
O aspecto entre Lua e Marte pode ser lido como o que a sua emoção faz quando é contrariada. Na astrologia, a Lua está associada à reação emocional e ao que acontece em você antes de qualquer decisão; Marte, ao impulso de agir, à coragem e à raiva. Quando os dois formam um aspecto, podemos investigar uma coisa que aparece em toda briga: o intervalo entre sentir e reagir, e se ele existe. Coragem emocional e explosão costumam sair da mesma peça. A mesma força que defende quem você ama sem pensar duas vezes pode dizer no calor uma frase que leva anos para ser consertada.
Antes de qualquer leitura, vale dizer o que é um aspecto. Ele é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que conta se as duas trabalham juntas, se ignoram ou se estranham. As séries anteriores descrevem cada peça sozinha, o planeta no signo e o planeta na casa; esta descreve o que acontece entre duas delas. São cinco as distâncias que a tradição chama de aspectos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe as duas peças em contato de um jeito próprio, e nenhuma é boa ou ruim: cada uma cobra alguma coisa e entrega alguma coisa.
Há também o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspectos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, o que é outra coisa. Por isso um aspecto pede o mapa calculado, e neste par isso decide a leitura inteira: as duas peças se movem, a Lua treze graus por dia e Marte meio grau, e como é a Lua que corre, ela cruza um aspecto em menos de um dia. Sem a hora do nascimento, a estimativa vira chute. E há uma ordem que ajuda: o aspecto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa.
A história deste par junta a casa e o campo de batalha. A Lua sempre foi lida como a luminária da noite, ligada ao corpo, ao lar e ao que se sente sem decidir. Marte é Ares, o deus grego da guerra, e no Tetrabiblos de Ptolomeu é o planeta quente e seco, que aquece demais e corta. A Lua, ao contrário, é associada à umidade e ao que nutre. Quando eles se encontram, a tradição costuma falar de um calor que entra no lugar mais íntimo, e de uma emoção que ganha lâmina. É curioso que Marte, o planeta da guerra, encontre tão perto de casa algumas das suas batalhas mais frequentes.
O glifo da Lua, ☽, é um crescente, a forma que recebe luz e muda ao longo do mês. O de Marte, ♂, é um círculo com uma seta saindo dele, e costuma ser lido como o escudo e a lança. Quando os dois entram em aspecto, o que se põe em relação é o que recebe e o que se lança: a emoção que chega e o gesto que ela pede. A geometria conta o tom: emoção e ação juntas na conjunção, conversa fácil no sextil e no trígono, atrito na quadratura e na oposição.
A pergunta humana que mora aqui é a do que fazer com um afeto. Espinosa, na Ética, escreveu: "Um afeto não pode ser refreado senão por outro afeto mais forte e contrário." Pensada a partir deste par, a frase ajuda a entender por que só a força de vontade costuma funcionar pouco contra a raiva: talvez seja preciso outro afeto, mais forte, do outro lado. Epicteto, no Manual, deixou uma observação que conversa com isso: "Não são as coisas que perturbam os homens, mas as opiniões que eles têm das coisas." Uma maneira de investigar Lua e Marte é perguntar o que acontece em você entre o fato e a reação.
A conjunção pode ser lida como emoção e ação juntas. Você pode reagir no mesmo instante em que sente, com uma coragem imediata que os outros admiram e um pavio curto que os outros temem. Pode proteger quem ama sem calcular, e ter dificuldade em fingir uma calma que não tem. O ponto delicado é a ausência de intervalo: entre o que se sente e o que se faz, sobra pouco espaço para a segunda ideia, para a informação que faltava ou para a chance de perguntar.
O sextil e o trígono costumam deixar emoção e ação conversando. Você pode reagir bem sem esforço, se irritar e resolver sem acumular. É uma combinação associada a quem é fácil de discutir, porque a briga tem começo, meio e fim no mesmo dia. O lado menos visível é não ter aprendido a segurar. Num momento que pede paciência de meses, uma negociação longa ou uma doença na família, talvez falte o repertório de quem precisou aprender a esperar.
A quadratura e a oposição podem ser lidas como emoção e ação em atrito, e desse atrito costuma nascer quem sabe brigar bem. Uma maneira de imaginar: acumular e explodir, ou explodir e se recolher. A irritação pode chegar antes do motivo, e muitas vezes há uma história antiga de raiva que não pôde ser dita na hora em que aconteceu. Uma saída possível é física e simples: dar destino ao corpo. Esporte, trabalho braçal, qualquer coisa que gaste Marte, porque a energia que não sai pelo corpo tende a sair pela boca, e quase sempre em quem não tinha nada a ver com isso.
