
O aspeto entre Sol e Neptuno pode ser lido como a nitidez do contorno da sua imagem, para quem olha e para si. Na astrologia, o Sol está associado à identidade; Neptuno, ao que dissolve contornos, à imaginação, à fé, à compaixão e à névoa. Quando os dois formam um aspeto, podemos investigar uma identidade que cada um descreve de uma maneira, e que, por dentro, às vezes tem dificuldade com a pergunta mais simples que existe: quem sou eu? Sensibilidade e confusão costumam andar juntas aqui. A mesma permeabilidade que faz sentir a sala inteira pode fazer com que, ao sair dela, seja difícil saber o que era seu e o que era dos outros.
Antes de qualquer leitura, vale a pena dizer o que é um aspeto. É a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que conta se as duas trabalham em conjunto, se se ignoram ou se se estranham. As séries anteriores descrevem cada peça sozinha, o planeta no signo e o planeta na casa; esta descreve o que acontece entre duas delas. São cinco as distâncias que a tradição chama aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe as duas peças em contacto de um modo próprio, e nenhuma é boa ou má: cada uma cobra alguma coisa e entrega alguma coisa.
Há também o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blogue usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, o que é outra coisa. Por isso um aspeto pede o mapa calculado. Neste par vale uma ressalva de tamanho: Neptuno fica catorze anos em cada signo, então o signo dele é história. O que é pessoal é o aspeto com o seu Sol, e como Neptuno quase não se move, é a posição do Sol que decide: poucos dias de diferença no nascimento bastam para haver ou não haver aspeto. E há uma ordem que ajuda: o aspeto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa.
A história deste planeta começa numa conta. Neptuno foi encontrado em 1846 primeiro no papel, pelos cálculos de quem procurava a causa das irregularidades na órbita de Urano, e só depois no telescópio. É curioso que o planeta da névoa tenha sido descoberto antes de ser visto. Ganhou o nome do deus romano do mar, o Poseidon dos gregos, senhor das águas fundas, das marés e dos sismos. A astrologia moderna passou a ler nele o oceano em que os limites se desfazem: o sonho, a arte, a devoção e também o engano. Quando toca o Sol, costuma falar-se de uma luz vista através da água.
O glifo de Neptuno, ♆, é o tridente do deus do mar, e costuma ser lido como um crescente aberto para cima, pronto para receber, apoiado numa cruz. O do Sol, ☉, é o círculo com um ponto no centro, o eu reconhecido. Quando os dois entram em aspeto, o que se põe em relação é o centro e a dissolução: quem é e o quanto essa forma deixa o mundo entrar. A geometria conta o tom: o contorno fino na conjunção, sensibilidade com borda no sextil e no trígono, identidade contra a névoa na quadratura e na oposição.
A pergunta humana que mora aqui é a do que vemos quando olhamos. Carl Gustav Jung, na Carta a Fanny Bowditch de 22 de outubro de 1916, escreveu: "A tua visão só se tornará clara quando puderes olhar para dentro do teu próprio coração. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta." Pensada a partir deste par, a frase ajuda a investigar a diferença entre sonhar com quem se é e reconhecer quem se é. Chuang Tzu deixou outra imagem: "O homem perfeito usa a mente como um espelho: não retém nada, não recusa nada." Uma maneira de investigar Sol e Neptuno é perguntar se o seu espelho devolve o que recebe, ou se fica com tudo.
A conjunção pode ser lida como um contorno de identidade mais fino. Muitas vezes mostra-se como um ecrã em que quem chega projeta o que precisa de ver. Há uma qualidade que os outros chamam de misteriosa e que, por dentro, pode ser a dificuldade de saber onde se começa. É comum que os outros vejam em si mais doçura, mais fragilidade ou mais sabedoria do que sente ter. O ponto delicado é a confusão entre quem é e a versão de que o ambiente precisava naquele ano, e uma tendência real a perder-se dentro de outra pessoa, de uma causa ou de uma substância.
O sextil e o trígono costumam trazer sensibilidade sem confusão. Pode sentir e continuar inteiro. É uma combinação associada ao artista sem drama e a quem cuida sem se esgotar: perceber o que não foi dito sem se desfazer nisso, o que torna este aspeto precioso em qualquer trabalho com gente. O lado menos visível é não ter aprendido a defender-se, porque nunca precisou. Num ambiente duro, pode demorar a perceber que está a ser usado, e demorar ainda mais a reagir.
A quadratura e a oposição podem ser lidas como a identidade diante da névoa, e desse confronto costuma nascer quem sabe distinguir o que sente do que absorveu. Uma maneira de imaginar: não saber quem se é e sofrer com isso, idealizar os outros, cair em engano mais de uma vez, passar anos numa relação, num trabalho ou numa crença que existia sobretudo na imaginação. O cuidado é pequeno e diário: dizer o que quer em coisas sem importância, até que a frase exista antes de a sala pedir. É uma maneira de construir contorno, e leva anos.
