
Ter o Sol em Balança pode ser lido como a construção de si pela relação: a identidade que se descobre no que acontece entre si e o outro. Na astrologia, o Sol está associado à identidade, à vitalidade e à maneira como desenvolve e expressa aquilo que reconhece como seu. Balança, por sua vez, é tradicionalmente relacionada ao encontro, à medida, à justiça e à beleza. Quando interpretamos o Sol em Balança, aproximamos esses dois campos simbólicos: a construção da identidade e a presença do outro como espelho.
Essa leitura do Sol tem uma longa história. Na tradição que chega até nós pelo Tetrabiblos de Ptolomeu, ele é o significador da vitalidade, a luz que torna visíveis as outras peças do mapa. É também a peça mais fácil de conhecer, porque a data de nascimento costuma bastar, e foi essa facilidade que fez "signo" tornar-se sinónimo de "signo solar". A balança tem uma história curiosa: para os gregos, as estrelas desse trecho do céu eram as garras do Escorpião, e foram os romanos que fixaram nelas a imagem da balança, o único objeto entre as figuras do zodíaco, que de resto são pessoas e animais. Vale a pena lembrar que o Sol é uma peça de um sistema com dez corpos, doze casas e as relações entre eles. Oferece o tema; a Lua fala do que precisa, o Ascendente de como chega, e as casas das áreas da vida em que tudo isso acontece.
O próprio símbolo de Balança diz bastante. É o sétimo signo do zodíaco, de ar e cardinal, e abre a segunda metade do zodíaco: os seis primeiros signos podem ser lidos como a construção de alguém, e a partir de Balança tudo passa a ser lido a dois. É o signo oposto ao Carneiro, e a oposição aparece nas perguntas: onde o Carneiro pergunta "o que eu quero?", Balança pergunta "e o outro?". De ar, o elemento associado à linguagem e à relação. Cardinal, a qualidade dos signos que abrem estação: Balança começa no equinócio de setembro, o dia em que luz e sombra duram o mesmo, e o equilíbrio que se atribui a este signo vem dessa definição astronómica. O glifo ♎ costuma ser lido como os pratos da balança, ou como o Sol a pôr-se sobre a linha do horizonte. E há a regente, Vénus, o planeta associado ao que consideramos bonito, justo e desejável. O signo e a casa da sua Vénus ajudam a entender o que procura no encontro.
Uma maneira de investigar essa combinação é pensar na relação entre o outro e descobrir quem somos diante dele. Há coisas sobre nós que só aparecem na conversa, no desacordo, na parceria. Alguém pode reescrever uma mensagem três vezes para ela não soar ríspida, perceber o clima mau de uma sala antes de qualquer palavra, ou sentir a injustiça feita a alguém próximo com mais força do que a feita a si. Visto de fora, isso costuma ser chamado de indecisão ou de vontade de agradar. Uma leitura possível é que esse Sol enxerga os dois lados com o mesmo peso, e que essa é a sua competência.
Carl Gustav Jung, em O Homem Moderno em Busca de uma Alma, escreveu: "O encontro de duas personalidades é como o contacto de duas substâncias químicas: se há alguma reação, ambas se transformam." Pensada a partir do Sol em Balança, a identidade pode ser vista como algo que se forma nesse contacto, e menos como algo que se possa conhecer sozinho. Pascal, nos Pensamentos, deixou outra frase que conversa com este signo: "O coração tem as suas razões, que a razão não conhece." Pesar os dois lados é trabalho da razão, e muitas vezes quem desempata é o coração.
A mediação entra aqui de um modo interessante. Enxergar a razão dos dois lados e construir uma saída que nenhum deles via sozinho é uma competência que quase ninguém agradece, porque quem a exerce bem faz o conflito desaparecer antes que ele aconteça. Podemos pensar o Sol em Balança como essa aprendizagem de negociar sem humilhar, de sentir quando alguma coisa está fora de medida e de criar ambientes onde as pessoas querem ficar. Quando essa força encontra interlocução, um par e a oportunidade de ajustar até ficar certo, costuma render bastante. No isolamento, ou onde discordar é proibido, pode perder a referência de que precisa.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se precisamos do outro para saber quem somos, o que acontece quando passamos a concordar por fora e a discordar por dentro? Se nos identificamos com a harmonia, conseguimos dizer de que lado estamos? Se ver os dois lados é a nossa força, quando é que ela passa a servir de desculpa para não ficar de nenhum? Freud, em O Mal-Estar na Civilização, observou que "Nunca estamos tão desprotegidos contra o sofrimento como quando amamos." Quanto do medo de perder o outro entra na conta de cada acordo?
No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. No excesso, a mesma delicadeza pode virar agradar até desaparecer: a paz mantida à custa da própria opinião engolida, o ressentimento guardado, ou uma condução suave das situações, porque pedir diretamente parece rude, e conduzir sem dizer acaba por ser um modo educado de querer controlo. Na deficiência, a relação pode ter desiludido tanto (porque um vínculo importante falhou, porque depender custou caro) que surge a decisão de não precisar de ninguém, uma independência escolhida por medo e uma dificuldade real de aceitar ajuda. São duas expressões da mesma necessidade de relação, e as duas pedem uma forma de vínculo em que ninguém precise de desaparecer. A casa do seu Sol e a posição da sua Vénus ajudam a encontrar essa forma.
Essas questões não significam que todo Sol em Balança viva tais conflitos. Uma posição astrológica, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. Elas são caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos do Sol e de Balança. Em vez de afirmar que alguém é necessariamente indeciso, dependente ou interesseiro, podemos investigar a relação entre identidade, encontro e justiça.
