
O aspeto entre Lua e Plutão pode ser lido como a profundidade que o seu vínculo pede para se sentir em segurança. Na astrologia, a Lua está associada àquilo de que precisa para se sentir em casa. Plutão, por sua vez, é tradicionalmente relacionado com o que desmonta e refaz, com o que está por baixo da superfície e com o poder. Quando interpretamos um aspeto entre os dois, aproximamos esses campos e chegamos a uma figura que costuma assustar na leitura e aliviar depois de explicada: alguém para quem o vínculo superficial não alimenta, e que lê o que está por baixo antes de qualquer escolha consciente.
Um aspeto é a distância entre duas peças do mapa, medida em graus, e é ela que ajuda a ler se essas peças trabalham em conjunto, se se ignoram ou se se estranham. A tradição chama aspetos maiores a cinco distâncias: a conjunção (0°), o sextil (60°), a quadratura (90°), o trígono (120°) e a oposição (180°). Cada uma põe as duas peças em contacto de um modo próprio, e nenhuma delas pode ser lida como boa ou má em si: cada uma cobra alguma coisa e entrega outra.
Há também um número que muda a leitura: o orbe. Duas peças a 90° exatos formam uma quadratura; a 97°, não formam aspeto nenhum. Este blogue usa 6 graus de orbe para os aspetos maiores, e fora disso temos duas peças no mesmo mapa, sem relação de aspeto entre elas. Por isso um aspeto não se descobre pela data: precisa do mapa calculado. E vale uma ordem de leitura: o aspeto costuma vir por último, porque descreve uma relação, e é difícil ler uma relação sem conhecer as duas partes.
Neste par, Plutão é o mais lento de todos: fica de onze a trinta e um anos em cada signo, e o signo dele é da sua geração. É a Lua que decide se há aspeto, e muda de posição em horas; o aspeto com a sua Lua é que é seu, e depende da sua hora.
As histórias dos dois símbolos são muito diferentes. Na tradição que chega até nós pelo Tetrabiblos de Ptolomeu, a Lua é o luminar da noite, ligado ao corpo e a tudo o que cresce e diminui. Plutão foi encontrado em 1930 por Clyde Tombaugh e recebeu o nome do deus romano do mundo subterrâneo, o Hades dos gregos, senhor do que fica debaixo da terra. A astronomia reclassificou-o como planeta anão em 2006, e a astrologia continua a lê-lo pelo que passou a simbolizar: o que está escondido e o que se transforma. A ideia de aspeto, por sua vez, é antiga: no Tetrabiblos, Ptolomeu já descrevia as figuras que dois astros formam quando a distância entre eles divide o círculo do zodíaco em partes iguais, e é daí que vêm o sextil, a quadratura, o trígono e a oposição.
O desenho dos glifos ajuda a pensar o encontro. O ☽ é o crescente, a forma que muda ao longo do mês. O ♇ costuma ser desenhado como um círculo sobre um crescente, apoiado numa cruz: como se a Lua inteira estivesse contida dentro do símbolo de Plutão. A Lua rege Caranguejo, e Plutão é associado, na astrologia moderna, a Escorpião: os dois são signos de água, o elemento da emoção e da memória. Caranguejo protege; Escorpião investiga. A geometria do aspeto vem por cima: a conjunção junta, o sextil e o trígono abrem passagem, a quadratura e a oposição pedem negociação.
A pergunta humana que mora neste par talvez seja: como amar fundo sem querer possuir? Carl Gustav Jung, em Psicologia do Inconsciente, escreveu: "Onde o amor impera, não há vontade de poder; e onde o poder tem a primazia, falta o amor. Um é a sombra do outro." Pensada a partir da Lua e de Plutão, a frase descreve bem a balança deste aspeto: a mesma intensidade pode servir ao vínculo ou ao controlo, e muitas vezes alterna entre os dois na mesma vida.
