes de qualquer leitura, vale dizer o que é um aspecto. Ele é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que conta se as duas trabalham juntas, se ignoram ou se estranham. As séries anteriores descrevem cada peça sozinha, o planeta no signo e o planeta na casa; esta descreve o que acontece entre duas delas. São cinco as distâncias que a tradição chama de aspectos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe as duas peças em contato de um jeito próprio, e nenhuma é boa ou ruim: cada uma cobra alguma coisa e entrega alguma coisa.
Há também o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspectos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, o que é outra coisa. Por isso um aspecto pede o mapa calculado, e neste par o cálculo resolve uma dúvida que a data deixa aberta: se Mercúrio está no seu signo solar ou no vizinho, o que muda a leitura inteira. E há uma ordem que ajuda: o aspecto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa.
A história deste par começa com um mensageiro. Mercúrio é o nome latino de Hermes, o deus que levava recados entre os deuses e os humanos, guiava viajantes e protegia o comércio e a palavra. Os astrônomos antigos o conheciam como o planeta difícil de ver, sempre escondido no brilho do Sol, visível só por pouco tempo antes do amanhecer ou depois do pôr do sol. Foi daí que nasceu uma ideia da tradição helenística e medieval: o planeta muito próximo do Sol estaria "queimado" pelos raios dele. É a combustão, e ela continua sendo a chave deste par.
O glifo de Mercúrio, ☿, reúne um crescente em cima, um círculo no meio e uma cruz embaixo, e costuma ser lido como o caduceu de Hermes, ou como a mente que liga o que recebe, o que é e o que se faz. O Sol, ☉, é o círculo com um ponto no centro. Quando os dois se encontram, o que se põe em contato é a identidade e a linguagem com que você a pensa. Como a geometria aqui tem um único desenho possível, o que varia é o grau: perto demais, a palavra e o eu se confundem; com alguma folga, a palavra consegue comentar o eu.
A pergunta humana que mora aqui é a de pensar sobre o que se pensa. Montaigne, nos Ensaios, escreveu: "Mais vale uma cabeça bem-feita do que bem cheia." A frase pode ser lida a partir deste par como um convite a cuidar do jeito de pensar, além das ideias que se tem. Bertrand Russell, em O Triunfo da Estupidez, deixou outra frase que conversa com ele: "O problema do mundo é que os tolos e os fanáticos estão sempre tão certos de si, e as pessoas mais sábias, tão cheias de dúvidas." Uma maneira de investigar este aspecto é perguntar quanto espaço existe, em você, entre ter uma ideia e ser essa ideia.
A conjunção pode ser lida como o pensamento a serviço da identidade. Quando Mercúrio está a menos de 3 graus do Sol, a tradição o chama de combusto, e uma leitura moderna possível é a de um pensamento tão colado ao eu que fica difícil examinar as próprias ideias de fora. Alguém pode sentir uma discordância como um ataque pessoal, porque, naquele momento, a ideia e quem a pensou parecem a mesma coisa. Com 6 a 20 graus de distância, o desenho muda: há espaço para o pensamento olhar para a identidade e comentá-la. É a diferença entre defender uma ideia e examiná-la, e ela se mede em graus.
O sextil e o trígono entre Sol e Mercúrio não existem. Eles exigiriam 60 e 120 graus de distância, e a separação máxima entre os dois, medida ao longo de dois séculos, é de 27,8 graus. Às vezes aparecem descrições de "Sol trígono Mercúrio"; a órbita não permite essa configuração. Uma explicação possível para a confusão é o jeito como séries de aspectos costumam ser montadas: uma grade com todos os pares vezes os cinco aspectos, preenchida casa por casa, e a grade não sabe de astronomia. O que vale ler no lugar é a distância entre os dois, que é o que de fato varia neste par e o que de fato muda a leitura.
A quadratura e a oposição entre Sol e Mercúrio também não existem. Elas exigiriam 90 e 180 graus, e Mercúrio nunca se afasta 28 graus do Sol. Quando aparece "Sol quadratura Mercúrio" em algum lugar, vale saber que se trata de uma configuração que nenhum mapa pode ter. A pergunta útil continua sendo a mesma da conjunção: a que distância ele está, e de que lado do Sol.
No dia a dia, este par costuma aparecer na reação que surge quando alguém discorda de uma ideia sua. Você pode defender as próprias ideias como se fossem você, pensar no assunto do seu signo antes de qualquer outro, sentir dificuldade em mudar de opinião em público, aprender muito bem o que interessa e pouco o que não interessa, falar com uma convicção que convence, e demorar a admitir o erro, até admitir. Nada disso quer dizer teimosia ou arrogância, rótulos que descrevem o extremo. Uma leitura possível é que o seu pensamento e a sua identidade andam muito juntos, e a distância entre eles se mede em graus.
