
O aspeto entre Marte e Neptuno pode ser lido como a pergunta sobre onde a sua energia vai quando some. Na astrologia, Marte está associado à ação e à direção; Neptuno, ao que dissolve contornos. Quando os dois formam um aspeto, a energia tende a não andar em linha reta: aparece inteira para uma coisa e some para outra, sem aviso e sem explicação convincente. A pergunta que este par traz é a do sentido: para que vale a pena mexer-se?
Um aspeto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e descreve como se dão uma com a outra. Ptolomeu, no Tetrabiblos, explicou os aspetos como frações do círculo, e a tradição guardou cinco distâncias como aspetos maiores: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Neptuno entrou nessa conversa em 1846, encontrado primeiro no papel, pelos cálculos de Le Verrier, e depois no telescópio de Galle, em Berlim. Recebeu o nome do deus do mar, o Poseidon dos gregos. Uma lenda antiga põe os dois deuses frente a frente: o Areópago de Atenas, o morro de Ares, teria recebido esse nome depois do julgamento em que Poseidon acusou Ares pela morte de um filho. A força que corta diante do mar que tudo envolve: é uma boa imagem para este par.
O glifo ♂ é um círculo com uma flecha que aponta para fora, o escudo e a lança; o ♆ é o tridente do deus do mar, uma arma que mais remexe as águas do que fere. Marte rege Carneiro e, na tradição, também Escorpião, um signo de água; a astrologia moderna deu a Neptuno a regência de Peixes, outro signo de água, em trígono com Escorpião. Quando a lança entra no mar, perde a linha reta, e é isso que este aspeto costuma mostrar: uma força que precisa de sentido para saber para onde ir.
Há um número que decide se o aspeto existe: o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam nada. Este blog usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso são duas peças no mesmo mapa, que é outra coisa. Neptuno fica catorze anos em cada signo, pelo que é a posição de Marte, que muda a cada dois meses, que decide se há aspeto. Isto pede o mapa calculado, e pede também uma ordem: o aspeto vem por último, depois de conhecer cada peça no signo e na casa. O texto o que é um aspeto explica essa conta.
Uma maneira de investigar este par é pensar num cansaço estranho, que não vem de esforço. Alguém pode terminar o dia exausto sem ter feito quase nada visível, e só depois perceber que a energia foi gasta em algo que nem sabia estar a carregar, quase sempre outra vida que não a sua. Este é talvez o aspeto mais mal julgado da série: costuma ser chamado de falta de foco, e uma leitura possível é que a força aqui só aparece de verdade para o que faz sentido, e recusa-se a fingir o contrário. Simone Weil, em A Gravidade e a Graça, escreveu: "A atenção absolutamente pura é oração." Pensada a partir de Marte e Neptuno, a frase sugere que a ação pode ser uma forma de devoção quando está inteira no que faz. E Chuang Tzu deixou uma imagem que ajuda a pensar os apoios de que este par precisa: "O propósito da armadilha é o peixe; apanhado o peixe, esquece-se a armadilha." O método serve ao sentido, e pode ser usado sem culpa.
Na conjunção, a ação funde-se com o que não tem borda. Podemos ler essa posição como agir por inspiração. Trabalhar muito quando se acredita, ter uma capacidade grande de agir por causas alheias, sentir-se à vontade na arte, no cuidado ou em qualquer ofício em que a técnica serve algo maior. O ponto de atenção é a direção que se perde: adiar, dispersar-se, começar pelo meio e cansar sem motivo. O que costuma ajudar vem de fora, e vale aceitar sem vergonha: alguém que cobre, um prazo combinado, um horário fixo, apoios que a peça não fornece sozinha.
No sextil e no trígono, a inspiração costuma vir com direção. Há facilidade para unir técnica e sensibilidade, para trabalhar bem em causas e em criação, e para se mover sem precisar de raiva. A combinação de força com delicadeza que este aspeto dá aqui é incomum. O custo é discreto: a própria névoa talvez nunca tenha sido enfrentada. Se sempre foi possível transformar inspiração em obra, pode ser difícil entender quem perde a direção a meio do caminho.
Na quadratura e na oposição, a força e a névoa discutem. Pode acontecer cansar-se antes de terminar, irritar-se sem saber com quem, gastar energia a resolver a vida de outros enquanto a própria espera, e acusar-se de preguiça quando o que falta é direção. É dessa discussão que costuma sair alguém que leva ao fim o que começou sem trair aquilo em que acredita. O que ajuda é dar destino escrito à energia: uma tarefa por dia, com hora e fim visível. É o jeito mais simples de a força saber para onde ir antes de a névoa escolher por ela.