Uma maneira de investigar este aspeto é observar a própria semana. Alguém pode não conseguir manter um vínculo morno; perceber cedo o que o outro esconde; ter uma memória emocional longa, capaz de guardar o tom de uma frase dita há dez anos; sentir ciúme e ter vergonha dele; já ter cortado uma relação de uma vez, sem volta; reagir com força a ser deixado de fora de alguma coisa. Uma amizade morna, aqui, pode inquietar, porque esta peça mede o vínculo em profundidade. Estes sinais valem para os cinco aspetos do par; o que muda é o atrito.
Espinosa, na Ética, escreveu: "O medo não pode existir sem esperança, nem a esperança sem medo." Para este par, a frase tem um eco curioso. Podemos pensar que o ciúme e o controlo são a forma que o medo de perder toma quando a esperança no vínculo é muito grande, e que olhar o medo de frente muda a forma dele.
Existe, porém, uma tensão nesta relação. Se precisamos de profundidade para confiar, conseguimos tolerar o que no outro é leve? Se percebemos o que está escondido, sabemos esperar que o outro conte? E se o medo de perder chega grande, conseguimos dizê-lo em voz alta antes de agir por ele?
A conjunção põe a profundidade dentro da necessidade. Uma leitura possível é a de alguém que precisa fundo, percebe cedo o que o outro esconde e guarda a memória emocional durante muito tempo. É comum que a história inclua, na infância, um segredo, uma perda ou um poder mal distribuído dentro de casa. O custo pode aparecer como ciúme, que aqui costuma nascer do medo de perder o chão por dentro. Um primeiro passo é reconhecer que a coisa temida quase nunca é a que está a acontecer.
O sextil e o trígono dão profundidade sem tormento. Aqui, chegar ao fundo e voltar parece possível: pode ser a amiga que aguenta ouvir o pior, que não se assusta com a crise alheia e que muda de vida sem se despedaçar. A intensidade está ao serviço do vínculo. O custo é talvez nunca ter examinado esta força, e descobrir o que ela faz quando escapa só num momento de perda, numa reação difícil de reconhecer como sua.
A quadratura e a oposição põem a segurança contra o poder. Pode aparecer como agarrar-se, testar, investigar, e depois sentir vergonha disso; ou como o movimento inverso, fechar-se por inteiro para não depender de ninguém, que chega ao mesmo lugar por outro caminho. Um caminho desconfortável e eficaz é dizer o medo em voz alta em vez de agir por ele, porque o que este aspeto faz de mais difícil costuma morar no que não foi dito.
Estas questões não significam que todo o mapa com Lua e Plutão em aspeto viva tais conflitos. Um aspeto, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. São caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos da Lua e de Plutão. Em vez de falar de possessividade ou de sofrimento, dois rótulos que este par costuma carregar e que descrevem o extremo, podemos investigar a relação entre profundidade, medo e palavra.
Estas faces aparecem de modos diferentes em cada mapa, mesmo entre duas pessoas com o mesmo aspeto. O que muda é em que signos e em que casas as duas peças caíram, e como conversam com o resto do desenho.
Ver isso no meu mapa, de graçaHá uma inversão que vale para todos os pares: o que corre sem atrito pode nunca ter sido testado, e o que incomoda costuma ser o que produz. O trígono entre Lua e Plutão entrega o resultado sem esforço, e por isso pode acontecer que o músculo nunca tenha sido desenvolvido, o que se descobre no dia em que a facilidade não basta. A quadratura entrega o contrário: alguém que teve de olhar o próprio ciúme de frente, e que por isso ama com uma consciência que o trígono não exige. Neste par a inversão costuma ser a mais dolorosa da série, porque a aprendizagem muitas vezes custa uma relação, e é honesto dizê-lo. No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. Num aspeto, costumam distribuir-se entre as duas peças: muitas vezes uma está em excesso e a outra em deficiência, e o cuidado começa pelo lado mais fraco.
