
O aspecto entre Mercúrio e Plutão pode ser lido como a profundidade que a sua investigação alcança. Na astrologia, Mercúrio está associado ao pensamento, à palavra e à pergunta. Plutão, por sua vez, é tradicionalmente relacionado ao que está por baixo da superfície, ao que desmonta e refaz, e ao poder. Quando interpretamos um aspecto entre os dois, aproximamos esses campos e chegamos a uma curiosidade que não se contenta com a versão oficial de nada: ela quer saber o que está por baixo, e costuma achar. Este par aparece no pesquisador, no investigador e em quem descobre o que a família guardava, e a mesma peça que faz uma boa pergunta pode fazer uma pergunta invasiva. A diferença entre as duas costuma ser o consentimento de quem responde.
Um aspecto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que ajuda a ler se essas peças trabalham juntas, se ignoram ou se estranham. A tradição chama de aspectos maiores cinco distâncias: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe as duas peças em contato de um jeito próprio, e nenhuma delas pode ser lida como boa ou ruim em si: cada uma cobra alguma coisa e entrega outra.
Há também um número que muda a leitura: o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam aspecto nenhum. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspectos maiores, e fora disso temos duas peças no mesmo mapa, sem relação de aspecto entre elas. Por isso um aspecto não se descobre pela data: ele precisa do mapa calculado. E vale uma ordem de leitura: o aspecto costuma vir por último, porque ele descreve uma relação, e fica difícil ler uma relação sem conhecer as duas partes.
Neste par, Plutão é o mais lento de todos: fica de onze a trinta e um anos em cada signo, e o signo dele é da sua geração. É a posição de Mercúrio que decide se há aspecto, e ela muda em poucos dias.
As histórias dos dois símbolos são muito diferentes. Mercúrio foi associado na Mesopotâmia a Nabu, o deus dos escribas, e na Grécia a Hermes, que levava recados entre os deuses e os homens, e que também guiava as almas ao mundo dos mortos e sabia voltar de lá. Plutão foi encontrado em 1930 por Clyde Tombaugh e recebeu o nome do deus romano do mundo subterrâneo, o Hades dos gregos. O encontro dos dois, então, tem uma cena pronta no mito: o mensageiro que desce ao reino de baixo e traz notícias de lá. A ideia de aspecto, por sua vez, é antiga: no Tetrabiblos, Ptolomeu já descrevia as figuras que dois astros formam quando a distância entre eles divide o círculo do zodíaco em partes iguais, e é daí que vêm o sextil, a quadratura, o trígono e a oposição.
O desenho dos glifos ajuda a pensar o encontro. O ☿ costuma ser lido como o caduceu de Hermes: um círculo, com um crescente em cima e uma cruz embaixo. O ♇ costuma ser desenhado como um círculo sobre um crescente, apoiado numa cruz: as mesmas três peças do glifo de Mercúrio, em outra ordem. Mercúrio rege Gêmeos e Virgem; Plutão é associado, na astrologia moderna, a Escorpião, signo de água, o da investigação e do que fica escondido. A geometria do aspecto vem por cima: a conjunção junta, o sextil e o trígono abrem passagem, a quadratura e a oposição pedem negociação.
A pergunta humana que mora neste par talvez seja: para que serve saber? Agostinho, nas Confissões, escreveu: "Tornei-me para mim mesmo uma questão." Pensada a partir de Mercúrio e Plutão, a frase aponta para um destino possível desta curiosidade: a investigação que começa no outro e, com o tempo, encontra o objeto mais difícil, que é quem pergunta.
Uma maneira de investigar esse aspecto é observar a própria semana. Alguém pode fazer a pergunta que ninguém ia fazer; ler tudo sobre um assunto até esgotá-lo; perceber contradições no que o outro conta; guardar informação em vez de comentar; desconfiar da versão oficial por reflexo; e receber confidências que depois deixam o outro arrependido de ter falado. Esses sinais valem para os cinco aspectos do par; o que muda é o atrito.
Freud, num texto chamado Uma Dificuldade no Caminho da Psicanálise, deixou uma frase que conversa com este par: "O eu não é senhor na sua própria casa." Para uma curiosidade que vasculha o que está por baixo, a frase tem um eco curioso. Podemos pensar que há porões em nós mesmos que pedem a mesma atenção que dedicamos aos segredos alheios.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se percebemos o que o outro esconde, sabemos esperar que ele queira contar? Se a informação vira ferramenta, conseguimos notar quando ela virou arma? E se uma suspeita insiste, conseguimos separá-la da prova?
A conjunção põe a profundidade dentro do pensamento. Uma leitura possível é a de alguém que investiga sem parar: lê tudo sobre um assunto até esgotá-lo, percebe contradição em depoimento e guarda informação como quem guarda ferramenta. É comum ter descoberto sozinho, na infância, algo que os adultos não queriam contar. O custo pode ser a fixação: o assunto entra e não sai, a suspeita vira certeza sem prova, e a pergunta insiste onde já não era bem-vinda. Um cuidado é notar quando investigar deixou de servir a você e passou a servir à compulsão.
