Toda a pessoa tem uma área da vida que se repete com uma teimosia curiosa. O dinheiro entra bem e some antes do fim do mês, em qualquer emprego. Os amores chegam sempre por intermédio de alguém, nunca por acaso. O trabalho só anda quando existe um chefe forte por perto, e emperra quando se ganha autonomia.
A explicação que se costuma dar é de personalidade: és gastadora, és tímida, és dependente. Um astrólogo de Bagdade do século IX faria outra pergunta, bem mais prática. Quem governa esse assunto no seu mapa, e em que condição esse governante está?
É a pergunta central da astrologia medieval, a que os persas e os árabes desenvolveram entre os séculos VIII e X e que a Europa latina aprendeu com eles. Nela, um planeta funciona como um senhor. Ele administra casas, recebe outros planetas como hóspedes, tem autoridade ou está impedido, conta com aliados ou trabalha sozinho. E a área da sua vida que ele governa funciona do jeito que ele consegue funcionar.
Em 762, o califa al-Mansur decidiu construir uma capital nova às margens do Tigre. Antes de lançar a obra, chamou os astrólogos da corte. Entre eles estavam Nawbakht, um persa, e Māshā'allāh, um judeu de origem persa que viria a ser um dos autores mais lidos da tradição. A tarefa deles era escolher o momento de começar. A cidade que nasceu daquela hora é Bagdade.
A cena diz muito sobre o lugar que a astrologia ocupava. O astrólogo de corte era um conselheiro técnico, consultado antes de uma guerra, de uma viagem, de uma nomeação. E as perguntas que lhe faziam eram concretas: quem vai vencer, quando partir, se o cargo vai durar.
No século seguinte, Abū Ma'shar, nascido em Balkh, no atual Afeganistão, trabalhou em Bagdade e escreveu uma obra enorme sobre astrologia. Os seus livros foram traduzidos para latim no século XII e lidos na Europa durante séculos. Os livros dele estão entre os que levaram à Europa a Firdaria, um sistema persa de períodos da vida.
Dessa prática nasceu o jeito medieval de ler um mapa de nascimento: como se lê um reino. Cada assunto tem um responsável, e a pergunta é sempre se esse responsável tem meios para cumprir a função.
Cada signo pertence a um dos sete planetas visíveis. A casa que cai naquele signo passa a ser governada por ele, e o planeta leva a casa consigo para onde estiver no mapa.
Um exemplo, do tipo que aparece em consulta toda semana. A sua casa 2, a do dinheiro e dos meios de vida, está em Balança, e quem a governa é Vénus. Só que a sua Vénus está em Carneiro, o signo oposto ao dela, onde ela fica sem recursos próprios, e na casa 8, a dos bens dos outros. A tradução para a vida costuma ser reconhecível: um dinheiro que passa sempre pela mão de alguém, seja sócio, cônjuge, banco ou herança, e que exige negociação para ficar consigo.
Repare que a leitura falou de quem administra o assunto e da situação em que ele trabalha, e de mais nada. Muita gente sente alívio ao ouvir isto, porque troca a culpa por um mapa de como a coisa funciona.
Acima dos senhores de cada casa, a tradição buscava o senhor do mapa inteiro. O Almuten Figuris é o planeta que tem mais autoridade sobre cinco pontos vitais: o Sol, a Lua, o Ascendente, a Parte da Fortuna e a lua nova ou cheia que antecedeu o nascimento. Costuma ser diferente do regente do Ascendente, e quando os dois coincidem o mapa fica com um centro muito claro.
Um senhor pode estar em casa ou no exílio. As palavras da tradição já contam a história. Domicílio é a casa do planeta, onde tem os seus recursos à mão. Exílio é o signo oposto, onde precisa de pedir tudo emprestado. Peregrino é o que está de passagem, sem dignidade nenhuma no lugar.
São as dignidades essenciais, em cinco camadas que vão do domicílio e da exaltação, as maiores, aos termos e às faces, as mais discretas. Medem quanto recurso o planeta tem para agir segundo a própria natureza.
