
O aspecto entre Netuno e Plutão pode ser lido como o fundo de uma era inteira: o mais lento de todos os aspectos, e o que menos diz sobre alguém sozinho. Na astrologia, Netuno está associado ao sonho, à imaginação coletiva e ao que dissolve contornos. Plutão, por sua vez, é relacionado ao poder, ao que fica escondido e ao que se desmonta para se refazer. Quando interpretamos o aspecto entre os dois, aproximamos esses campos no ritmo mais longo que a astrologia lê: o ciclo dura cerca de 492 anos, e a conjunção mais recente aconteceu por volta de 1892. Como toda a gente viva hoje nasceu na mesma fase larga dele, o que é só seu aparece na casa em que ele cai.
Um aspecto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que indica se as duas trabalham juntas, se ignoram ou brigam. As séries anteriores deste blog descrevem cada peça sozinha; esta olha para o que acontece entre duas delas. São cinco as distâncias que a tradição chama de aspectos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe duas peças em contato de um jeito próprio, e nenhuma delas é boa ou ruim em si: cada uma cobra alguma coisa e entrega outra.
Há também o orbe, o número que quase nenhum texto diz. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspectos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, o que é outra coisa. Aqui, o mapa calculado quase não decide nada sobre o aspecto em si: ele decide a casa, a única coisa deste par que é sua. E o aspecto vem por último na ordem de leitura, porque descreve a relação entre duas peças, e fica difícil ler uma relação sem conhecer as duas.
Na mitologia, Poseidon e Hades, que os romanos chamaram de Netuno e Plutão, são irmãos, e na divisão do mundo ficaram com os dois reinos que o olho não alcança: o fundo do mar e o mundo de baixo da terra. Os planetas também chegaram tarde ao céu dos astrônomos, Netuno em 1846 e Plutão em 1930. A conjunção mais recente dos dois, por volta de 1892, costuma ser associada pelos astrólogos a ideias que marcaram o século XX inteiro. Uma delas é a psicanálise, que levou a sério justamente o sonho e o que fica escondido: Sigmund Freud publicou A Interpretação dos Sonhos na virada para 1900. E há um fato astronômico que vale a página inteira: os dois estão em ressonância 3:2, o que mantém a distância entre eles numa dança regular, e é essa dança que explica por que certos aspectos entre eles não acontecem em vida nenhuma.
Os signos que os dois regem na astrologia moderna, Peixes e Escorpião, são ambos de água e estão em trígono natural. A água é o elemento associado ao sentimento e ao que corre por baixo; Peixes é mutável, o que se espalha e não tem borda, e Escorpião é fixo, o que guarda e aprofunda. O glifo de Netuno, ♆, é o tridente de Poseidon; o de Plutão, ♇, junta as letras P e L, de Plutão e de Percival Lowell, e tem uma segunda forma, com um círculo sobre um crescente e uma cruz. Na geometria dos aspectos, o trígono liga signos do mesmo elemento, a quadratura liga signos da mesma modalidade que puxam para lados diferentes, e a oposição põe frente a frente dois signos complementares.
A conjunção é o começo de uma era, e a última foi por volta de 1892. Ninguém vivo hoje nasceu numa conjunção de Netuno e Plutão, e a próxima só acontece daqui a séculos. O que existe é o efeito prolongado da última. É o único par da série em que a leitura honesta começa dizendo que há pouco a ler no mapa de alguém, e essa honestidade é a razão de esta página existir.
O sextil entre os dois é a fase em que praticamente toda a gente viva nasceu. Ele acompanha o século XX e boa parte do XXI, e como é compartilhado por quase todo mundo, não distingue ninguém de ninguém. Isso o torna invisível, o que é diferente de irrelevante. O trígono pede 120 graus, e ele acontece: é incomum dentro de uma vida, mas a órbita permite. A conta é longa, e o que muda de um mapa para outro continua sendo a casa.
A quadratura e a oposição existem na conta e faltam na vida de quem está vivo. Este é o único par da série em que um aspecto é possível pela órbita e ausente na prática: medido de 1900 a 2100, Netuno e Plutão não passam de 134,9 graus de separação, e por isso a oposição não aparece em nenhum mapa de gente viva. Refeita a conta de 1600 a 2600, ela chega a 180 graus em 2138. Ou seja, a oposição é possível, e ninguém vivo hoje a tem. A frase precisa é “não existe em ninguém que esteja aqui”, e a diferença entre ela e um simples “não existe” é o que separa medir de chutar.
Que pergunta humana mora neste par? Talvez esta: o que em nós é nosso, e o que é da era em que nascemos? Montaigne, nos Ensaios, escreveu que "Todo homem traz em si a forma inteira da condição humana." Pensada a partir de Netuno e Plutão, a frase lembra que cada vida carrega também o fundo comum do seu tempo, e que esse fundo é compartilhado por todos. Kierkegaard, nos Diários, deixou a observação que serve a qualquer ciclo longo: "A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente." Uma era só se deixa ler de longe, e quem está dentro dela vive sem ver o desenho inteiro.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se toda a gente viva compartilha o mesmo fundo, conseguimos ainda enxergar o que nele é escolha de época? Se o que nos forma é tão lento, de que maneira reconhecemos o que é nosso? E quando atribuímos ao mapa o que é da era, o que deixamos de perguntar a nós mesmos?
