A astrologia em Portugal
Em Portugal a astrologia e a navegação foram a mesma profissão.
Os pilotos dos séculos XV e XVI dependiam de tabelas de posição dos astros para saber onde estavam, e quem produzia essas tabelas era a mesma gente que as usava para fins astrológicos. Pedro Nunes, matemático e cosmógrafo do século XVI, é o nome que melhor representa esse período em que o cálculo do céu era assunto de Estado.
Vale entender o tamanho do problema que eles resolviam. Um navio no meio do Atlântico não tem ponto de referência: a única forma de saber onde está é medir a altura de um astro sobre o horizonte e comparar com uma tabela. Se a tabela estiver errada em meio grau, o erro no mapa é de dezenas de quilómetros. A precisão astronómica portuguesa não nasceu de curiosidade, nasceu de risco de vida.
Nas universidades europeias da mesma época — e Coimbra entre elas — a astrologia fazia parte do ensino de MEDICINA. Escolher o momento de uma intervenção pela posição da Lua era procedimento corrente, e não superstição de beira de estrada: estava nos manuais, e um médico que ignorasse isso seria considerado mal formado.
O que interrompeu essa convivência foi a pressão sobre a astrologia judiciária — a que prevê a vida de uma pessoa —, considerada perigosa porque punha o livre-arbítrio em risco. A distinção era fina e importava muito na prática: a astrologia que calculava marés, estações e momentos de plantio continuou a ser ensinada; a que lia o destino de um indivíduo passou a ser feita com cuidado, e às vezes em privado.
É uma separação que nunca desapareceu de todo. Até hoje, quem defende a astrologia costuma recuar para o terreno seguro — "é só autoconhecimento" — e quem a ataca visa justamente a parte que fala do futuro de alguém.
O que Portugal deu à astrologia
Portugal deu à astrologia o que a navegação exigiu dela: precisão. Uma tabela errada perdia um navio, e essa cobrança formou uma tradição de cálculo cuidadoso.
Quatro coisas sobre o céu de Portugal
Abraão Zacuto é o nome que falta na maior parte das versões desta história. Astrónomo, astrólogo e rabino, formado em Salamanca, chegou a Portugal depois da expulsão dos judeus de Castela em 1492 e foi acolhido na corte de D. João II. O Almanach Perpetuum, com as tabelas dele, tornou-se livro de cabeceira da navegação portuguesa: dava a declinação do Sol dia a dia, que é o número de que um piloto precisava para tirar a latitude pela altura do Sol ao meio-dia.
Cinco anos depois, a conversão forçada decretada em Portugal fê-lo partir outra vez. As tabelas ficaram, o autor não. Vasco da Gama levou aquele almanaque para a Índia, e Zacuto morreu longe dali. Não é um detalhe pitoresco: é a mesma mão que escrevia horóscopos a escrever o número que mantinha os navios vivos.
E o problema que aquelas tabelas resolviam merece ser contado inteiro, porque é a coisa mais astrológica que a navegação fez. Ao sul do equador, a estrela Polar desaparece abaixo do horizonte. Todo o método de achar a latitude — medir a altura da Polar e ler direto — deixa de funcionar de um dia para o outro, no meio do oceano.
A saída foi trocar a estrela fixa pelo Sol, que está sempre lá mas muda de altura ao longo do ano. Para isso é preciso saber, para cada dia, quanto o Sol está afastado do equador celeste — e isso é efeméride, tabela de posição, exatamente o que se calculava para levantar um mapa astral. Os regimentos que ensinavam a conta eram folhetos de bordo, decorados por gente que muitas vezes mal sabia ler. Portugal ensinou o marinheiro a usar uma efeméride.
O primeiro europeu a desenhar o céu do sul foi um astrólogo, e escreveu do Brasil. Mestre João Faras, físico e astrólogo de D. Manuel I, viajava na frota de Cabral e em 1500 mandou ao rei uma carta de Porto Seguro com um esboço das estrelas que via — entre elas o grupo que viria a chamar-se Cruzeiro do Sul. Avisa na carta que medição feita em navio a balançar não é de confiar e pede que se confirme em terra firme. É o cuidado de quem sabe do que a conta depende.
E há o caso que surpreende quem só o conhece pelos versos: Fernando Pessoa foi astrólogo praticante. Deixou centenas de mapas levantados à mão, oferecia o serviço por anúncio e chegou a escrever prospetos para um negócio de astrologia. Levantou o mapa de Portugal, o de figuras públicas — e o dos próprios heterónimos, com data, hora e lugar de nascimento inventados para cada um.
Esse último ponto é o mais estranho e o mais revelador. Para dar um mapa a Álvaro de Campos ou a Ricardo Reis, Pessoa precisava de escolher o instante que produzisse o carácter que já tinha em mente — que é a operação da astrologia eletiva feita ao contrário. Ele usou o mapa como ferramenta de construção de personagem, e não para descobrir quem eram.