Depois vêm as dignidades acidentais, que descrevem a circunstância. Um planeta num ângulo do mapa tem palco; num canto escondido, trabalha nos bastidores. Um planeta muito perto do Sol fica combusto, ofuscado pela luz dele. Quem tem Mercúrio combusto às vezes reconhece a cena de imediato: a ideia é sua, e quem a apresenta na reunião é o chefe. Colado ao centro do Sol, a menos de meio grau, o mesmo planeta fica em cazimi, e a imagem tradicional é a de quem se senta ao lado do rei.
Recurso e circunstância são julgados separadamente, e é essa separação que dá ao julgamento medieval a sua precisão. Um planeta pode ser rico e estar preso, ou ser pobre e ter todas as portas abertas.
Quando um planeta está no signo de outro, ele é hóspede daquele outro. Se o dono da casa consegue vê-lo por aspeto, pode ajudar o hóspede, e a tradição chama isso de receção. Se não consegue, o hóspede fica por conta própria.
A receção é o que costuma explicar as ligações estranhas entre áreas da vida. A pessoa que só conseguiu se firmar na profissão depois de casar. A que encontrou os melhores amigos no trabalho, e só lá. Quando o senhor de uma casa hospeda o senhor de outra, os dois assuntos passam a andar juntos, para o bem e para o atrito.
Há também a receção mútua: dois planetas, cada um no signo do outro, como dois vizinhos que guardam a chave um do outro. A tradição via isso como uma ajuda, sempre condicionada ao estado dos dois. Um vizinho falido guarda mal a chave de ninguém.
Esse raciocínio em cadeia, em que um planeta depende de outro que depende de um terceiro, é o que dá à leitura medieval um sabor de investigação. Ela segue o fio até onde o fio vai.
A astrologia medieval herdou da medicina antiga uma ideia que ainda hoje ajuda a descrever gente: o temperamento. Tudo na natureza seria uma mistura de quatro qualidades, o quente e o frio, o seco e o húmido, e a mistura de cada pessoa desenharia o seu ritmo.
O astrólogo calculava essa mistura pelo mapa, somando o signo do Ascendente, o planeta que o governa, a Lua e a sua fase, a estação do ano em que o Sol estava e outros fatores. O resultado era um dos quatro temperamentos, ou, mais honestamente, uma combinação deles.
Em vida, isso aparece em coisas miúdas. O colérico, quente e seco, decide depressa e arrepende-se depois. O melancólico, frio e seco, decide devagar e custa a mudar de ideia. O sanguíneo precisa de gente à volta. O fleumático faz render o dia sem alarde.
Como fisiologia, a teoria dos humores acabou há muito tempo. Como retrato de ritmo e de reação, continua útil, e é assim que entra numa leitura de hoje: sem nenhuma pretensão de laudo.
A astrologia medieval queria saber também quem está no comando agora. Para isso usava várias técnicas ao mesmo tempo e cruzava as respostas.
A primeira é a profecção anual: a cada aniversário, a casa ativa avança um signo, e o planeta que governa esse signo vira o Senhor do Ano. A segunda é a Firdaria, que divide a vida em grandes períodos, cada um governado por um planeta, com durações que vão de sete a treze anos, e em subperíodos dentro deles. A terceira é a revolução solar, o mapa do instante em que o Sol volta ao grau do nascimento.
O critério medieval era sensato: um tema só ganha peso quando várias técnicas apontam para ele. Se o Senhor do Ano, o senhor da Firdaria e a revolução falam do mesmo planeta, esse planeta tem a palavra. Se cada técnica aponta para um lado, a leitura fica mais cautelosa.
Quem está num período governado por Saturno costuma descrever anos de construção lenta, com muito trabalho e pouco aplauso. Quem entra num período de Júpiter costuma sentir o contrário. Ninguém precisa de acreditar nisso de antemão: dá para confirmar olhando para os próprios anos passados.
O seu mapa tem dez pontos e doze casas, e o signo solar é um décimo disso. Data, hora e cidade de nascimento é o que separa uma tabela de um mapa.
Gerar o meu mapa de graçaA tradição medieval tem palavras duras. A casa 6 era a da doença e da servidão; a 8, a da morte; a 12, a dos inimigos ocultos e da prisão. Havia estrelas fixas famosas por maus presságios, e regras que davam por certo o que hoje ninguém aceitaria.
