
Ter o regente do Ascendente na casa 5 pode ser lido como uma vida que acontece no que sai de você: a obra, os filhos, o jogo, o namoro e o prazer, quase sempre com o seu nome junto. Na astrologia, o Ascendente é o signo que estava subindo no horizonte no instante em que você nasceu, e todo signo tem um planeta que o rege. Esse planeta passa a ser o regente do seu mapa, e a casa em que ele caiu mostra onde a sua vida costuma se passar. A casa 5, por sua vez, é tradicionalmente relacionada à criação em sentido largo. Quando interpretamos o regente do Ascendente na casa 5, aproximamos esses dois campos simbólicos: o planeta que conduz o mapa e o gesto de pôr coisa nova no mundo.
Essa leitura tem uma longa história. Na astrologia helenística, escrita em grego nos primeiros séculos da nossa era, o planeta que regia o signo do horizonte era tratado como o senhor do mapa, a peça que dizia para onde a vida inteira se inclinava. A casa 5 recebeu nessa tradição o nome de Boa Fortuna, e era o lugar em que Vênus se alegrava: ali moravam os filhos, os presentes e os prazeres. A ilustração desta página é um mapa quadrado numa xilogravura de 1538, o formato em que os astrólogos desenharam o céu por séculos, e nele a casa 5 fica logo acima do fundo do mapa, como o que brota da raiz.
A técnica tem três passos: qual é o seu Ascendente; qual planeta rege esse signo (Marte para Áries, Vênus para Touro e Libra, Mercúrio para Gêmeos e Virgem, a Lua para Câncer, o Sol para Leão, Júpiter para Sagitário, Saturno para Capricórnio, e os regentes duplos de Escorpião, Marte e Plutão, de Aquário, Saturno e Urano, e de Peixes, Júpiter e Netuno); e, por fim, em que casa esse planeta está. Essa casa é o assunto desta página.
Há um cuidado que distingue esta série das outras do blog: o regente do Ascendente depende da hora de nascimento duas vezes. Primeiro porque o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da cidade; depois porque a casa em que o regente cai é contada a partir dele. Meia hora de erro pode trocar o planeta e a casa, e entregar a você a descrição da vida de outra pessoa.
O símbolo diz bastante por si. A casa 5 é sucedente, uma das casas que vêm logo depois dos ângulos e que, na tradição, dão corpo ao que os ângulos começam. A regência natural dela é Leão, signo de fogo e fixo regido pelo Sol, e o par dela é a casa 11, que fica exatamente em frente: o que é seu e assinado de um lado, o que é de muitos do outro. Com o regente do mapa ali, um período sem nada criado pode ser vivido como uma vida em suspenso, mais do que como descanso. O planeta muda muito o desenho: um Ascendente em Leão põe o Sol nesta casa e dobra o assunto, sugerindo alguém que existe criando e sendo visto criar; um Ascendente em Virgem põe Mercúrio e sugere quem cria com apuro e mostra só o que já está bom. A casa dá o endereço; o planeta diz o que mora nele.
Uma maneira de investigar essa combinação é pensar na relação entre criar e descobrir quem somos ao criar. Alguém pode notar que as portas se abriram por causa de algo que fez com as próprias mãos, e que um trabalho anônimo por muito tempo o esvazia. Namoro e paixão podem mexer no rumo da vida, além do humor; filhos, alunos ou pupilos podem ocupar um lugar central na história. Pode levar a sério o que é leve, e é justamente isso que o torna bom no que faz. E quando as coisas vão mal, o primeiro abandono costuma ser o do próprio projeto. Uma leitura possível é que, nesta posição, a vida se decide naquilo que se põe no mundo.
Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra, escreveu: "É preciso ter ainda caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante." A frase combina com esta casa, porque a criação costuma nascer de alguma desordem que se aceita habitar. Erich Fromm, em Análise do Homem, escreveu: "A tarefa principal do homem na vida é dar à luz a si mesmo." Pensada a partir do regente na casa 5, ela sugere que a obra, o filho e o jogo também são maneiras de se fazer, e que aquilo que criamos acaba criando um pouco de nós.