Vale juntar as duas pontas. Em Portugal a astrologia serviu a duas coisas que parecem opostas e não são: acertar uma posição no mar, onde errar custava a vida, e dar consistência a uma pessoa imaginada. Nos dois casos o que se pedia ao céu era a mesma coisa — uma referência fixa, fora de quem olha. O resto desta página é sobre a referência que dá para medir.
O problema da latitude foi tratado como política de Estado, e com um comité. D. João II reuniu uma junta de matemáticos — Zacuto entre eles — para resolver a conta do Sol, e mandou José Vizinho à costa da Guiné, em 1485, medir na prática a altura do Sol e conferir as tabelas contra o mundo real. Conferir o cálculo indo ao lugar medir é uma atitude que a astrologia popular quase nunca teve, e que aquela gente teve porque o preço do erro era um navio.
E há um capítulo português que quase ninguém associa a este assunto: por causa do padroado, os jesuítas que iam para a Ásia saíam de Lisboa e passavam por Goa e Macau. No século XVII, jesuítas europeus chegaram a dirigir o Tribunal de Astronomia de Pequim, órgão cuja função era produzir o calendário imperial — que trazia, ao lado dos eclipses, os dias próprios para cada tipo de ato. Padres europeus a calcular o almanaque astrológico do imperador da China, por uma rota aberta por Portugal.
E havia onde estudar isso em Lisboa. O Colégio de Santo Antão abriu, no fim do século XVI, a Aula da Esfera — um curso público de matemática, astronomia e navegação, dado por jesuítas e frequentado por pilotos, engenheiros e fidalgos. Funcionou por mais de cento e cinquenta anos. Foi ali que a conta do céu se tornou ensino aberto, e não segredo de ofício.
E o céu de Lisboa é diferente — isto dá para medir
A parte da astrologia que depende do LUGAR, e não só da data, é o Ascendente: o grau do zodíaco que está a subir no horizonte no instante do nascimento. Ele muda a cada duas horas e depende da latitude da cidade.
E os doze signos não sobem à mesma velocidade. Alguns levam mais de duas horas a cruzar o horizonte e outros menos de uma, e essa diferença cresce quanto mais longe do equador se está. Sorteei 200 mil instantes entre 1950 e 2010 e calculei o Ascendente para Lisboa, a 39° ao norte:
| Em Lisboa, 39° ao norte | Medido |
|---|---|
| O Ascendente mais comum | Escorpião, 10,5% |
| O menos comum | Peixes, 5,1% |
| Quantas vezes um é mais provável que o outro | 2,1× |
| Se o sorteio fosse justo | 8,3% para cada |
Repare no que isso quer dizer: duas pessoas nascidas exatamente na mesma hora, uma em Lisboa e outra numa cidade de outra latitude, podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada Ascendente muda com o lugar. A cidade do nascimento não é um detalhe administrativo do formulário: ela entra na conta.
O padrão desta série é de geometria pura, e dá para dizer numa frase: quanto mais longe do equador, mais desigual o sorteio. Em Copenhaga, a 56 graus norte, a diferença entre o Ascendente mais comum e o menos comum é de 4,3 vezes; em São Paulo, a 23 graus sul, cai para 1,5.
O seu Ascendente depende da hora e da cidade em que nasceu, e nenhuma tabela de signo solar alcança isso. São dois dados que só o cálculo entrega.
Gerar o meu mapa de graçaPerguntas frequentes
A astrologia em Portugal tem história própria?
Os pilotos dos séculos XV e XVI dependiam de tabelas de posição dos astros para saber onde estavam, e quem produzia essas tabelas era a mesma gente que as usava para fins astrológicos. Pedro Nunes, matemático e cosmógrafo do século XVI, é o nome que melhor representa esse período em que o cálculo do céu era assunto de Estado. Vale entender o tamanho do problema que eles resolviam.
Por que a latitude muda o Ascendente?
Porque o Ascendente é o grau do zodíaco que está a subir no horizonte, e os signos não sobem todos à mesma velocidade. Quanto mais longe do equador, maior a diferença: alguns signos levam mais de duas horas a subir e outros menos de uma. Perto do equador o sorteio é quase justo; perto do polo, alguns signos quase não aparecem.
Isso quer dizer que o meu signo ascendente é comum ou incomum?
Quer dizer que a conta depende de onde nasceu, e não só de quando. Duas pessoas nascidas na mesma hora em cidades de latitudes diferentes podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada um muda com o lugar. É uma das razões pelas quais um mapa precisa da cidade, e não só da data.
Onde posso ver o meu Ascendente?
No mapa astral, que este site calcula de graça a partir de data, hora e cidade de nascimento. O Ascendente muda a cada duas horas, então a hora importa: um erro de duas horas costuma trocar o signo inteiro.
A astrologia em Portugal em resumo
Palavras-chave navegação, Pedro Nunes, astrologia médica
Os números desta página valem para quem nasceu em Lisboa ou perto dela, porque saem da latitude. O que não sai deles é o seu Ascendente. Ele muda a cada duas horas, e sem a hora do nascimento não há como saber qual é o seu — a frequência de cada um descreve a população, e não a própria pessoa.