
O aspeto entre Sol e Marte pode ser lido como a relação entre a sua vontade e o seu jeito de agir: se puxam para o mesmo lado, ou se cada uma vai para o seu. Na astrologia, o Sol está associado à identidade e àquilo que quer ser; Marte, ao impulso, à coragem e ao gesto. Quando os dois formam um aspeto, podemos investigar a distância entre a pessoa que pretende ser e o modo como se move no mundo. Às vezes querer e fazer são um gesto só; às vezes há um intervalo entre eles, e é comum os outros perceberem esse intervalo antes de nós.
Antes de qualquer leitura, vale a pena dizer o que é um aspeto. É a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que conta se as duas trabalham em conjunto, se se ignoram ou se se estranham. As séries anteriores descrevem cada peça sozinha, o planeta no signo e o planeta na casa; esta descreve o que acontece entre duas delas. São cinco as distâncias que a tradição chama aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe as duas peças em contacto de um modo próprio, e nenhuma é boa ou má: cada uma cobra alguma coisa e entrega alguma coisa.
Há também o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blogue usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, o que é outra coisa. Por isso um aspeto pede o mapa calculado, e neste par a data não basta: Marte muda de signo a cada dois meses, e a distância exata até ao seu Sol só aparece no cálculo. Um Sol em Balança e um Marte em Carneiro, por exemplo, estão no mapa de qualquer maneira; o aspeto é que diz se se contradizem em público. E há uma ordem que ajuda: o aspeto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa.
A história deste par passa pela guerra e pela coragem. Marte é o nome romano de Ares, o deus grego da batalha, pouco amado no Olimpo e muito honrado em Roma, onde virou pai fundador e protetor dos campos. O planeta vermelho, cor de ferro e de sangue, sempre foi lido pela tradição como o princípio que corta, separa e avança. No Tetrabiblos de Ptolomeu, é o planeta quente e seco, o que aquece demais. O Sol também é quente, e quando os dois se encontram a tradição costuma falar de calor somado.
O glifo de Marte, ♂, é um círculo com uma seta a sair dele, e costuma ser lido como o escudo e a lança do guerreiro, ou como o espírito que se lança para fora. O do Sol, ☉, é o círculo com um ponto no centro, a identidade que se reconhece. Quando os dois entram em aspeto, o que se põe em relação é o centro e a direção: quem é e para onde vai a sua energia. A geometria conta o tom: fusão na conjunção, conversa fácil no sextil e no trígono, atrito na quadratura e na oposição.
A pergunta humana que mora aqui é a da ousadia. Séneca escreveu nas Cartas a Lucílio: "Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas são difíceis." Pensada a partir deste par, a frase ajuda a investigar o quanto a ação muda o tamanho do problema. Marco Aurélio, nas Meditações, foi por outro caminho: "O que impede a ação faz avançar a ação. O que está no caminho vira o caminho." Uma maneira de investigar este aspeto é perguntar o que faz com a energia quando ela encontra resistência.
A conjunção pode ser lida como a fusão entre vontade e ação. Pode fazer o que quer, e fazer já. Muitas vezes isso aparece como uma coragem que os outros notam e uma pressa que os outros sentem: decidir e executar no mesmo movimento, com força para começar e pouca paciência para esperar. O ponto delicado é a falta de pausa entre o impulso e o gesto. Sem esse intervalo, sobra pouco espaço para corrigir a pontaria, e a conta pode vir em decisões tomadas com raiva ou numa relação ferida por uma frase de dez segundos.
O sextil e o trígono costumam deixar vontade e ação a conversar sem esforço. Pode agir quando decide, sem drama e sem adiamento, numa eficiência prática que parece natural, até ao dia de dividir uma tarefa com alguém que funciona de outra maneira. O lado menos visível é que essa facilidade quase nunca foi testada: quem sempre conseguiu agir pode não ter desenvolvido a paciência de quem precisou de insistir, e talvez desista cedo do que não anda à primeira.
A quadratura e a oposição podem ser lidas como vontade e ação em atrito, e desse atrito costuma nascer uma coragem consciente. Uma maneira de imaginar: quer uma coisa e faz outra, adia o que importa e irrita-se com o que não importa. Pode existir uma raiva de fundo sem lugar para ir, e é comum descobrir tarde que era a energia certa no lugar errado. Uma saída possível é dar-lhe destino. Marte pede alvo, e num aspeto tenso o alvo costuma precisar de ser escolhido de propósito, num desporto, num trabalho exigente ou numa causa, porque energia sem destino tende a escolher sozinha.