Existe, porém, uma tensão aqui. Se pensamos a partir de quem somos, o que acontece quando uma ideia nossa precisa mudar? Se nos identificamos com o que dizemos, conseguimos ouvir uma crítica ao argumento sem senti-la como crítica a nós? E quanto do que chamamos de opinião é, na verdade, um jeito de proteger a própria imagem?
Essas perguntas se mostram de modos diferentes em cada mapa. O que muda é em que signos e em que casas as duas peças caíram, e como elas se dão com o resto do desenho.
Ver isso no meu mapa, de graçaHá uma inversão que vale para todo par: o que corre sem atrito pode nunca ter sido testado, e o que incomoda costuma produzir. Nos outros pares, ela aparece entre o trígono e a quadratura. Aqui, como só existe a conjunção, ela aparece dentro dela mesma: a colagem que dá convicção é a mesma que tira distância. É a única página desta série em que facilidade e atrito se resolvem em graus, dentro de um aspecto só. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspecto elas costumam se distribuir entre as duas peças: muitas vezes uma está em excesso e a outra em deficiência, e o cuidado começa pelo lado mais fraco.
Com o tempo, este aspecto tende a amadurecer quando conseguimos discordar de nós sem sentir traição. Muitas vezes esse aprendizado vem de fora: alguém em quem você confia discorda de uma ideia sua, e você descobre que nada se quebrou em você depois disso. La Rochefoucauld observou, nas Máximas: "Todos se queixam da sua memória, ninguém se queixa do seu juízo." Talvez a maturidade deste par seja justamente poder se queixar do próprio juízo de vez em quando, distinguindo uma ideia sua de você. É essa distância, conquistada com anos, que pode transformar convicção em pensamento. A idade exata depende do mapa inteiro.
Para ler este aspecto no seu mapa, vale lembrar que ele descreve como as duas peças se dão, e não quem você é. Ter Mercúrio combusto não torna ninguém teimoso nem pouco inteligente; pode indicar apego às próprias ideias, o que tem cuidado possível. Os signos e as casas mudam bastante a leitura: um Sol em Gêmeos com Mercúrio combusto pode ser lido como alguém que pensa depressa e se identifica com isso; um Sol em Touro com a mesma conjunção, como alguém que muda de ideia devagar e defende cada uma. As séries O Sol nos 12 signos e Mercúrio nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e são a leitura que vem antes desta.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Nada disso é previsão: ela descreve tendências e ajuda a dar nome ao que você já vive, sem ocupar o lugar do seu trabalho nem das suas decisões.
Se você quiser investigar como o seu jeito de pensar se liga a quem você é, o Mapa do estudante olha para Mercúrio e para a forma como você aprende, e a leitura Mapa vocacional acompanha o lugar em que a sua palavra costuma virar trabalho.
A pergunta que fica é: qual foi a última ideia sua que você deixou mudar, e o que sobrou de você depois disso?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspecto entre Sol e Mercúrio:
Como eu descubro se tenho esse aspecto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspecto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam estar a até 6 graus da distância exata para o aspecto existir. O signo a data entrega; o aspecto, não, e por isso esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspecto tenso é ruim e aspecto fácil é bom? Este blog prefere outra leitura. O aspecto fácil corre sem atrito e por isso pode nunca ter sido testado, e às vezes isso só se percebe no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incômodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Existe Sol em quadratura com Mercúrio? Não existe, e nunca existiu no mapa de ninguém. Mercúrio nunca se afasta do Sol mais de 27,8 graus, e a quadratura exige 90. Uma descrição desse aspecto fala de uma configuração que a órbita não permite.
O que é Mercúrio combusto? É Mercúrio a menos de 3 graus do Sol. A tradição diz que ele fica queimado pela proximidade; numa leitura moderna, pode ser lido como o pensamento tão colado à identidade que fica difícil examinar as próprias ideias de fora.
O que vem antes: o aspecto ou o planeta no signo? O planeta, sempre. Um aspecto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara depois de conhecer as duas. Se você chegou aqui direto, vale passar pelas séries de cada peça no signo e na casa e depois voltar a esta: a leitura muda.
Aspecto que não é exato ainda conta? Conta, e fica mais fraco quanto mais longe do grau exato. Um aspecto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, Sol e Mercúrio só formam conjunção, porque Mercúrio nunca passa de 27,8 graus do Sol, e o que se lê neste par é a distância entre os dois: colado, o pensamento se confunde com a identidade; com folga, ele consegue examiná-la.
Palavras-chave identidade, pensamento, conjunção, órbita
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde você nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