Na semana comum, este par pode mostrar-se no dia em que a energia some sem esforço que explique. Os sinais valem para qualquer aspeto entre os dois: ter força total para o que se acredita e nenhuma para o resto, cansar sem ter feito esforço, gastar energia a resolver a vida dos outros, irritar-se sem saber com quem, começar pelo meio e dispersar-se, acusar-se de preguiça quando falta direção. Repare no que a lista deixa de fora. Não chama ninguém de preguiçoso nem de sem foco, rótulos que este par carrega e que descrevem o extremo. Observa uma energia que precisa de sentido e de destino escrito, e que rende pouco sob mais cobrança.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se só agimos pelo que faz sentido, o que fazemos com as tarefas que não fazem? Se nos entregamos às causas dos outros, sabemos quando estamos a abandonar as nossas? E quando a energia some, perguntamos para onde foi?
Essas questões não significam que todo o mapa com Marte e Neptuno em aspeto viva tais conflitos. Um aspeto, sozinho, não permite afirmar isso sobre ninguém. No Método Shelly, cada arquétipo é lido por quatro faces, a luz, a sombra, o excesso e a deficiência, e num aspeto elas distribuem-se entre as duas peças: quase sempre uma está em excesso e a outra em deficiência, e o trabalho começa pelo lado mais fraco.
Mapa vocacional · R$ 147,00
A sua vocação no mapa astral: a profissão e o ambiente de trabalho em que se destaca e cresce.
Vale a pena considerar uma inversão que serve para todos os pares: o que corre sem atrito nunca foi testado, e o que incomoda costuma produzir. O trígono entre Marte e Neptuno entrega o resultado com pouco esforço, e o músculo pode ficar sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: alguém que precisou de construir direção à mão, e que por isso termina o que começa sem deixar de acreditar no que faz. Neste par a inversão é a que mais costuma mudar a vida profissional, porque a distância entre talento e obra é justamente a direção.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando se para de lutar com a própria energia e se montam apoios. Muitas vezes isso acontece ao aceitar um método externo, prazo, sócio, agenda, e descobrir que a inspiração continuou do mesmo tamanho. Aceitar estrutura de fora, aqui, deixa de parecer derrota. Nenhuma idade exata dá conta disso, porque o arco depende do mapa inteiro.
Para ler este aspeto no seu mapa, vale a pena olhar os signos e as casas das duas peças. Um Marte em Peixes com Neptuno em conjunção pode agir só por inspiração; um Marte em Virgem com a mesma conjunção pode ser metódico e duvidar do próprio método. A leitura de Marte nos 12 signos e a de Neptuno nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e é bom começar por elas. Neptuno fica catorze anos em cada signo, pelo que o signo dele é de meia geração; o aspeto com o seu Marte é que é seu, e ele muda a cada dois meses.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Descreve tendências, não faz previsão e não ocupa o lugar do seu trabalho, das suas decisões ou de um acompanhamento de saúde quando o cansaço insiste.
Se quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Propósito de vida procura o sentido de que essa energia precisa para aparecer. Mapa vocacional olha para os ofícios em que técnica e inspiração se encontram, e Espiritualidade e magia acompanha o lado devocional que este par costuma carregar.
A pergunta que fica é: por que razão a sua força aparece inteira, e o que isso diz sobre o que importa?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Marte e Neptuno:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a até 6 graus da distância exata para o aspeto existir. É diferente do signo, que a data entrega, e é por isso que esta série pede o mapa antes de qualquer leitura.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso costuma não ser testado, e o músculo pode ficar sem treino até ao dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma produzir. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Marte com Neptuno é falta de foco? Uma leitura mais exata é a de uma energia que depende de sentido: força total para o que se acredita, pouca para o resto, e dificuldade em fingir o contrário. Chamar a isso preguiça explica mal e ajuda pouco; o que costuma ajudar é dar destino escrito à energia.
Por que eu canso sem ter feito nada? Talvez porque parte da energia foi gasta em algo que nem sabia estar a carregar, quase sempre alguém. É trabalho invisível, e é trabalho de verdade. Uma tarefa por dia, com hora e fim visível, devolve à sua força um destino antes de a névoa escolher por si.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e ela fica mais clara quando conhecemos as duas. Se chegou aqui direto, vale a pena passar pelas séries de cada planeta no signo e na casa, e voltar depois: a leitura fica outra.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e com menos força quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença é uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece primeiro.
Em resumo, o aspeto entre Marte e Neptuno pode ser lido como uma energia que depende de sentido, forte para o que importa e difusa para o resto, e o convite a dar destino escrito à força sem trair o que se acredita. Os signos e as casas das duas peças mostram para onde essa energia tende a ir.
Palavras-chave ação, energia, direção, entrega
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
