
O aspecto entre Marte e Plutão pode ser lido como a força que a sua ação carrega sem que você perceba. Na astrologia, Marte está associado à ação e à vontade; Plutão, ao que desmonta e refaz. Quando os dois formam um aspecto, a ação tende a ganhar um peso desproporcional: o esforço médio pode equivaler ao esforço máximo de muita gente, e isso costuma passar despercebido para quem o faz. A pergunta que esse par traz é o que fazer com uma força desse tamanho.
Um aspecto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e descreve como elas se dão uma com a outra. Ptolomeu, no Tetrabiblos, explicou os aspectos como frações do círculo, e a tradição guardou cinco distâncias como aspectos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Plutão chegou à astrologia em 1930, quando Clyde Tombaugh o encontrou no Observatório Lowell; em 2006 a astronomia o reclassificou como planeta anão, o que não mudou o uso simbólico que os astrólogos fazem dele. O nome é o do senhor do mundo subterrâneo, o Hades dos gregos, que segundo o mito recebeu dos ciclopes um elmo que o tornava invisível. Marte é Ares, o deus que luta à vista de todos. Juntos, eles formam a imagem de uma força que age às claras e carrega algo que não se vê.
O glifo ♂ é um círculo com uma flecha que aponta para fora, o escudo e a lança; o ♇ aparece como as letras PL, que lembram Plutão e Percival Lowell, ou como um círculo sobre um crescente e uma cruz. E há uma herança entre os dois: na tradição, Escorpião era regido por Marte, e a astrologia moderna passou essa regência a Plutão. O mesmo signo tem, então, dois senhores, o da luta aberta e o do subterrâneo. Quando os dois se encontram num aspecto, é como se aquela casa dividida voltasse a conversar.
Há um número que decide se o aspecto existe: o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspectos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, que é outra coisa. Plutão é o mais lento de todos, então é a posição de Marte, que muda a cada dois meses, que decide se há aspecto. Isso pede o mapa calculado, e pede também uma ordem: o aspecto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa. O texto o que é um aspecto explica essa conta.
Uma maneira de investigar esse par é pensar numa discussão comum que de repente ganha um peso que ninguém esperava, e no susto de quem estava do outro lado. Alguém pode aguentar o que derruba os outros, insistir onde ninguém insistiria, sair de baixo de coisas que pareciam finais, e cobrar o preço disso no corpo, mais tarde. Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, deixou um aviso que conversa com este aspecto: "Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um monstro." Espinosa, na Ética, ofereceu uma chave para lidar com forças grandes: "Um afeto não pode ser refreado senão por outro afeto mais forte e contrário." Pensadas a partir de Marte e Plutão, as duas frases sugerem que uma força assim pede destino à altura, e que tentar apenas segurá-la costuma dar pouco resultado.
Na conjunção, a força entra dentro da ação. Podemos ler essa posição como agir com um peso que não foi escolhido. Resistência física e mental fora da média, dificuldade em desistir, a presença que os outros querem por perto numa crise; muitas vezes houve uma situação limite vivida cedo, em que se descobriu do que se era capaz. O ponto de atenção é o excesso que não se percebe: trabalhar até quebrar, discutir até vencer, assustar sem querer. Perguntar, depois de cada disputa, se ela exigia toda a força usada costuma ser um bom começo.
No sextil e no trígono, a potência costuma vir sem violência. Há capacidade de conduzir sem impor, de aguentar trabalho pesado por muito tempo e de render em tudo o que exige resistência, física, emocional ou de prazo. A força está a serviço da tarefa. O custo é discreto: talvez nunca tenha sido preciso medir. Se sempre foi possível usar essa potência bem, o ponto em que ela vira dano pode passar despercebido, e costuma aparecer na reação de quem trabalhou ao lado e não aguentou o ritmo.
Na quadratura e na oposição, a vontade e o poder discutem. Pode acontecer de entrar numa disputa de poder sem perceber, de insistir onde já se ganhou, de transformar discordância em queda de braço. Ou o inverso: engolir tudo, e a força represada sair depois, inteira, no lugar errado. É dessa discussão que costuma sair alguém forte que dispensa a vitória. O que ajuda é dar destino à potência antes que ela escolha sozinha: trabalho pesado, esporte de resistência, um projeto grande. Força sem alvo tende a procurar gente, e quase sempre a mais próxima.