No dia a dia, este par costuma aparecer no tom de uma resposta dada antes de terminar de ouvir. Alguém pode reagir antes de entender por inteiro, defender quem ama sem calcular o custo, acumular irritações pequenas até virarem grandes, não conseguir fingir calma, dormir mal quando há assunto pendente e se arrepender do tom, quase nunca do conteúdo. Nada disso quer dizer temperamento explosivo ou briguento, rótulos que descrevem o extremo. Uma leitura possível é que o intervalo entre sentir e reagir, em você, é curto.
Existe, porém, uma tensão aqui. Se reagimos para proteger o que amamos, o que acontece quando a reação fere justamente quem queríamos proteger? Se nos identificamos com a coragem, conseguimos reconhecer quando ela virou pressa de descarregar? E quantas das nossas brigas eram, na verdade, uma raiva antiga encontrando um alvo novo?
Essas perguntas se mostram de modos diferentes em cada mapa. O que muda é em que signos e em que casas as duas peças caíram, e como elas se dão com o resto do desenho.
Ver isso no meu mapa, de graçaHá uma inversão que vale para todo par: o que corre sem atrito pode nunca ter sido testado, e o que incomoda costuma produzir. O trígono entre Lua e Marte entrega resultado com pouco esforço, e por isso talvez não exija o músculo que só aparece no dia em que a facilidade não basta. A quadratura pede o contrário: aprender a segurar, e por isso saber brigar sem destruir. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspecto elas costumam se distribuir entre as duas peças: muitas vezes uma está em excesso e a outra em deficiência, e o cuidado começa pelo lado mais fraco.
Com o tempo, este aspecto tende a amadurecer quando o corpo ganha um destino regular, mais do que quando se tenta controlar a emoção à força. É a correção mais física da série inteira, e uma das mais confiáveis: quem gasta Marte no corpo costuma parar de gastá-lo em gente. William James, nos Princípios de Psicologia, escreveu: "A arte de ser sábio é a arte de saber o que deixar passar despercebido." Talvez a maturidade deste par seja distinguir a reação que protege da que só descarrega, e essa distinção pode transformar pavio em coragem. A idade exata depende do mapa inteiro.
Para ler este aspecto no seu mapa, vale lembrar que ele descreve como as duas peças se dão, e não quem você é. Um aspecto tenso entre Lua e Marte não faz ninguém agressivo; pode encurtar o intervalo entre sentir e agir, o que é uma questão de tempo e tem cuidado possível. Os signos e as casas mudam bastante a leitura: uma Lua em Touro com Marte em Aquário em quadratura pode ser lida como alguém que segura muito e rompe de uma vez; uma Lua em Áries com Marte em Câncer, como o contrário. As séries A Lua nos 12 signos e Marte nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e são a leitura que vem antes desta.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Nada disso é previsão: ela descreve tendências e ajuda a dar nome ao que você já vive, sem ocupar o lugar do seu trabalho nem das suas decisões.
Se você quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a Sinastria amorosa: compatibilidade do casal mostra como a sua Lua e o seu Marte conversam com os de quem está ao seu lado, e o Mapa do ritmo ajuda a encontrar o lugar do corpo por onde essa energia pode sair.
A pergunta que fica é: o que acontece em você no segundo entre sentir e responder?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspecto entre Lua e Marte:
Como eu descubro se tenho esse aspecto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspecto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam estar a até 6 graus da distância exata para o aspecto existir. O signo a data entrega; o aspecto, não, e por isso esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspecto tenso é ruim e aspecto fácil é bom? Este blog prefere outra leitura. O aspecto fácil corre sem atrito e por isso pode nunca ter sido testado, e às vezes isso só se percebe no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incômodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Lua em quadratura com Marte faz alguém explosivo? Pode encurtar o intervalo entre sentir e reagir, o que é uma questão de tempo. O que costuma ajudar é dar destino físico à energia, mais do que tentar controlá-la. Quem gasta Marte no corpo para de gastá-lo nas pessoas, e a mudança costuma ser rápida.
Por que eu acumulo e depois exploto por uma coisa pequena? Porque a irritação pequena não encontrou saída na hora, e neste aspecto ela tende a ficar em vez de evaporar. O que ajuda é dizer o pequeno enquanto ele é pequeno, e dar ao corpo um lugar regular para gastar o resto.
O que vem antes: o aspecto ou o planeta no signo? O planeta, sempre. Um aspecto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara depois de conhecer as duas. Se você chegou aqui direto, vale passar pelas séries de cada peça no signo e na casa e depois voltar a esta: a leitura muda.
Aspecto que não é exato ainda conta? Conta, e fica mais fraco quanto mais longe do grau exato. Um aspecto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, o aspecto entre Lua e Marte pode ser lido como o intervalo entre sentir e reagir: curto e corajoso na conjunção, fluido no sextil e no trígono, em atrito e aprendendo a brigar bem na quadratura e na oposição, sempre dentro de 6 graus de orbe e com a hora de nascimento em mãos.
Palavras-chave emoção, reação, irritação, coragem
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde você nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
