
Ter o Ascendente em Aquário pode ser lido como uma chegada cordial e a uma certa distância: a porta é simpática e impessoal no mesmo gesto. Na astrologia, o Ascendente está associado à maneira como se entra num lugar, à primeira impressão e à reação automática perante gente nova. É a peça do mapa que os outros conhecem primeiro. Aquário, por sua vez, é tradicionalmente relacionado com o coletivo, a liberdade, a invenção e o que foge ao molde. Quando interpretamos o Ascendente em Aquário, aproximamos esses dois campos simbólicos: a porta pela qual se aparece e um modo de tratar bem sem se aproximar.
O Ascendente é o signo que subia no horizonte leste no instante do seu nascimento. Na astrologia helenística, chamava-se horoskopos, "o que observa a hora", e foi daí que veio a palavra horóscopo. O nome guarda o essencial: o Ascendente muda de signo a cada duas horas, mais ou menos, e só se calcula com data, hora e cidade de nascimento. É dele que partem as doze casas, por isso um Ascendente errado desloca o mapa inteiro. O aguadeiro do céu, por sua vez, é uma figura que despeja água de um jarro, uma imagem que já aparece na Mesopotâmia ligada à estação das chuvas. No mito grego, foi associado a Ganimedes, o jovem levado ao Olimpo para servir a bebida dos deuses, alguém tirado do seu lugar de origem e posto num lugar que não era o dele.
O símbolo de Aquário diz bastante. É de ar, o elemento associado ao pensamento e à relação, e fixo, a qualidade dos signos que mantêm a estação já instalada: conservam, e aqui o que se conserva é uma ideia. O glifo ♒ costuma ser lido como duas linhas onduladas, água em movimento ou uma corrente que passa. Os regentes são dois: Urano, na leitura moderna, e Saturno, na tradição. O regente do Ascendente é lido como o regente do mapa inteiro, e com o Ascendente em Aquário vale olhar para os dois: Saturno ajuda a entender a formalidade e a reserva da porta; Urano, o choque e a diferença. Saber que Saturno está ali muda bastante a leitura, porque desmente o rótulo de caos: este Ascendente costuma ser bem-educado no gesto e radical na ideia.
Uma maneira de investigar essa combinação é pensar na relação entre cordialidade e proximidade. Há quem trate toda a gente da mesma maneira, do porteiro ao chefe, faça a pergunta que ninguém faria sem constrangimento nenhum e, quando a sala inteira se comove, observe. Alguém pode sair de um primeiro encontro deixando a impressão de ter sido ótima companhia, e os outros, no caminho de casa, perceberem que não conseguem dizer nada de concreto sobre si. Pode também haver algo na aparência, no modo de falar ou na roupa que não segue o padrão do grupo, e a sala perceber isso em segundos. Uma leitura possível é que essa porta é lida como diferente antes de fazer qualquer coisa diferente, e que acaba por ser posto no lugar do estranho sem se ter candidatado. Há ainda uma distinção útil: cordialidade e disponibilidade são escalas diferentes, e é por isso que se consegue ajudar um desconhecido de bom grado e desaparecer por três semanas para quem é próximo.
A pergunta humana que mora em Aquário talvez seja esta: o que é ser livre no meio dos outros, e o que devemos ao grupo a que pertencemos? Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, escreveu: "O homem está condenado a ser livre." Pensada a partir do Ascendente em Aquário, a frase ajuda a entender uma porta que não aceita o molde pronto e paga o preço de inventar o próprio. José Ortega y Gasset, nas Meditações do Quixote, lembrou o outro lado: "Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo eu." A diferença que se afirma também precisa de um lugar entre os outros, e a liberdade desta porta talvez se complete quando encontra gente com quem pode ser diferente junto.
