A astrologia na Inglaterra
Londres inventou o horóscopo de jornal, e a data é conhecida.
A Inglaterra tem a tradição astrológica mais documentada da Europa moderna, e ela começa perto do trono. John Dee — matemático, bibliotecário e conselheiro de Isabel I — escolheu por astrologia a data da coroação dela. É um dos casos mais citados de eleição de data na história, e é exatamente a técnica que este site chama de astrologia eletiva: procurar, entre as horas possíveis, a que tem o céu que o ato pede.
Um século depois veio o autor que ainda é lido. William Lilly publicou em 1647 a Christian Astrology, o primeiro grande tratado de astrologia escrito em inglês, e não em latim. Tirar a astrologia do latim foi o que a pôs ao alcance de quem não tinha formação universitária, e o livro continua em uso por quem pratica astrologia horária — a que responde a uma pergunta pelo mapa do momento em que ela foi feita.
Lilly viveu o auge e o começo do fim. Durante a guerra civil inglesa, os almanaques astrológicos vendiam-se aos milhares e os dois lados usavam-nos como propaganda. Depois do Grande Incêndio de Londres, em 1666, foi chamado a depor no Parlamento — tinha publicado anos antes uma gravura com uma cidade em chamas, e queriam saber se ele sabia de alguma coisa. É o momento em que a fama de um astrólogo se torna problema para ele.
O século XVIII foi de recuo: com a ciência a organizar-se em torno da Royal Society, a astrologia perdeu o lugar académico que tinha. Ela voltou pela porta do ocultismo no fim do século XIX, e Alan Leo é o nome dessa volta — ligado à Teosofia, simplificou a prática para um público amplo e é por causa dele que o signo solar ganhou o peso que tem hoje. Foi processado por adivinhação, o que diz bastante sobre o estatuto da profissão na época.
E foi em Londres que nasceu o formato que o mundo inteiro copiou. Em 1930, o Sunday Express encomendou a R. H. Naylor um texto sobre o mapa da princesa Margaret, recém-nascida. O texto foi bem recebido, o jornal pediu mais, e a coluna tornou-se fixa. É daí que descende todo horóscopo de jornal e de revista do planeta — incluindo o que se lê em português numa banca de esquina.
O que a Inglaterra deu à astrologia
A Inglaterra deu duas coisas opostas à astrologia: o tratado técnico em língua vulgar, que a aprofundou, e a coluna de jornal, que a achatou em doze caixas.
Cinco coisas sobre o céu da Inglaterra
A leitura do céu na Inglaterra é muito mais velha que qualquer nome citado acima. Stonehenge, erguido em etapas ao longo do terceiro milénio antes de Cristo, tem um alinhamento que ninguém contesta: do centro para a Pedra do Calcanhar, o Sol nasce ali no solstício de junho, e na direção oposta põe-se no de dezembro. Quem construiu não deixou texto, por isso não se sabe o que fazia com aquilo — mas sabia onde o Sol ia nascer no dia mais longo do ano, e isso é observação repetida por gerações.
Quatro mil anos depois: quando a Royal Society foi fundada, em 1660, um dos membros fundadores era Elias Ashmole, astrólogo praticante, que levantava mapas para decidir assuntos próprios e guardava registo de todos. Foi ele quem recolheu e preservou os papéis de William Lilly, e é por causa dessa coleção que se sabe tanto sobre como um astrólogo do século XVII de facto trabalhava — que perguntas recebia, quanto cobrava, quando errava. O museu que leva o nome dele em Oxford nasceu do mesmo hábito de guardar tudo.
O que vale guardar é a data. A instituição que viria a ser o símbolo da ciência moderna e a prática que ela acabaria por expulsar estavam, em 1660, na mesma sala e às vezes dentro da mesma pessoa. A separação que hoje parece óbvia levou mais de um século para acontecer, e não foi decidida num dia.
Quando aconteceu, a lei acompanhou. O Witchcraft Act de 1735 deixou de tratar a bruxaria como crime real e passou a punir quem fingisse ter poderes — ou seja, a lei mudou de "isto é perigoso" para "isto é fraude". Foi sob essa lógica, e sob a lei de vadiagem de 1824, que astrólogos e videntes foram processados ao longo dos séculos XIX e XX, Alan Leo entre eles. A lei de 1735 só foi revogada em 1951.
E a coluna de jornal, que nasceu em Londres, pegou por causa de uma tragédia. Poucos meses depois de estrear, R. H. Naylor escreveu que aeronaves britânicas correriam perigo, e dias depois o dirigível R101 caiu na França, matando quase todos a bordo. A coincidência fez a fama da coluna e garantiu o espaço fixo. O formato hoje visto como o mais inofensivo da astrologia firmou-se num desastre — e vale lembrar que uma previsão vaga o bastante encontra sempre um acontecimento que a confirme.