Uma leitura séria de hoje traduz esse vocabulário e deixa as previsões de fora. Não anuncia morte, doença, acidente, prisão, traição nem falência, não marca data que o cálculo não traga e não trata a casa 6 nem o temperamento como avaliação de saúde. A servidão da casa 6 vira a rotina que se faz por obrigação; os inimigos ocultos da 12, o que corre fora do seu campo de visão.
Também não reproduz as regras antigas por género, em que o Sol representava o marido e Vénus a esposa. Os mesmos significadores descrevem o parceiro de qualquer pessoa. E não escolhe profissão por si: descreve os tipos de atividade que os planetas do ofício favorecem.
Por fim, a leitura trabalha só com os sete planetas tradicionais e precisa da hora exata de nascimento. Sem ela, não existe Ascendente, e sem Ascendente não existe casa, senhor de casa nem Almuten.
A Idade Média tinha uma imagem para o tempo que ninguém controla: a roda da Fortuna. Vem de Boécio, que no século VI escreveu, preso e à espera da execução, a Consolação da Filosofia. Ali a Fortuna gira uma roda, e quem está no alto desce, e quem está em baixo sobe. A imagem foi desenhada em manuscritos e esculpida em catedrais durante séculos.
A astrologia tinha a sua própria Fortuna, bem mais técnica: a Parte da Fortuna, um ponto calculado pelo Sol, pela Lua e pelo Ascendente, que fala das circunstâncias e dos bens que chegam até à pessoa. Quem tem a Fortuna na casa 2, por exemplo, tem esse ponto justamente na casa do dinheiro. As duas ideias conviveram, e os leitores medievais sabiam que uma era poesia e a outra era conta.
O caminho dessa astrologia até à Europa passou pelas traduções do árabe para latim feitas em Espanha nos séculos XII e XIII, contadas na página sobre a astrologia em Espanha. No século XIII, em Forlì, Guido Bonatti reuniu essa herança num tratado que circulou por toda a Europa. Serviu senhores em guerra, entre eles Guido da Montefeltro, e ficou famoso o suficiente para Dante o colocar no Inferno, entre os adivinhos.
É uma boa lembrança de que essa astrologia foi sempre levada a sério, inclusive por quem a temia.
E as perguntas que mais chegam sobre este assunto, com a resposta curta:
O que é astrologia medieval? É a astrologia desenvolvida por astrólogos persas e árabes entre os séculos VIII e X, como Māshā'allāh e Abū Ma'shar, e depois traduzida para latim e praticada na Europa, com nomes como Guido Bonatti. Lê o mapa perguntando que planeta governa cada assunto e em que condição está.
O que é o Almuten Figuris? É o planeta com mais autoridade sobre cinco pontos vitais do mapa: o Sol, a Lua, o Ascendente, a Parte da Fortuna e a lua nova ou cheia anterior ao nascimento. Ele é escolhido por uma conta de dignidades, e costuma ser diferente do regente do Ascendente.
O que é a Firdaria? É um sistema de origem persa que divide a vida em grandes períodos, cada um governado por um planeta, com subperíodos dentro deles. O ciclo completo tem 75 anos, e a ordem dos planetas muda consoante o nascimento foi de dia ou de noite.
O que significa um planeta estar em receção? Significa que ele está no signo de outro planeta, como hóspede, e que o dono desse signo pode ajudá-lo quando o vê por aspeto. A receção liga as áreas da vida governadas pelos dois planetas.
Qual a diferença entre astrologia medieval e moderna? A moderna descreve principalmente a personalidade. A medieval julga a condição dos planetas que governam cada área da vida, usa apenas os sete planetas tradicionais e cruza várias técnicas de tempo, como a profecção e a Firdaria, para saber quem governa o momento atual.
Em resumo:
Palavras-chave Almuten Figuris, dignidades, receção, Firdaria, temperamento
Se o que quer é isso lido no seu mapa — quem governa o seu dinheiro, o seu trabalho e as suas relações, com que força, e que planeta rege o período que vive agora —, é o que o Mapa astrológico medieval entrega. Ver a leitura