Essas faces mostram-se de modos diferentes em cada mapa. O que muda é o resto do desenho: a casa onde o Sol está, o lugar de Vénus e o que a Lua pede quando não há ninguém para agradar.
Ver isso no meu mapa, de graçaCom o tempo, essa força costuma descobrir que a própria opinião também é um prato da balança, e muitas vezes o que ensina isso é um acordo que só um dos lados pagou. Há um ritmo astrológico que ajuda a compreender por que razão a pergunta volta: Vénus, a regente de Balança, completa a volta no zodíaco em cerca de um ano, e os ciclos dela são de valor e de vínculo, do que vale e com quem. Comparada com Saturno, que leva perto de trinta anos, recoloca com frequência a mesma pergunta: está a ceder por acordo ou por medo? Endurecer costuma ajudar pouco; o caminho que muitas histórias mostram é incluir-se a si mesmo na conta e dizer em voz alta de que lado se está. Cada mapa e cada história têm o seu tempo para esse amadurecimento.
Para ler o Sol em Balança no seu mapa, vale a pena olhar para o que o acompanha. Se o seu Ascendente for de fogo ou de água (Carneiro e Escorpião são os casos mais visíveis), a mesma diplomacia pode chegar direta ou intensa, e talvez os outros se surpreendam ao descobrir o quanto evita o conflito; o Ascendente em Balança mostra o caso contrário, em que a cordialidade aparece logo à chegada. Se a sua Lua for de fogo (Carneiro, Leão ou Sagitário), a busca de harmonia pode conviver com uma emoção que pede calor e embate, como quem faz a paz e sai da sala irritado consigo; a Lua em Balança é o caso em que as duas coisas pedem o mesmo. Se a sua Vénus estiver em Escorpião ou em Virgem, aquilo a que chama amor pode ser intenso ou exigente, e às vezes surge a sensação de ser complicado demais para o próprio signo; é Vénus que ajuda a entender isso.
A casa do Sol mostra a área da vida em que esse tema se desenvolve: na casa 7, a parceria pode ocupar o centro da vida; na casa 10, a mediação pode tornar-se profissão. Os aspetos também contam. Uma quadratura de Marte ao Sol, por exemplo, pode trazer uma briga interna entre querer e agradar, e a sensação de ser contraditório. O mapa é um sistema, e cada peça muda as outras, por isso duas pessoas com o Sol em Balança podem viver essa posição de modos tão diferentes.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Não faz diagnóstico, não decide por si e não ocupa o lugar de um acompanhamento de saúde quando ele é necessário.
Se quiser fazer essa investigação no seu próprio desenho, o Mapa astral completo lê o Sol junto com Vénus, a Lua, o Ascendente, as casas e os aspetos, peça por peça. O Mapa do amor acompanha o modo como se relaciona e o que procura no outro, e a Sinastria amorosa: compatibilidade do casal põe os dois mapas lado a lado, que é o lugar onde este signo costuma reconhecer-se.
A pergunta que fica é: quando pesa os dois lados, onde está o seu?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o Sol em Balança:
Sol em Balança é o mesmo que ser do signo de Balança? Sim. Na conversa do dia a dia, "signo" quer dizer o signo do Sol. Dizer "Sol em Balança" ajuda a diferenciar do Ascendente e da Lua, que também ocupam signos no seu mapa e quase nunca o mesmo.
Por que Balança é tão indeciso? Porque costuma enxergar os dois lados com o mesmo peso, e essa é a competência do signo. A demora torna-se problema quando ver os dois lados passa a servir de desculpa para não ficar de nenhum. A pergunta que costuma desbloquear é de que lado quer estar.
Sol em Balança precisa de um relacionamento para ser feliz? Precisa de relação, que é diferente de namoro. O espelho pode ser uma sociedade, uma amizade longa, uma parceria de trabalho. O que costuma pesar para essa posição é o isolamento, e confundir isso com a obrigação de estar acompanhado já levou muita gente a aceitar má companhia.
Nasci na virada de setembro para outubro. Como sei se o meu Sol é de Balança ou de Virgem? Calculando o mapa. O Sol muda de signo num instante exato, que varia de um ano para outro, e as tabelas de revista arredondam para o dia. Com data, hora e cidade de nascimento, a dúvida resolve-se.
O Sol em Balança define a minha personalidade? Oferece um tema. A personalidade desenha-se no conjunto: o Sol, a Lua, o Ascendente, os planetas, as casas e os aspetos entre eles.
Em resumo, o Sol em Balança pode ser lido como a construção de si pela relação: a identidade que se descobre no encontro, a capacidade de ver os dois lados e o convite a incluir a própria voz na balança. O resto do mapa, principalmente Vénus, mostra o que procura no outro.
Palavras-chave relação, medida, cortesia, indecisão
Uma última coisa: as datas de cada signo variam de ano para ano. O Sol muda de signo num instante exato, que não é o mesmo em todo calendário, quem nasceu na virada de um signo para o outro só descobre o próprio Sol calculando o mapa com data, hora e cidade. Dá para calcular de graça aqui.
O Sol nos 12 signos
O Sol nas 12 casas
O signo diz como; a casa diz onde. É a peça que mais depende da hora exata de nascimento.
Mercúrio nos 12 signos
O seu Mercúrio está no signo do seu Sol, no anterior ou no seguinte, e é ele que explica por que duas pessoas do mesmo signo pensam tão diferente.
Vénus nos 12 signos
O seu Vénus está no signo do seu Sol, nos dois anteriores ou nos dois seguintes, e é ele que explica por que duas pessoas do mesmo signo amam tão diferente.