Os sinais deste par são poucos e todos de era. O ciclo dura cerca de 492 anos, a conjunção mais recente foi por volta de 1892, toda a gente viva hoje nasceu na mesma fase, a oposição é possível pela órbita e não existe em ninguém vivo, os dois estão em ressonância 3:2, e o par só vira biografia pela casa em que cai. Repare no que esses sinais deixam de fora: eles não dizem que você é de uma era decadente ou de uma era iluminada, dois rótulos que este par carrega e que descrevem o extremo. Dizem que este par é o fundo de uma era inteira, e o que é seu é apenas a casa em que ele caiu.
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Há uma inversão que vale para todo par: o que corre sem atrito nunca foi testado, e o que incomoda costuma ser o que produz. O trígono entre Netuno e Plutão entrega o resultado sem esforço, e por isso o músculo pode ficar sem treino, coisa que só se descobre no dia em que a facilidade não basta. Aqui, porém, a inversão vale de outro jeito: falta uma geração fácil e outra difícil para comparar, porque só existe uma fase viva. O que sobra é o exame. É o par em que a régua desta série trabalha mais e entrega menos, e isso também é informação, porque mostra onde a astrologia faz melhor em calar do que em inventar.
No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Num aspecto, elas costumam se distribuir entre as duas peças. Quase sempre uma delas está em excesso e a outra em deficiência, e o conserto vem pelo lado mais fraco. Num par desta escala, as quatro faces se leem melhor na casa e nos contatos com as peças pessoais do que no aspecto em si.
Este aspecto não amadurece dentro de uma vida: o ciclo é mais longo que qualquer biografia. O que muda dentro de uma vida é a relação entre esse fundo e as peças pessoais do mapa, e é a única coisa deste par que vale ler numa consulta. Aqui a maturidade pedida é de quem lê o mapa: saber parar de atribuir a alguém o que pertence a uma era.
Netuno fica cerca de catorze anos em cada signo e Plutão, de onze a trinta e um, e o ciclo entre os dois dura cerca de 492 anos, o mais longo entre os corpos que a astrologia lê. Nenhum dos dois é pessoal, e este aspecto vai além da sua geração: ele descreve a era. Toda a gente viva hoje nasceu na mesma fase larga dele, e é por isso que ele quase nunca entra numa leitura individual.
Para ler este aspecto no seu mapa, o caminho passa pelo que é só seu: em que casas os dois estão, e que aspectos eles fazem com o seu Sol, a sua Lua, o seu Mercúrio, a sua Vênus e o seu Marte. É a única parte desta página que depende da sua hora e da sua cidade. Um sextil de Netuno e Plutão na casa 12 pode ser lido como um fundo que você quase não percebe; o mesmo sextil na casa 5 encosta na criação e fica um pouco mais visível. Antes desta leitura vale passar por Netuno nos 12 signos e Plutão nos 12 signos, que descrevem cada peça sozinha.
Essas questões não significam que a era descreva alguém por inteiro. Um aspecto, isoladamente, não permite afirmar nada sobre ninguém, e nada disso é previsão. A astrologia oferece tendência e vocabulário para pensar o que você já vive; ela não substitui o seu trabalho nem as suas decisões.
Se você quiser investigar o que chega a você de antes desta vida, o Mapa kármico lê Plutão, Netuno e os nodos lunares, e o Mapa de vidas passadas acompanha a casa 12 e o que a tradição associa à memória mais funda. O Mapa astral completo mostra em que casas os dois caíram no seu desenho, que é onde este par tem algo a dizer sobre você.
A pergunta que fica é: o que em você é da sua era, e o que é só seu?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspecto entre Netuno e Plutão:
Como eu descubro se tenho esse aspecto no mapa? Só com o mapa calculado. Um aspecto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam estar a até 6 graus da distância exata para o aspecto existir. É diferente do signo, que a data entrega, e é por isso que esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspecto tenso é ruim e aspecto fácil é bom? Essa é uma leitura que este blog evita em toda página. O aspecto fácil corre sem atrito e por isso nunca foi testado: o músculo pode ficar sem treino, e isso aparece no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incômodo costuma produzir. As biografias que valem a pena ler costumam ser cheias de quadraturas.
Por que ninguém tem Netuno em oposição a Plutão? Porque, medido de 1900 a 2100, os dois não passam de 134,9 graus de separação. A conta refeita de 1600 a 2600 mostra que ela chega a 180 graus em 2138: a oposição é possível, e ninguém vivo hoje a tem. Recorte de janela é uma coisa, física é outra.
Vale a pena olhar este par no meu mapa? Vale para uma coisa só: a casa em que os dois caíram e os contatos que eles fazem com o que é pessoal no seu mapa. O aspecto entre eles é o mesmo para toda a gente viva, e uma leitura honesta diz isso antes de qualquer outra coisa.
O que vem antes: o aspecto ou o planeta no signo? O planeta, sempre. Um aspecto descreve a relação entre duas peças, e fica difícil ler a relação sem conhecer as duas. Se você chegou aqui direto, vale voltar às séries de cada peça no signo e na casa e só depois ler esta: a leitura fica outra.
Aspecto que não é exato ainda conta? Conta, e mais fraco quanto mais longe do grau exato. Um aspecto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É por isso que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece aqui antes de aparecer em qualquer outro lugar.
Em resumo, o aspecto entre Netuno e Plutão pode ser lido como o fundo de uma era, num ciclo de cerca de 492 anos em que toda a gente viva nasceu na mesma fase. O que é seu está apenas na casa em que os dois caíram e nos contatos que eles fazem com as suas peças pessoais.
Palavras-chave geração, ciclo longo, ressonância, órbita
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde você nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