No dia a dia, este par costuma aparecer no modo como pessoas diferentes o descrevem. Alguém pode ser descrito de maneiras muito distintas por quem o conhece, sentir o clima de uma sala antes de qualquer palavra, ter mais dificuldade em dizer o que quer do que em saber, ter sido chamado de misterioso mais vezes do que gostaria, já se ter perdido dentro de uma relação ou de uma causa, e cansar-se em ambiente cheio sem perceber o motivo. Nada disso quer dizer ingenuidade ou falta de personalidade, rótulos que descrevem o extremo. Uma leitura possível é que o seu contorno é fino, e contorno fino constrói-se.
Existe, porém, uma tensão aqui. Se sentimos tudo o que está à volta, o que acontece com aquilo que é só nosso? Se nos identificamos com a compaixão, conseguimos reconhecer quando virou esquecimento de si? E quantas vezes amamos alguém pelo que imaginamos dele, e não pelo que mostrou?
Estas perguntas mostram-se de modos diferentes em cada mapa. O que muda é em que signos e em que casas as duas peças caíram, e como se dão com o resto do desenho.
Ver isso no meu mapa, de graçaHá uma inversão que vale para todos os pares: o que corre sem atrito pode nunca ter sido testado, e o que incomoda costuma produzir. O trígono entre Sol e Neptuno entrega resultado com pouco esforço, e por isso talvez não exija o músculo que só aparece no dia em que a facilidade não basta. A quadratura pede o contrário: construir contorno, e por isso saber onde ele está. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspeto costumam distribuir-se entre as duas peças: muitas vezes uma está em excesso e a outra em deficiência, e o cuidado começa pelo lado mais fraco.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando passa a dizer o que quer em voz alta, mesmo em coisa pequena. Isso costuma acontecer perto da quadratura de Neptuno, por volta dos 41 anos, quando uma desilusão grande pede a pergunta que vinha a ser adiada. Simone Weil, em A Gravidade e a Graça, escreveu: "A atenção absolutamente pura é oração." Talvez a maturidade deste par seja voltar essa atenção para si, a ponto de distinguir o que sente do que absorveu do ambiente, e essa separação pode transformar confusão em perceção. A idade exata depende do mapa inteiro.
Para ler este aspeto no seu mapa, vale lembrar que descreve como as duas peças se dão, e não quem é. O signo de Neptuno é de catorze anos de gente; o aspeto com o seu Sol é que é o seu. Os signos e as casas mudam bastante a leitura: um Sol em Peixes com Neptuno em conjunção pode ser lido como alguém quase sem borda; um Sol em Capricórnio com a mesma conjunção, como alguém que parece firme e não se sente assim. As séries O Sol nos 12 signos e Neptuno nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e são a leitura que vem antes desta.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Nada disto é previsão: descreve tendências e ajuda a dar nome ao que já se vive, sem ocupar o lugar do seu trabalho, das suas decisões nem de um acompanhamento de saúde quando ele é necessário.
Se quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Espiritualidade e magia olha para o lado de Neptuno que busca sentido e devoção, e Mapa das sombras acompanha o que absorveu dos outros e ainda carrega como se fosse seu.
A pergunta que fica é: quando sai de uma sala cheia, o que do que sente ainda é seu?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Sol e Neptuno:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e o grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a menos de 6 graus da distância exata para o aspeto existir. O signo, a data entrega-o; o aspeto, não, e por isso esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso pode nunca ter sido testado, e às vezes isso só se nota no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Sol em quadratura com Neptuno faz alguém perdido? Pode fazer o contorno ser fino, e contorno fino constrói-se: dizendo o que se quer em coisas pequenas, todos os dias, até a frase existir antes de a sala pedir. A sensação de estar perdido pode ser lida como sintoma de uma sensibilidade sem limite escolhido, e limite escolhido aprende-se.
Esse aspeto tem a ver com vício? A tradição associa Neptuno à fuga, e vale dizer o limite com honestidade: um aspeto não causa dependência química nem a diagnostica. O que a leitura descreve é uma tendência a desfazer-se em alguma coisa, e o cuidado disso é com profissional de saúde, e não com o mapa.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta, sempre. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara depois de conhecer as duas. Se chegou aqui diretamente, vale a pena passar pelas séries de cada peça no signo e na casa e depois voltar a esta: a leitura muda.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e fica mais fraco quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, o aspeto entre Sol e Neptuno pode ser lido como a nitidez do seu contorno: borda fina na conjunção, sensibilidade que continua inteira no sextil e no trígono, identidade que aprende a separar-se da névoa na quadratura e na oposição, sempre dentro de 6 graus de orbe.
Palavras-chave identidade, imagem, sensibilidade, contorno
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
