
O aspeto entre Urano e Plutão pode ser lido como a temperatura das épocas em que gerações inteiras viram a mesa. Na astrologia, Urano está associado à rutura, à invenção e à liberdade. Plutão, por sua vez, é relacionado com o poder, com o que fica escondido e com o que precisa de ser desmontado para se refazer por dentro. Quando interpretamos o aspeto entre os dois, aproximamos esses campos: a revolta que muda de verdade a estrutura, a viragem que redefine o que é normal. Como os dois estão entre os planetas mais lentos, essa temperatura é de gerações inteiras, e o que é só seu aparece na casa em que ela cai.
Um aspeto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que indica se as duas trabalham em conjunto, se se ignoram ou se entram em conflito. As séries anteriores deste blogue descrevem cada peça sozinha; esta olha para o que acontece entre duas delas. São cinco as distâncias que a tradição chama aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe duas peças em contacto de um modo próprio, e nenhuma delas é boa ou má em si: cada uma cobra alguma coisa e entrega outra.
Há também o orbe, o número que quase nenhum texto diz. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blogue usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, o que é outra coisa. Por isso um aspeto não se descobre pela data: precisa do mapa calculado. E o aspeto vem por último na ordem de leitura, porque descreve a relação entre duas peças, e é difícil ler uma relação sem conhecer as duas.
Este é o par mais explosivo dos dez geracionais, e o mais claro na história. A conjunção dos anos 1960, em Virgem, e a quadratura dos anos 2010 são as duas fases recentes, e as duas coincidem com décadas de contestação alargada. O filósofo e historiador Richard Tarnas dedicou boa parte de Cosmos and Psyche a comparar as fases deste ciclo com os períodos de revolução e de reforma social. Os nomes ajudam a pensar o par: Ouranos é o céu primordial que foi derrubado pelo próprio filho, e Hades, o Plutão dos romanos, é o neto dele que reina sobre o mundo debaixo da terra. Urano descoberto em 1781, Plutão em 1930: o mais antigo dos dois no céu dos astrónomos é o da rutura, e o mais novo, o do que vem de baixo. O ciclo entre eles dura cerca de 127 anos.
Os signos que os dois regem na astrologia moderna estão em quadratura natural. Urano rege Aquário e Plutão rege Escorpião, e os dois são signos fixos: a modalidade que conserva o que já está instalado e que, quando decide mudar, muda tudo de uma vez. Aquário é de ar, o elemento das ideias e do coletivo; Escorpião é de água, o elemento do que se sente por dentro e não se diz. Juntos, desenham a revolta que nasce de uma ideia e de uma raiva ao mesmo tempo. O glifo de Urano, ♅, desenha um H, a inicial de Herschel; o de Plutão, ♇, junta as letras P e L, de Plutão e de Percival Lowell. Na geometria dos aspetos, o trígono liga signos do mesmo elemento, a quadratura liga signos da mesma modalidade que puxam para lados diferentes, e a oposição põe frente a frente dois signos complementares.
A conjunção junta rutura e poder, e abre uma fase em que a contestação passa a ser mudança estrutural. A mais recente, nos anos 1960, em Virgem, coincidiu com uma década de reorganização social ampla. Uma maneira de ler as gerações nascidas nessas fases é pensar numa inquietação de fundo que a biografia sozinha não explica. O custo coletivo é a violência que essas fases costumam trazer. Para si, o alerta é outro e menor: a intensidade sentida como pessoal pode ser, em boa parte, da época.
O sextil e o trígono costumam ser lidos como transformação sem rutura: a mudança profunda encontra caminho. São fases em que a reforma acontece sem colapso, e as gerações nascidas nelas podem ser boas a mudar coisas grandes sem partir tudo primeiro. O custo é a pouca radicalidade. Uma geração que sempre encontrou caminho talvez não tenha treinado o músculo de forçar passagem quando não há.
A quadratura e a oposição põem a rutura contra o poder, e é dessa briga que costumam sair as décadas em que muita coisa muda de dono. São fases de conflito aberto: contestação em larga escala, disputa pelo controlo, instituição que perde legitimidade. As gerações nascidas nelas podem ter uma relação intensa com o poder e uma impaciência de fundo. O remédio coletivo é institucional e demora; o individual passa por reconhecer o que é da época, porque tratar o clima de uma década como assunto pessoal cansa uma vida inteira.
Que pergunta humana mora neste par? Talvez esta: o que devemos ao mundo que recebemos, e quando é hora de o recusar? Hannah Arendt, na Entrevista a Joachim Fest, disse uma frase que continua a incomodar: "Ninguém tem o direito de obedecer." Uma leitura possível é que obedecer, entre adultos, já é uma forma de apoio, e que cada um responde pelo que apoia. Pensada a partir de Urano e Plutão, a frase lembra que a viragem de uma época também passa pelo que cada um aceita ou recusa. Heráclito deixou a imagem que completa o quadro: "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio." Depois de uma dessas décadas, o rio já é outro, e quem volta a ele também.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se nascemos numa época de viragem, conseguimos separar a nossa inquietação da inquietação do tempo? Se a nossa geração aprendeu a contestar, conseguimos também construir o que vem depois? E quando tudo muda de dono, o que escolhemos proteger?