A força desta posição costuma aparecer como a capacidade de criar do nada. Perto de quem vive esta casa, aparece coisa que não existia: a vontade vira objeto, cena, time, criança bem criada, e essa passagem do querer ao existir pode mover a vida dos outros junto. Ela pode render uma capacidade de recomeçar que vem do prazer e por isso não seca; um talento natural para lidar com quem está aprendendo; e uma coragem específica, a de assinar, que falta a muita gente competente. Quando essa força encontra arte, criação de qualquer tipo, educação, esporte, entretenimento, empreendimento próprio ou qualquer ofício em que o resultado leve uma assinatura, ela tende a render bastante. Em trabalho anônimo por anos, em ambientes sem espaço de invenção e em lugares onde ter graça é tratado como falta de seriedade, ela tende a murchar.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se nos fazemos ao criar, conseguimos criar sem esperar o aplauso para nos sentir de pé? Sabemos ficar no meio de um projeto, onde a obra fica pronta, depois que o encanto do começo passou? E quando ajudamos todo mundo a lançar o que é deles, onde fica o que é nosso?
No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. No excesso, a vida pode virar espetáculo em tempo integral: cada estado pede encenação, cada relação vira produção, e um apetite pelo começo, o namoro novo, o projeto novo, não chega até o meio. Na deficiência, o movimento vai para a casa 11, em frente: alguém pode ter aprendido que se destacar custa caro e entregado tudo ao coletivo, contribuindo com todos os projetos sem assinar nenhum. De fora isso parece generosidade e leveza. Por dentro, pode haver uma obra que nunca sai e a sensação de estar na vida errada, com um trabalho competente e correto e uma falta difícil de nomear, a de alguma coisa que leve o próprio nome. As duas faces nascem da mesma matéria-prima, uma criação que pede para acontecer e ser assinada, e o caminho costuma passar por fazer a coisa e pôr o nome.
Essas questões não significam que todo regente na casa 5 viva tais conflitos. Uma posição astrológica, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. Elas são caminhos de investigação que nascem do encontro entre o senhor do mapa e a casa da criação. Em vez de afirmar que alguém é infantil ou exibido, podemos investigar a relação entre expressão, prazer e autoria.
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Como é você como mãe ou pai segundo o seu mapa: o vínculo com os filhos, o seu jeito de cuidar e o que a parentalidade desperta em você.
Com o tempo, essa criação costuma deixar de depender do olhar alheio, e isso acontece quando se descobre que criar já põe você de pé antes de qualquer reação, e se passa a criar primeiro e escolher depois para quem mostrar. Há um ritmo astrológico que ajuda a compreender esse amadurecimento, e ele é o do planeta regente: o retorno do seu regente mede o tamanho dos capítulos da sua vida. Se o regente é a Lua, eles vêm em ondas de vinte e oito dias; se é Vênus, Mercúrio ou o Sol, em ciclos de cerca de um ano; Marte, de dois anos; Júpiter, de doze; e Saturno, de vinte e nove. É por isso que duas pessoas com a mesma vida de criação mudam de obra em velocidades que não se comparam. Cada mapa e cada história têm o seu tempo, e nenhuma idade vale para todos.
Para ler o regente na casa 5 no seu mapa, vale lembrar que ele diz onde a sua vida acontece; como você é e do que você precisa vêm de outras peças. Qual planeta é o seu regente muda a matéria: o Sol na casa 5 costuma ser descrito como a combinação mais forte da série, uma vida inteira que é a própria obra; Vênus aponta para arte e beleza; Marte, para o esporte e o corpo em movimento. Você descobre o seu pelo Ascendente na série O Ascendente nos 12 signos. O signo em que esse regente caiu muda o tom outra vez: em Leão, ele tende a querer ser visto inteiro; em Capricórnio, cria devagar e só mostra o que aguenta durar. E há o Sol e a Lua, que falam de onde você cresce e para onde corre quando o dia dá errado. Regente na casa 5 com o Sol na casa 6, por exemplo, pode descrever uma vida que se decide no que cria e um crescimento que acontece na rotina, e esse par funciona bem quando a rotina protege a criação, e mal quando a substitui. As séries O Sol nas 12 casas e A Lua nas 12 casas ajudam a fazer essa leitura.