No dia a dia, este par costuma aparecer na diferença entre o que diz que vai fazer e o que faz à segunda-feira. Alguém pode agir antes de terminar de pensar, ou pensar tanto que não age; ter energia de sobra e procurar onde a pôr; irritar-se com o que não importa e adiar o que importa; ser lido como corajoso por uns e como impulsivo por outros; trabalhar melhor com prazo apertado; e reconhecer a própria raiva depois, e não durante. Nada disso quer dizer agressividade ou impaciência, rótulos que descrevem o extremo. Uma leitura possível é que a sua energia pede um alvo escolhido.
Existe, porém, uma tensão aqui. Se precisamos de agir para saber quem somos, o que acontece quando agimos só para descarregar? Se nos identificamos com a coragem, conseguimos reconhecer quando virou pressa? E quanto do nosso cansaço vem de lutar batalhas que não escolhemos?
Estas perguntas mostram-se de modos diferentes em cada mapa. O que muda é em que signos e em que casas as duas peças caíram, e como se dão com o resto do desenho.
Ver isso no meu mapa, de graçaHá uma inversão que vale para todos os pares: o que corre sem atrito pode nunca ter sido testado, e o que incomoda costuma produzir. O trígono entre Sol e Marte entrega resultado com pouco esforço, e por isso talvez não exija o músculo que só aparece no dia em que a facilidade não basta. A quadratura pede o contrário: aprender a agir de propósito, e por isso saber como se faz. Neste par a diferença fica visível em qualquer projeto longo, em que o trígono costuma começar melhor e a quadratura costuma terminar mais. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspeto costumam distribuir-se entre as duas peças: muitas vezes uma está em excesso e a outra em deficiência, e o cuidado começa pelo lado mais fraco.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando a energia ganha um alvo escolhido, em vez de um alvo de ocasião. Isso costuma acontecer quando aparece um trabalho ou uma causa grande o bastante para receber o que tem, e a irritação de fundo pode diminuir quase de uma vez. Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra, deixou uma imagem para essa aprendizagem: "Quem quer aprender a voar precisa primeiro aprender a ficar de pé, a andar e a correr." Talvez a maturidade deste par seja distinguir a ação que constrói da que só descarrega, e essa distinção pode transformar pressa em coragem. A idade exata depende do mapa inteiro.
Para ler este aspeto no seu mapa, vale lembrar que descreve como as duas peças se dão, e não quem é. Um Sol em quadratura com Marte não faz ninguém violento; pode indicar uma energia que chega antes da direção, o que é uma questão de pontaria e tem cuidado possível. Os signos e as casas mudam bastante a leitura: um Sol em Caranguejo com Marte em Carneiro em quadratura pode ser lido como alguém que explode e depois se recolhe; um Sol em Capricórnio com a mesma quadratura, como alguém que empurra e não para. As séries O Sol nos 12 signos e Marte nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e são a leitura que vem antes desta.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Nada disto é previsão: descreve tendências e ajuda a dar nome ao que já se vive, sem ocupar o lugar do seu trabalho nem das suas decisões.
Se quiser investigar para onde a sua energia pode ir, a leitura Mapa vocacional olha para o lugar em que a ação costuma virar obra, e Mapa das sombras acompanha a raiva e a força que ficaram sem destino, peça por peça.
A pergunta que fica é: se a sua energia pudesse escolher um alvo só, qual seria?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Sol e Marte:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e o grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a menos de 6 graus da distância exata para o aspeto existir. O signo, a data entrega-o; o aspeto, não, e por isso esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso pode nunca ter sido testado, e às vezes isso só se nota no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Sol em quadratura com Marte faz alguém agressivo? Pode fazer a energia chegar antes da direção, e energia sem alvo procura um. O cuidado é dar destino de propósito, num trabalho exigente, num desporto ou numa causa, porque sem destino escolhido Marte tende a escolher sozinho.
Por que eu tenho tanta energia e faço tão pouco? É uma marca comum dos aspetos tensos deste par: a vontade puxa para um lado e a ação para outro, e a energia gasta-se na negociação. O que costuma ajudar é um alvo só, escolhido, com prazo; a disciplina em geral ajuda menos.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta, sempre. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara depois de conhecer as duas. Se chegou aqui diretamente, vale a pena passar pelas séries de cada peça no signo e na casa e depois voltar a esta: a leitura muda.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e fica mais fraco quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, o aspeto entre Sol e Marte pode ser lido como a relação entre vontade e ação: fusão e pressa na conjunção, eficiência no sextil e no trígono, atrito que ensina a agir de propósito na quadratura e na oposição, sempre dentro de 6 graus de orbe.
Palavras-chave vontade, ação, impulso, coerência
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