Os sinais deste par valem para qualquer um dos cinco aspetos, porque o assunto é o mesmo e o que muda é o atrito. Marca as décadas de contestação e de viragem estrutural, teve a conjunção mais recente nos anos 1960 e a quadratura mais recente nos anos 2010, é o mesmo para gerações inteiras e tem um ciclo de cerca de 127 anos. Vale acrescentar uma ressalva além da do costume: o aspeto descreve um clima de época, e clima de época diz pouco sobre o caráter de alguém. Repare no que esses sinais deixam de fora: não dizem que se é de uma geração revolucionária ou de uma geração perdida, dois rótulos que este par carrega e que descrevem o extremo. Dizem que a sua geração se formou numa certa temperatura de época.
Essa temperatura aparece de modos diferentes em duas pessoas com o mesmo aspeto. O que muda são os signos e as casas em que as duas peças caíram, e a conversa delas com o resto do mapa.
Ver isso no meu mapa, de graçaHá uma inversão que vale para todos os pares: o que corre sem atrito nunca foi testado, e o que incomoda costuma ser o que produz. O trígono entre Urano e Plutão entrega o resultado sem esforço, e por isso o músculo pode ficar sem treino, coisa que só se descobre no dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: uma geração que enfrentou resistência a sério e que, por isso, sabe o que custa mudar alguma coisa. Neste par a inversão é a mais visível num livro de história e a menos útil para ler alguém sozinho, e é justamente isso que este texto quer mostrar.
No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Num aspeto, costumam distribuir-se entre as duas peças. Quase sempre uma delas está em excesso e a outra em deficiência, e o remédio vem pelo lado mais fraco. Com Urano em excesso, a rutura pode virar reflexo; com Plutão em excesso, a mudança pode virar disputa de poder. Em vez de afirmar que alguém é rebelde ou radical, podemos investigar qual das duas peças está a pedir mais espaço no seu desenho.
Este aspeto amadurece em ciclos de mais de um século, e não em anos de vida. O que muda dentro de uma vida é a relação entre esse fundo e as peças pessoais do mapa, e é aí que ele passa a ser experiência em vez de contexto. A maturidade aqui pode ser lida como distinguir a inquietação que é sua da que é da época, e deixar de se cobrar por uma temperatura que não escolheu.
Urano fica cerca de sete anos em cada signo e Plutão, de onze a trinta e um, e o ciclo entre os dois é de cerca de 127 anos. Nenhum dos dois é pessoal, e o aspeto entre eles é o mesmo para gerações inteiras. Fala da época em que a sua geração entrou no mundo: a conjunção dos anos 1960 e a quadratura dos anos 2010 são fases partilhadas por centenas de milhões de pessoas.
Para ler este aspeto no seu mapa, o caminho passa pelo que é só seu: em que casas os dois estão, e que aspetos fazem com o seu Sol, a sua Lua, o seu Mercúrio, a sua Vénus e o seu Marte. É por aí que um aspeto de geração se torna biografia, e é a única parte desta página que depende da sua hora e da sua cidade. Uma quadratura de Urano e Plutão na casa 10 pode ser lida como uma carreira construída em tempo de viragem; a mesma quadratura na casa 7, como uma vida de relações marcada pela mesma temperatura. Antes desta leitura vale a pena passar por Urano nos 12 signos e Plutão nos 12 signos, que descrevem cada peça sozinha.
Essas questões não significam que toda a gente nascida numa conjunção ou numa quadratura de Urano e Plutão viva tais conflitos. Um aspeto, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém, e nada disso é previsão. A astrologia oferece tendência e vocabulário para pensar o que já se vive; não substitui o seu trabalho nem as suas decisões.
Para separar o que é seu do que é da época, o Mapa kármico lê Plutão e os nodos lunares, onde a astrologia costuma localizar o que chega de antes e pede transformação. As Previsões para os próximos 12 meses acompanham os trânsitos de Urano e de Plutão sobre as suas peças pessoais, que é quando a temperatura do mundo costuma encostar à sua.
A pergunta que fica é: da inquietação que sente, quanto é seu e quanto é do tempo em que nasceu?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Urano e Plutão:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Só com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e o grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a menos de 6 graus da distância exata para o aspeto existir. É diferente do signo, que a data entrega, e é por isso que esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Essa é uma leitura que este blogue evita em todas as páginas. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso nunca foi testado: o músculo pode ficar sem treino, e isso nota-se no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. As biografias que valem a pena ler costumam ser cheias de quadraturas.
Urano com Plutão torna alguém revolucionário? Torna a época de viragem, que é outra coisa. Centenas de milhões de pessoas partilham este aspeto, e o que muda de uma para outra é a casa em que ele caiu e os contactos que faz com o que é pessoal no mapa.
Por que eu sinto uma inquietação que não sei explicar? Parte dela pode ser da época, e reconhecê-lo costuma aliviar: tratar o clima de uma década como assunto pessoal cansa uma vida inteira. O que é seu de facto está na casa em que os dois caíram e nos aspetos deles com o seu Sol, a sua Lua e o resto.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta, sempre. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e é difícil ler a relação sem conhecer as duas. Se chegou aqui diretamente, vale a pena voltar às séries de cada peça no signo e na casa e só depois ler esta: a leitura fica outra.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e é mais fraco quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É por isso que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece aqui antes de aparecer em qualquer outro lugar.
Em resumo, o aspeto entre Urano e Plutão pode ser lido como a temperatura de viragem em que a sua geração se formou, num ciclo de cerca de 127 anos. O que é seu está na casa em que os dois caíram e nos contactos que fazem com as suas peças pessoais.
Palavras-chave geração, revolta, transformação, ruptura
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