O sextil e o trígono dão profundidade sem obsessão. Aqui, ir fundo e sair quando quiser parece possível: ter talento para pesquisa, entender sistemas complicados e ser procurado quando alguma coisa não fecha. A pergunta certa chega na hora certa, e sabe parar. O custo é talvez nunca ter lidado com o próprio excesso, e descobrir o ponto em que a curiosidade vira invasão pela reação de alguém que se sentiu devassado.
A quadratura e a oposição põem a palavra contra o poder. Pode aparecer como falar pouco e guardar muito, usar informação como vantagem numa discussão e desconfiar do motivo alheio antes de ter razão para isso; ou como o inverso, contar demais o que se descobriu e lidar depois com o estrago. Uma pergunta simples costuma ajudar: para que serve saber isso? Ela tende a encerrar metade das investigações, e o que sobra vira o trabalho de investigação mais sério de que você é capaz.
Essas questões não significam que todo mapa com Mercúrio e Plutão em aspecto viva tais conflitos. Um aspecto, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. Elas são caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos de Mercúrio e de Plutão. Em vez de afirmar que alguém é desconfiado ou manipulador, dois rótulos que este par costuma carregar e que descrevem o extremo, podemos investigar a relação entre curiosidade, profundidade e freio.
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Há uma inversão que vale para todos os pares: o que corre sem atrito pode nunca ter sido testado, e o que incomoda costuma ser o que produz. O trígono entre Mercúrio e Plutão entrega o resultado sem esforço, e por isso pode acontecer de o músculo nunca ter sido desenvolvido, o que se descobre no dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: alguém que teve de examinar a própria curiosidade, e que por isso investiga com um cuidado que o trígono não precisou desenvolver. Neste par a inversão é a que mais protege terceiros, porque o que este aspecto faz de mais difícil costuma acontecer com a informação dos outros. No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Num aspecto, elas costumam se distribuir entre as duas peças: muitas vezes uma está em excesso e a outra em deficiência, e o cuidado começa pelo lado mais fraco.
Com o tempo, este aspecto tende a amadurecer quando a investigação ganha um objeto à altura, longe da vida alheia. Muitas vezes isso acontece com um trabalho ou um estudo que dá conta de toda essa curiosidade, e a peça, ocupada, para de vasculhar. O amadurecimento aqui passa menos por perguntar menos e mais por saber para que serve o que você quer saber, antes de perguntar. Cada mapa tem o seu tempo para isso, e nenhuma idade exata dá conta do arco inteiro.
Para ler esse aspecto no seu mapa, vale olhar em que signos e em que casas as duas peças caíram. Um Mercúrio em Escorpião com Plutão em conjunção pode ser lido como alguém cuja profundidade é evidente; um Mercúrio em Gêmeos com a mesma conjunção, como alguém que parece leve e investiga tudo. As séries Mercúrio nos 12 signos e Plutão nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e são a leitura que vem antes desta.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Nada disso é previsão: ela descreve tendências, dá nome ao que você já vive e não decide nada no seu lugar.
Se você quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, Mapa das sombras leva essa curiosidade para o objeto mais rico de todos, que é você. E a leitura Mapa da ancestralidade acompanha as histórias que a sua família contou, e as que guardou.
A pergunta que fica é: o que você mais quer saber sobre si, e ainda não perguntou?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspecto entre Mercúrio e Plutão:
Como eu descubro se tenho esse aspecto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspecto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam estar a até 6 graus da distância exata para o aspecto existir. O signo, a data costuma entregar; o aspecto pede o mapa, e é por isso que esta série começa por ele.
Aspecto tenso é ruim e aspecto fácil é bom? Este blog prefere outra leitura. O aspecto fácil corre sem atrito e por isso pode nunca ter sido testado: a habilidade vem pronta, e a falta de treino aparece no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incômodo costuma pôr alguém para trabalhar. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Mercúrio com Plutão deixa alguém manipulador? Uma leitura possível é que a informação vira ferramenta, e ferramenta sem critério acaba usada em qualquer coisa. A pergunta que costuma mudar o padrão é simples e desconfortável: para que serve saber isso? Ela encerra metade das investigações e melhora a outra metade.
Por que as pessoas se abrem comigo e depois se arrependem? Porque a sua pergunta chega onde a conversa não ia, e o outro responde antes de decidir se queria responder. Isso pode ser lido como o alcance deste aspecto, longe de técnica ou má-fé. Saber disso é o que permite escolher quando usá-lo.
O que vem antes: o aspecto ou o planeta no signo? O planeta. Um aspecto descreve a relação entre duas peças, e fica difícil ler a relação sem conhecer as duas. Se você chegou aqui direto, vale passar pelas séries de cada peça no signo e na casa e voltar depois; a leitura muda.
Aspecto que não é exato ainda conta? Conta, e pesa menos quanto mais longe do grau exato. Um aspecto com 1 grau de diferença costuma ser uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É também aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece antes de qualquer outro lugar.
Em resumo, o aspecto entre Mercúrio e Plutão pode ser lido como a profundidade da pergunta: a conjunção investiga sem parar, o sextil e o trígono vão fundo e sabem sair, e a quadratura e a oposição convidam a perguntar para que serve saber. A posição de Mercúrio, que muda em poucos dias, decide se o aspecto existe.
Palavras-chave palavra, profundidade, investigação, obsessão
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde você nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