Há uma ressalva técnica que vale conhecer: existe mais de um sistema de casas. Placidus, o mais usado no Brasil, e Whole Sign, o mais antigo, podem colocar o regente do seu mapa em casas diferentes, e aqui isso pesa dobrado, porque uma mudança de Ascendente troca também o planeta. Se a sua hora de nascimento é aproximada, vale ler a casa vizinha e ver qual das duas descreve a sua vida. O mapa é um sistema, e cada peça muda as outras.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Ela não faz diagnóstico, não decide maternidade nem paternidade, não decide por você e não ocupa o lugar de um acompanhamento de saúde quando ele é necessário.
Se você quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, a leitura Propósito de vida ajuda a pensar a obra que pede o seu nome, e o Mapa helenístico lê o senhor do mapa com as técnicas da tradição em que ele nasceu. Se a casa 5 fala para você de filhos, o Mapa de filhos olha para essa parte da criação com cuidado próprio.
A pergunta que fica é: qual foi a última coisa que você fez e assinou, e o que está esperando para ganhar o seu nome?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o regente do Ascendente na casa 5:
Como eu descubro qual é o regente do meu Ascendente? Pelo signo do seu Ascendente: Áries tem Marte, Touro e Libra têm Vênus, Gêmeos e Virgem têm Mercúrio, Câncer tem a Lua, Leão tem o Sol, Sagitário tem Júpiter, Capricórnio tem Saturno, e Escorpião, Aquário e Peixes têm dois cada um. Depois é ver em que casa esse planeta está, e para as duas coisas você precisa da hora e da cidade de nascimento.
E se o meu Ascendente tem dois regentes? Escorpião, Aquário e Peixes têm um regente antigo e um moderno, e os dois valem: Marte e Plutão, Saturno e Urano, Júpiter e Netuno. Na prática, vale ler as duas casas. Quando os dois planetas caem em casas diferentes, você pode viver duas vidas paralelas, e reconhecer isso costuma explicar uma contradição antiga.
Regente na casa 5 quer dizer que eu vou ter filhos? Não decide isso. A casa 5 fala do que sai de você e leva o seu nome, e filho é uma das formas disso, entre outras. Muita gente com esta posição não tem filhos e tem obra, aluno, time ou empresa, e a vida se organiza do mesmo modo. Mapa nenhum decide maternidade.
Por que eu me sinto vazia quando não estou criando? Talvez porque criar, na sua vida, ocupa o lugar de onde ela acontece, muito além de um passatempo. Sem essa via, pode sobrar uma irritação que parece cansaço e não passa com descanso. Costuma ajudar proteger na semana um tempo de fazer coisa sua, mesmo pequeno, e tratá-lo como compromisso, sem esperar terminar o resto para merecê-lo.
Qual é a diferença entre o Ascendente e o regente dele? O Ascendente é a porta: como você chega e como é lida antes de falar. O regente é o endereço: onde a vida que entra por aquela porta acontece. Duas pessoas com o mesmo Ascendente e o regente em casas diferentes podem causar a mesma primeira impressão e viver vidas que não se parecem.
Em resumo, o regente do Ascendente na casa 5 pode ser lido como uma vida que acontece no que sai de você: a criação como terreno, a coragem de assinar como força e o convite a criar antes do aplauso. O planeta regente, o signo dele e a hora exata de nascimento mostram como isso se desenha no seu mapa.
Palavras-chave criação, expressão, prazer, vaidade
Isto aqui não dá para descobrir pela data nem pelo signo: as doze casas são contadas a partir do Ascendente, e o Ascendente muda a cada duas horas, aproximadamente, e depende da CIDADE onde você nasceu. Sem hora e local não existe casa nenhuma, nem aproximada. Dá para calcular de graça aqui.