Do lado técnico, Londres é também onde o ensino se organizou. A Faculty of Astrological Studies, fundada em 1948, dá aulas e aplica exames até hoje, e boa parte do vocabulário que circula em português traduzido saiu de manuais dessa linhagem. A Inglaterra exportou os dois extremos — o curso com prova e a caixinha de doze — e o segundo viajou muito mais longe.
Um dos textos técnicos mais antigos escritos em inglês é sobre um instrumento astrológico. Geoffrey Chaucer, o autor dos Contos da Cantuária, escreveu por volta de 1391 um Tratado do astrolábio dedicado a um menino de dez anos, explicando passo a passo como usar o aparelho — inclusive como achar o grau que sobe no horizonte. Os Contos estão cheios de astrologia, e a Mulher de Bath explica o próprio temperamento por Vénus e Marte no mapa dela.
E há uma linha inglesa dentro de todo mapa astral do mundo. O Observatório Real de Greenwich foi fundado em 1675 com um objetivo prático — resolver a longitude no mar — e o meridiano que passa por ele acabou por virar a referência mundial de hora. Quando este site converte a hora do seu nascimento para calcular onde os planetas estavam, converte para a hora de Greenwich. A conta começa num prédio de Londres construído para ajudar navios.
Uma última, que é provavelmente verdadeira e certamente boa. O primeiro biógrafo de Newton conta que ele comprou numa feira de Cambridge um livro de astrologia, tentou lê-lo e travou na geometria — e que foi para entender aquelas figuras que foi buscar Euclides. Se a história for exata, a matemática de Newton começou num livro de astrologia mal entendido.
E o céu de Londres é diferente — isto dá para medir
A parte da astrologia que depende do LUGAR, e não só da data, é o Ascendente: o grau do zodíaco que está a subir no horizonte no instante do nascimento. Ele muda a cada duas horas e depende da latitude da cidade.
E os doze signos não sobem à mesma velocidade. Alguns levam mais de duas horas a cruzar o horizonte e outros menos de uma, e essa diferença cresce quanto mais longe do equador se está. Sorteei 200 mil instantes entre 1950 e 2010 e calculei o Ascendente para Londres, a 52° ao norte:
| Em Londres, 52° ao norte | Medido |
|---|---|
| O Ascendente mais comum | Escorpião, 11,9% |
| O menos comum | Carneiro, 3,6% |
| Quantas vezes um é mais provável que o outro | 3,3× |
| Se o sorteio fosse justo | 8,3% para cada |
Repare no que isso quer dizer: duas pessoas nascidas exatamente na mesma hora, uma em Londres e outra numa cidade de outra latitude, podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada Ascendente muda com o lugar. A cidade do nascimento não é um detalhe administrativo do formulário: ela entra na conta.
O padrão desta série é de geometria pura, e dá para dizer numa frase: quanto mais longe do equador, mais desigual o sorteio. Em Copenhaga, a 56 graus norte, a diferença entre o Ascendente mais comum e o menos comum é de 4,3 vezes; em São Paulo, a 23 graus sul, cai para 1,5.
O seu Ascendente depende da hora e da cidade em que nasceu, e nenhuma tabela de signo solar alcança isso. São dois dados que só o cálculo entrega.
Gerar o meu mapa de graçaPerguntas frequentes
A astrologia na Inglaterra tem história própria?
A Inglaterra tem a tradição astrológica mais documentada da Europa moderna, e ela começa perto do trono. John Dee — matemático, bibliotecário e conselheiro de Isabel I — escolheu por astrologia a data da coroação dela. É um dos casos mais citados de eleição de data na história, e é exatamente a técnica que este site chama de astrologia eletiva: procurar, entre as horas possíveis, a que tem o céu que o ato pede. Um século depois veio o autor que ainda é lido.
Por que a latitude muda o Ascendente?
Porque o Ascendente é o grau do zodíaco que está a subir no horizonte, e os signos não sobem todos à mesma velocidade. Quanto mais longe do equador, maior a diferença: alguns signos levam mais de duas horas a subir e outros menos de uma. Perto do equador o sorteio é quase justo; perto do polo, alguns signos quase não aparecem.
Isso quer dizer que o meu signo ascendente é comum ou incomum?
Quer dizer que a conta depende de onde nasceu, e não só de quando. Duas pessoas nascidas na mesma hora em cidades de latitudes diferentes podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada um muda com o lugar. É uma das razões pelas quais um mapa precisa da cidade, e não só da data.
Onde posso ver o meu Ascendente?
No mapa astral, que este site calcula de graça a partir de data, hora e cidade de nascimento. O Ascendente muda a cada duas horas, então a hora importa: um erro de duas horas costuma trocar o signo inteiro.
A astrologia na Inglaterra em resumo
Palavras-chave William Lilly, John Dee, a coluna de 1930
Os números desta página valem para quem nasceu em Londres ou perto dela, porque saem da latitude. O que não sai deles é o seu Ascendente. Ele muda a cada duas horas, e sem a hora do nascimento não há como saber qual é o seu — a frequência de cada um descreve a população, e não a própria pessoa.