
O aspeto entre Saturno e Plutão pode ser lido como as décadas em que uma estrutura é obrigada a refazer-se, e como a força que as gerações nascidas nelas aprendem cedo. Na astrologia, Saturno está associado à ordem, ao limite e ao que precisa de durar. Plutão, por sua vez, é relacionado ao poder, ao que fica escondido e ao que precisa de ser desmontado para renascer. Quando interpretamos o aspeto entre os dois, aproximamos esses campos: o que estava de pé é testado até ao limite, e o que não aguenta cai. Como os dois são lentos, essa prova é da sua geração inteira, e o que é só seu aparece na casa em que ela cai.
Um aspeto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que indica se as duas trabalham em conjunto, se se ignoram ou se entram em conflito. As séries anteriores deste blogue descrevem cada peça sozinha; esta olha para o que acontece entre duas delas. São cinco as distâncias que a tradição chama aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe duas peças em contacto de um modo próprio, e nenhuma delas é boa ou má em si: cada uma cobra alguma coisa e entrega outra.
Há também o orbe, o número que quase nenhum texto diz. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blogue usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, o que é outra coisa. Por isso um aspeto não se descobre pela data: precisa do mapa calculado. E o aspeto vem por último na ordem de leitura, porque descreve a relação entre duas peças, e é difícil ler uma relação sem conhecer as duas.
No mito, os dois são pai e filho. Cronos, que os romanos chamaram de Saturno, engolia os filhos assim que nasciam, com medo de ser derrubado por eles, e Hades, o Plutão dos romanos, estava entre os engolidos. Quando finalmente saiu, foi para reinar sobre o mundo de baixo da terra. A imagem ajuda a pensar o par: a ordem que tenta impedir a mudança e a força que, mesmo engolida, volta. É o par mais pesado dos dez geracionais, e vale a pena dizer isso sem enfeite. Ele coincide historicamente com períodos de crise dura, como guerra, colapso económico e epidemia, e é o par que a astrologia mundial olha primeiro quando o assunto é década difícil. O ciclo dura cerca de trinta e cinco anos. A conjunção mais recente aconteceu em janeiro de 2020, em Capricórnio, e a anterior em 1982, em Balança.
O símbolo dos dois também conversa. Saturno rege Capricórnio, signo de terra e cardinal, o que dá forma e começa a obra; Plutão rege Escorpião na astrologia moderna, signo de água e fixo, o que guarda e aprofunda. Os dois signos ficam a 60 graus, em sextil natural, e juntam a terra que dá contorno à água funda que corrói e renova. O glifo de Saturno, ♄, costuma ser lido como a foice do ceifeiro; o de Plutão, ♇, junta as letras P e L, de Plutão e de Percival Lowell, e tem uma segunda forma, com um círculo sobre um crescente e uma cruz. Na geometria dos aspetos, o trígono liga signos do mesmo elemento, a quadratura liga signos da mesma modalidade que puxam para lados diferentes, e a oposição põe frente a frente dois signos complementares.
A conjunção junta limite e poder, e abre uma fase em que uma estrutura é levada ao limite. Costumam ser períodos de reorganização forçada, de poder, de economia e de fronteira. Uma maneira de ler as gerações nascidas neles é pensar numa seriedade precoce e numa resistência que os outros estranham. O custo possível é a dureza que sobra depois. Para a geração, pode ser uma desconfiança que dura décadas; para si, depende da casa, e é ali que a dureza pode virar competência em vez de amargura.
O sextil e o trígono costumam ser lidos como poder com estrutura: a reconstrução acontece sem colapso. São fases em que a mudança profunda encontra instituição capaz de a conduzir, e as gerações nascidas nelas podem ser boas a reconstruir alguma coisa sem precisar de a destruir antes. O custo é o pouco confronto com o próprio limite. Uma geração que nunca viu a estrutura quebrar talvez não saiba do que ela é feita.
A quadratura e a oposição põem a ordem contra a força, e é dessa luta que costuma sair a geração mais dura e mais capaz de reconstruir. São as fases historicamente mais difíceis, em que o que existia é testado até quebrar. As gerações nascidas nelas podem ter maturidade cedo demais e uma relação séria com o poder e com a autoridade. O conserto coletivo é lento e institucional; o individual passa por não confundir a dureza aprendida com identidade, porque foi ferramenta, e ferramenta larga-se quando já não é precisa.
Que pergunta humana mora neste par? Talvez esta: o que fazemos com aquilo que não podemos mudar? Viktor Frankl, que passou pelos campos de concentração e escreveu sobre isso em Em Busca de Sentido, deixou uma frase que parece escrita para este aspeto: "Quando já não somos capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar-nos a nós mesmos." Saturno é a situação que não cede; Plutão, a transformação que acontece por dentro. Nietzsche, em Além do Bem e do Mal, deixou o aviso que completa o quadro: "Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um monstro." A dureza que serviu numa época difícil pode, com o tempo, virar a próxima prisão.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se a nossa geração aprendeu a aguentar, conseguimos ainda pedir ajuda? Se crescemos num tempo duro, conseguimos reconhecer quando o perigo já passou? E quando a força virou costume, sabemos deixá-la descansar?