Com o tempo, este aspeto tende a amadurecer quando se percebe que profundidade e posse são coisas diferentes. Muitas vezes isso acontece depois de uma perda que o controlo não conseguiu evitar, e é aí que a força muda de endereço, do outro para dentro. O amadurecimento aqui passa menos por amar menos e mais por usar para se examinar a mesma profundidade que antes servia para examinar o outro. Cada mapa tem o seu tempo para isso, e nenhuma idade exata dá conta do arco inteiro.
Para ler este aspeto no seu mapa, vale a pena olhar em que signos e em que casas as duas peças caíram. Uma Lua em Escorpião com Plutão em conjunção pode ser lida como alguém cuja intensidade se vê de longe; uma Lua em Balança com a mesma conjunção, como alguém cuja intensidade se esconde atrás de boas maneiras. As séries A Lua nos 12 signos e Plutão nos 12 signos descrevem cada peça sozinha, e são a leitura que vem antes desta.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Nada disto é previsão: descreve tendências, dá nome ao que já se vive e não decide nada no seu lugar.
Se quiser fazer esta investigação no seu próprio desenho, Mapa das sombras olha para essa intensidade como fonte de força. A Sinastria amorosa: compatibilidade do casal põe o seu mapa ao lado do de quem ama, e o Mapa kármico investiga os padrões de vínculo que parecem vir de longe.
A pergunta que fica é: que medo ainda não disse a quem ama?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o aspeto entre Lua e Plutão:
Como eu descubro se tenho esse aspeto no mapa? Com o mapa calculado. Um aspeto é uma distância em graus, e o grau não se estima pela data: as duas peças precisam de estar a menos de 6 graus da distância exata para o aspeto existir. O signo, a data costuma entregá-lo; o aspeto pede o mapa, e é por isso que esta série começa por ele.
Aspeto tenso é ruim e aspeto fácil é bom? Este blogue prefere outra leitura. O aspeto fácil corre sem atrito e por isso pode nunca ter sido testado: a habilidade vem pronta, e a falta de treino nota-se no dia em que a facilidade não basta. O tenso incomoda, e o incómodo costuma pôr alguém a trabalhar. Muitas biografias que valem a pena ler são cheias de quadraturas.
Lua com Plutão quer dizer possessividade? Uma leitura possível é que o medo de perder chega em tamanho grande, e o medo sem palavra tende a tornar-se controlo. O que costuma mudar o padrão é dizer o medo em voz alta em vez de agir por ele, porque a parte mais difícil deste aspeto mora no que não foi dito.
Por que uma relação morna me incomoda tanto? Porque a parte plutoniana mede o vínculo em profundidade, e não em quantidade. Isto pode ser lido como um critério que funciona antes da escolha, longe de teatro ou de carência.
O que vem antes: o aspeto ou o planeta no signo? O planeta. Um aspeto descreve a relação entre duas peças, e é difícil ler a relação sem conhecer as duas. Se chegou aqui diretamente, vale a pena passar pelas séries de cada peça no signo e na casa e voltar depois; a leitura muda.
Aspeto que não é exato ainda conta? Conta, e pesa menos quanto mais longe do grau exato. Um aspeto com 1 grau de diferença costuma ser uma peça central do mapa; com 5 graus e meio, é um traço a mais. É também aqui que a diferença entre um mapa calculado e um mapa estimado aparece antes de qualquer outro lugar.
Em resumo, o aspeto entre Lua e Plutão pode ser lido como a profundidade que o vínculo pede: a conjunção põe essa profundidade dentro da necessidade, o sextil e o trígono permitem chegar ao fundo e voltar, e a quadratura e a oposição convidam a dizer o medo antes de agir por ele. Os signos e as casas das duas peças mostram como esta intensidade aparece no seu mapa.
Palavras-chave emoção, vínculo, profundidade, controle
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