Na semana comum, esse par pode se mostrar na força que se põe numa tarefa comum. Os sinais valem para qualquer aspecto entre os dois: trabalhar até o corpo cobrar, insistir onde os outros já pararam, assustar numa discussão sem querer, aguentar situações que derrubam a média, entrar em disputa de poder sem perceber, ter passado cedo por uma situação limite. Repare no que a lista deixa de fora. Ela não chama ninguém de violento nem de obstinado demais, rótulos que este par carrega e que descrevem o extremo. Ela observa uma ação com peso, à procura de medida, com a força inteira.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se nos reconhecemos na resistência, conseguimos perceber quando a insistência virou teimosia? Se usamos toda a força que temos, sabemos o que ela causa em quem está perto? E quando vencemos uma disputa, o que exatamente ganhamos?
Essas questões não significam que todo mapa com Marte e Plutão em aspecto viva tais conflitos. Um aspecto, sozinho, não permite afirmar isso sobre ninguém. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspecto elas se distribuem entre as duas peças: quase sempre uma está em excesso e a outra em deficiência, e o trabalho começa pelo lado mais fraco.
Mapa vocacional · R$ 147,00
A sua vocação no mapa astral: a profissão e o ambiente de trabalho em que você se destaca e cresce.
Vale considerar uma inversão que serve para todo par: o que corre sem atrito nunca foi testado, e o que incomoda costuma produzir. O trígono entre Marte e Plutão entrega o resultado com pouco esforço, e o músculo pode ficar sem treino até o dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: alguém que teve de descobrir o tamanho da própria força pelo estrago, e que por isso a mede. Neste par, vale dizer sem suavizar, a inversão costuma ser a mais cara em custo humano, porque o aprendizado passa pela reação de alguém.
Com o tempo, este aspecto tende a amadurecer quando se encontra trabalho à altura da própria potência. Muitas vezes isso acontece quando a força deixa de ir para as disputas e passa a ir para a obra, e se descobre que era isso que faltava, com a mesma intensidade de antes. O que muda é perguntar, antes de usar tudo o que se tem, se a situação pede tudo isso. Nenhuma idade exata dá conta disso, porque o arco depende do mapa inteiro.
Para ler este aspecto no seu mapa, vale olhar os signos e as casas das duas peças. Um Marte em Escorpião com Plutão em conjunção pode ter uma intensidade evidente; um Marte em Libra com a mesma conjunção pode ser educado e ter uma firmeza que não se negocia. A leitura de Marte nos 12 signos e a de Plutão nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e é bom começar por elas. Plutão fica de onze a trinta e um anos em cada signo, então o signo dele é da sua geração; o aspecto com o seu Marte é que é seu, e ele muda a cada dois meses.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Ela descreve tendências, não faz previsão e não ocupa o lugar do seu trabalho, das suas decisões ou de um acompanhamento terapêutico quando ele é necessário.
Se você quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Mapa das sombras acompanha a força represada e as disputas que este par conhece de perto. Mapa vocacional olha para o trabalho à altura dessa potência, e o Mapa astral completo lê Marte e Plutão junto com o resto do desenho, peça por peça.
A pergunta que fica é: se a sua força tivesse um destino à altura, onde você a colocaria?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspecto entre Marte e Plutão:
Como eu descubro se tenho esse aspecto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspecto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam estar a até 6 graus da distância exata para o aspecto existir. É diferente do signo, que a data entrega, e é por isso que esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspecto tenso é ruim e aspecto fácil é bom? Este blog prefere outra leitura. O aspecto fácil corre sem atrito e por isso costuma não ser testado, e o músculo pode ficar sem treino até o dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incômodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Marte com Plutão torna alguém agressivo? Uma leitura mais exata é a de uma ação que carrega um peso não escolhido, e peso sem medida assusta. Muitas vezes não se percebeu quanta força foi usada, porque para quem a usou era o esforço normal. Perguntar, depois de cada disputa, se ela exigia tudo aquilo é o ajuste mais barato.
Por que eu insisto mesmo quando já ganhei? Uma leitura possível é que a peça plutoniana mede a disputa pela profundidade, que ali pesa acima do resultado, e profundidade não tem linha de chegada. O que costuma interromper o padrão é dar destino à potência antes que ela escolha sozinha: força sem alvo tende a procurar gente, e quase sempre a mais próxima.
O que vem antes: o aspecto ou o planeta no signo? O planeta. Um aspecto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara quando conhecemos as duas. Se você chegou aqui direto, vale passar pelas séries de cada planeta no signo e na casa, e voltar depois: a leitura fica outra.
Aspecto que não é exato ainda conta? Conta, e com menos força quanto mais longe do grau exato. Um aspecto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, o aspecto entre Marte e Plutão pode ser lido como o peso que a ação carrega, uma resistência fora da média que pede medida e destino, e o convite a pôr essa força numa obra à altura dela. Os signos e as casas das duas peças mostram onde essa potência aparece.
Palavras-chave ação, força, resistência, poder
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde você nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