Os sinais deste par valem para qualquer um dos cinco aspetos, porque o assunto é o mesmo e o que muda é o atrito. Ele coincide com as décadas historicamente mais duras, é o mesmo para quem nasceu na mesma faixa de anos, produz seriedade precoce e resistência acima da média e dura cerca de trinta e cinco anos de ponta a ponta. Azar é a palavra errada para quem nasce nessas fases; o que elas costumam deixar é uma capacidade de aguentar que gerações nascidas em fases fáceis talvez não tenham. Repare no que esses sinais deixam de fora: não dizem que é de uma geração azarada ou de uma geração amarga, dois rótulos que este par carrega e que descrevem o extremo. Dizem que a sua geração entrou numa certa fase da dureza, e o que é seu é onde isso caiu no mapa.
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Há uma inversão que vale para todos os pares: o que corre sem atrito nunca foi testado, e o que incomoda costuma ser o que produz. O trígono entre Saturno e Plutão entrega o resultado sem esforço, e por isso o músculo pode ficar sem treino, coisa que só se descobre no dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: uma geração que viu a estrutura quebrar e que, por isso, sabe reconstruir, coisa que gerações de fases fáceis nunca precisaram de aprender. Neste par a inversão é a mais bem documentada da série, porque as gerações nascidas em fases duras costumam ser as que reconstroem o que vem depois.
No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Num aspeto, costumam distribuir-se entre as duas peças. Quase sempre uma delas está em excesso e a outra em deficiência, e o conserto vem pelo lado mais fraco. Com Saturno em excesso, o controlo pode endurecer até não deixar nada mexer-se; com Plutão em excesso, a intensidade pode querer deitar abaixo o que ainda serve. Em vez de afirmar que alguém é duro ou controlador, podemos investigar qual das duas peças está a pedir mais espaço no seu desenho.
Este aspeto amadurece em ciclos de trinta e cinco anos, e não em anos de vida. Quando o par está em destaque num mapa, as reconstruções da própria vida costumam acontecer nos anos em que o ciclo se refaz no céu. A maturidade aqui pode ser lida como não confundir a dureza aprendida com quem se é. Nenhum texto honesto dá uma idade exata para isso: o arco depende do mapa inteiro.
Saturno fica cerca de dois anos e meio em cada signo e Plutão, de onze a trinta e um, e o ciclo entre os dois é de cerca de trinta e cinco anos. Nenhum dos dois é pessoal, e por isso o aspeto entre eles é o mesmo para toda a gente nascida numa faixa de anos. Ele fala da sua geração: se ela entrou no mundo numa fase de reconstrução tranquila, de estrutura firme ou de crise dura, e milhões de pessoas entraram juntamente consigo.
Para ler este aspeto no seu mapa, o caminho passa pelo que é só seu: em que casas os dois estão, e que aspetos eles fazem com o seu Sol, a sua Lua, o seu Mercúrio, a sua Vénus e o seu Marte. É por aí que um aspeto de geração vira biografia, e é a única parte desta página que depende da sua hora e da sua cidade. Uma conjunção de Saturno e Plutão na casa 8 pode ser lida como uma relação séria com a perda e com o recurso alheio; a mesma conjunção na casa 1, como uma presença que carrega peso desde cedo. Antes desta leitura vale a pena passar por Saturno nos 12 signos e Plutão nos 12 signos, que descrevem cada peça sozinha.
Essas questões não significam que toda a gente nascida numa quadratura de Saturno e Plutão viva tais conflitos. Um aspeto, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém, e nada disso é previsão. A astrologia oferece tendência e vocabulário para pensar o que já vive; ela não substitui o seu trabalho, as suas decisões nem um acompanhamento de saúde quando ele é necessário.
Se quiser olhar para o peso que carrega com outros olhos, o Mapa kármico lê Saturno e Plutão junto com os nodos lunares, onde a astrologia costuma localizar o que veio antes de si e pede revisão. O Mapa do retorno de Saturno acompanha os anos em que Saturno volta ao ponto onde estava quando nasceu, que costumam ser anos de decidir que estruturas continuam de pé.
A pergunta que fica é: que força aprendeu num tempo difícil, e de qual delas já pode descansar?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Saturno e Plutão:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Só com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e o grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a menos de 6 graus da distância exata para o aspeto existir. É diferente do signo, que a data entrega, e é por isso que esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Essa é uma leitura que este blogue evita em todas as páginas. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso nunca foi testado: o músculo pode ficar sem treino, e isso nota-se no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. As biografias que valem a pena ler costumam ser cheias de quadraturas.
Nasci numa quadratura de Saturno e Plutão. Isso é ruim? Azar é a palavra errada, e é honesto dizer que essas fases coincidem com décadas duras na história. O que costumam produzir em quem nasce nelas é seriedade precoce e uma capacidade de aguentar que gerações nascidas em fases fáceis talvez não tenham.
Então o que é meu neste par? A casa em que os dois caíram, e os aspetos que eles fazem com o seu Sol, a sua Lua, o seu Mercúrio, a sua Vénus e o seu Marte. Milhões de pessoas têm o mesmo aspeto; ninguém tem a mesma casa e a mesma rede de contactos pessoais.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta, sempre. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e é difícil ler a relação sem conhecer as duas. Se chegou aqui diretamente, vale a pena voltar às séries de cada peça no signo e na casa e só depois ler esta: a leitura fica outra.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e é mais fraco quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É por isso que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece aqui antes de aparecer em qualquer outro lugar.
Em resumo, o aspeto entre Saturno e Plutão pode ser lido como a fase de prova em que a sua geração nasceu, com a dureza de um lado e a capacidade de reconstruir do outro. O que é seu está na casa em que os dois caíram e nos contactos que eles fazem com as suas peças pessoais.
Palavras-chave geração, dureza, crise, reconstrução
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
