A astrologia na Alemanha
O maior astrónomo da história também fazia horóscopos por dinheiro — e escreveu sobre isso.
Johannes Kepler é a figura que melhor mostra como astronomia e astrologia conviviam. Matemático imperial, descobridor das leis do movimento planetário, e astrólogo praticante: fazia mapas por encomenda, e parte do que ganhava vinha disso. O mapa que fez para o general Wallenstein é um dos documentos astrológicos mais estudados do período.
O interessante é o que ele pensava do assunto. Kepler criticou duramente a astrologia do seu tempo — as regras herdadas sem exame, a pretensão de prever acontecimentos concretos, a tabela de significados que cada autor copiava do anterior. E ao mesmo tempo defendeu que havia ali um núcleo digno de investigação, ligado aos ÂNGULOS entre os planetas.
No Tertius Interveniens ele avisa os que querem deitar fora a astrologia inteira que não deitem fora, junto com ela, aquilo que ela tem de real. É uma posição desconfortável e é a mais honesta das três possíveis — mais difícil de defender que "é tudo verdade" e que "é tudo disparate".
E ele foi além da crítica: propôs aspetos novos, deduzidos de divisões do círculo que a tradição não usava, como o quintil, a 72 graus. Quem inventa aspeto está a dizer que a lista herdada é revisável, e poucos astrólogos ousaram isso.
Antes dele, no século XV, Regiomontanus produziu efemérides impressas e um sistema de divisão de casas que leva o nome dele e ainda é usado por muita gente. A Alemanha foi, durante séculos, o lugar onde se fabricavam as ferramentas de cálculo que o resto da Europa usava — e a impressão, que era alemã, é o que fez essas tabelas circularem.
O que a Alemanha deu à astrologia
A Alemanha deu à astrologia o seu crítico mais competente. Kepler é o melhor argumento contra usá-la sem medir — e contra descartá-la sem examinar.
Cinco coisas sobre o céu da Alemanha
A imprensa nasceu alemã, e uma das primeiras coisas que ela imprimiu em quantidade foram calendários com as posições dos astros. Regiomontanus montou em Nuremberga, na década de 1470, uma oficina tipográfica com um objectivo declarado: publicar tabelas astronómicas sem os erros que os copistas iam somando a cada cópia. É uma ideia moderníssima — a máquina serve para tirar a mão humana da transcrição de números — e foi aplicada primeiro às efemérides.
O efeito foi enorme e pouco lembrado. Antes da impressão, uma tabela de posições era um manuscrito caro, cheio de erros acumulados e restrito a quem tinha acesso a bibliotecas. Depois dela, qualquer praticante com algum dinheiro comprava as posições dos planetas para os anos seguintes. A astrologia espalhou-se pela mesma porta que a Bíblia, e pelo mesmo motivo.
Albrecht Dürer gravou em 1515 os primeiros mapas estelares impressos da Europa, com os dois hemisférios e as figuras das constelações desenhadas por um artista de primeira linha sobre dados de astrónomos. E deixou uma gravura que é um documento de astrologia prática: a Melencolia I, de 1514, com uma figura abatida cercada de instrumentos e, no canto, um quadrado mágico de quatro por quatro. Aquele quadrado é o de Júpiter — e a melancolia é a doença de Saturno.
A leitura corrente, que é de historiadores de arte e não de astrólogos, é que a gravura mostra um remédio astrológico: contra o peso de Saturno, chama-se Júpiter pela figura que lhe corresponde. É o procedimento que esta série descreve na página sobre magia astrológica, executado por um dos maiores gravadores da história — e datado dentro do próprio quadrado, que traz o ano de 1514 na linha de baixo.
Da vida de Kepler, o episódio que mais diz sobre a época não é científico. A mãe dele, Katharina, foi acusada de bruxaria e passou mais de um ano presa, sob ameaça de tortura. Kepler deixou o trabalho, foi até lá e conduziu a defesa ele mesmo, respondendo ponto por ponto a cada acusação. Ela foi absolvida e morreu poucos meses depois. O matemático imperial, que fazia horóscopos para generais, precisou de provar em tribunal que a própria mãe não era bruxa — a fronteira entre o saber respeitado e o crime era essa, e passava dentro de uma família.
Os aspetos que Kepler propôs saíram de uma ideia precisa: se dividir o círculo por dois, três, quatro e seis dá os aspetos herdados, por que parar aí? Ele trabalhou com polígonos regulares e chegou a divisões novas, como o quintil, a 72 graus, que é o círculo dividido por cinco. O argumento dele não era tradição, era geometria — e serve de lembrete de que a lista de aspetos de qualquer programa é uma escolha, e não um facto da natureza.
No século XX a Alemanha produziu duas escolas técnicas que ainda circulam: a Escola de Hamburgo, de Alfred Witte, que trabalha com pontos médios entre planetas em vez dos aspetos clássicos, e a cosmobiologia de Reinhold Ebertin, que reduziu a prática a um conjunto pequeno de combinações e publicou um livro de referência traduzido para meio mundo. As duas têm em comum a desconfiança do excesso de símbolo e o gosto por regra curta e conferível.
E o capítulo sombrio: em 1941, depois do voo de Hess para a Escócia, o regime nazi proibiu a astrologia e prendeu astrólogos, videntes e ocultistas numa ação coordenada. Ao mesmo tempo, os dois lados da guerra empregaram astrólogos para propaganda, tentando adivinhar o que o outro lado estaria a ler nos próprios mapas. É o único período em que saber astrologia foi, ao mesmo tempo, crime e emprego de Estado.
As efemérides de Nuremberga chegaram mais longe do que o autor delas. Foram as tabelas de Regiomontanus que Colombo levou a bordo, ao lado do almanaque do português Abraão Zacuto, e foi com elas que previu o eclipse da Jamaica contado na página da Espanha. Um alemão calculou, um judeu expulso de Castela conferiu, um genovês ao serviço da Espanha usou — e é assim que essa história se move, sem respeitar fronteira nenhuma.
O mapa que Kepler fez para Wallenstein tem um final que vale contar. Entregue sem assinatura, agradou, e anos depois o general pediu uma continuação. Kepler apontou dificuldades sérias em torno de março de 1634 e evitou dizer o que aconteceria. Wallenstein foi assassinado em fevereiro daquele ano. É o tipo de acerto que faz uma carreira e que Kepler, de propósito, nunca usou como propaganda: escrevia que um astrólogo não deve prometer acontecimento datado.
Kepler também levantou e comentou o próprio mapa, e o das pessoas da casa. Num texto sobre si mesmo, cruza a posição dos planetas no nascimento com o que sabia do próprio temperamento — a impaciência, a dificuldade com gente, a teimosia com números. Usou a astrologia como linguagem de autorretrato, que é bem perto do que este site chama de mapa de personalidade, e bem longe de prever a semana que vem.
E o céu de Berlim é diferente — isto dá para medir
A parte da astrologia que depende do LUGAR, e não só da data, é o Ascendente: o grau do zodíaco que está a subir no horizonte no instante do nascimento. Ele muda a cada duas horas e depende da latitude da cidade.
E os doze signos não sobem à mesma velocidade. Alguns levam mais de duas horas a cruzar o horizonte e outros menos de uma, e essa diferença cresce quanto mais longe do equador se está. Sorteei 200 mil instantes entre 1950 e 2010 e calculei o Ascendente para Berlim, a 53° ao norte:
| Em Berlim, 53° ao norte | Medido |
|---|---|
| O Ascendente mais comum | Escorpião, 12,1% |
| O menos comum | Peixes, 3,5% |
| Quantas vezes um é mais provável que o outro | 3,5× |
| Se o sorteio fosse justo | 8,3% para cada |
Repare no que isso quer dizer: duas pessoas nascidas exatamente à mesma hora, uma em Berlim e outra numa cidade de outra latitude, podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada Ascendente muda com o lugar. A cidade do nascimento não é um detalhe administrativo do formulário: ela entra na conta.
O padrão desta série é de geometria pura, e dá para dizer numa frase: quanto mais longe do equador, mais desigual o sorteio. Em Copenhaga, a 56 graus norte, a diferença entre o Ascendente mais comum e o menos comum é de 4,3 vezes; em São Paulo, a 23 graus sul, cai para 1,5.
O seu Ascendente depende da hora e da cidade em que nasceu, e nenhuma tabela de signo solar alcança isso. São dois dados que só o cálculo entrega.
Gerar o meu mapa de graçaPerguntas frequentes
A astrologia na Alemanha tem história própria?
Johannes Kepler é a figura que melhor mostra como astronomia e astrologia conviviam. Matemático imperial, descobridor das leis do movimento planetário, e astrólogo praticante: fazia mapas por encomenda, e parte do que ganhava vinha disso. O mapa que fez para o general Wallenstein é um dos documentos astrológicos mais estudados do período. O interessante é o que ele pensava do assunto.
Por que a latitude muda o Ascendente?
Porque o Ascendente é o grau do zodíaco que está a subir no horizonte, e os signos não sobem todos à mesma velocidade. Quanto mais longe do equador, maior a diferença: alguns signos levam mais de duas horas a subir e outros menos de uma. Perto do equador o sorteio é quase justo; perto do polo, alguns signos quase não aparecem.
Isso quer dizer que o meu signo ascendente é comum ou incomum?
Quer dizer que a conta depende de onde nasceu, e não só de quando. Duas pessoas nascidas na mesma hora em cidades de latitudes diferentes podem ter Ascendentes diferentes — e a frequência de cada um muda com o lugar. É uma das razões pelas quais um mapa precisa da cidade, e não só da data.
Onde posso ver o meu Ascendente?
No mapa astral, que este site calcula de graça a partir de data, hora e cidade de nascimento. O Ascendente muda a cada duas horas, então a hora importa: um erro de duas horas costuma trocar o signo inteiro.
A astrologia na Alemanha em resumo
Palavras-chave Kepler, Regiomontanus, o Tertius Interveniens
Os números desta página valem para quem nasceu em Berlim ou perto dela, porque saem da latitude. O que não sai deles é o seu Ascendente. Ele muda a cada duas horas, e sem a hora do nascimento não há como saber qual é o seu — a frequência de cada um descreve a população, e não a própria pessoa.