Quando essa força encontra o lugar certo, costuma aparecer como liberdade dada aos outros: perto de alguém com esta posição, ninguém precisa de se explicar. Podemos pensar nessa luz como trânsito horizontal entre grupos que não se falam, com aceitação em todos, como uma cabeça que vê o arranjo inteiro, útil quando o problema é de sistema, e como calma perante o diferente, a primeira a tratar com naturalidade quem a sala está a estranhar. Tende a render bem em trabalhos coletivos, em causas, em tecnologia e onde pensar fora do combinado tem valor. Em ambientes de intimidade obrigatória, de demonstração de emoção, ou onde ser igual aos outros é condição de entrada, pode isolar-se.
Existe, porém, uma tensão nessa relação. Se tratamos todos da mesma maneira, como é que alguém sabe que é especial para nós? Se nos reconhecemos na diferença, conseguimos distinguir quando ela é um facto e quando se tornou posição? E se o lugar de estranho pesou demais, quanto de nós escondemos para parecermos comuns?
No Método Shelly, cada posição é lida por quatro faces: a luz, a sombra, o excesso e a deficiência. No excesso, a igualdade torna-se regra: se todos estão à mesma distância, ninguém fica a saber que é importante, e pode-se ser atencioso com estranhos e distraído com quem se ama sem perceber o desequilíbrio. Pode aparecer também como diferença cultivada, em que não pertencer deixa de ser um facto e passa a ser bandeira, e como frieza na hora errada: no velório, na crise, no dia em que alguém precisava de uma mão e recebeu análise. Aristóteles observou, na Política, que "Aquilo que é comum ao maior número recebe o mínimo de cuidado." A frase fala de bens públicos, e serve como imagem para o afeto distribuído por igual a todos. Na deficiência, o caminho é o contrário. Alguém que achou o lugar do estranho insuportável pode ter construído uma porta de conformidade: veste o que a sala veste, ri do que a sala ri, esconde tudo o que é fora do molde. Por fora, parece perfeitamente comum; por dentro, há a sensação de estar a fingir e o cansaço de se traduzir a si mesmo o dia inteiro. As duas faces pedem o mesmo: uma diferença que encontre gente, escolhendo poucos e chegando perto a sério, e a posição de Urano e de Saturno ajuda a ver como.
Essas questões não significam que todo o Ascendente em Aquário viva tais conflitos. Uma posição astrológica, isoladamente, não permite afirmar isso sobre ninguém. São caminhos de investigação que nascem do encontro entre os significados simbólicos do Ascendente e de Aquário. Em vez de afirmar que alguém é frio ou esnobe, dois rótulos que esta posição costuma carregar, podemos investigar a relação entre liberdade, diferença e pertença.
Essas faces aparecem de modos diferentes em cada mapa com o Ascendente em Aquário. O que muda é o resto do desenho: onde Urano e Saturno estão, que aspetos recebem e o que o Sol e a Lua pedem por dentro.
Ver isso no meu mapa, de graçaCom o tempo, muita gente com esta posição descobre que tratar toda a gente por igual pode ser uma forma de não escolher, e essa descoberta costuma valer mais que qualquer esforço para ser mais caloroso, que quase sempre termina na conformidade descrita acima. Há um ritmo astrológico que ajuda a compreender o arco, e é o de Urano: o regente moderno deste mapa passa cerca de sete anos em cada signo. Para esta posição, isso pode aparecer como uma viragem periódica na própria apresentação, o corte de cabelo, a cidade, o ofício, o grupo de amigos; de fora parece súbito, e os outros dizem “mudou”, enquanto de dentro a mudança estava atrasada. A maturidade, aqui, pode ser pensada como ter graus de proximidade: alguém mais perto do que os demais, e quem está mais perto a sabê-lo. Continuar a chegar cordial e passar a deixar alguém entrar costuma ser o que transforma estranhamento em pertença sem perda de si. Cada mapa e cada história têm o seu tempo para isso, e nenhuma idade vale para todos.
Para ler o Ascendente em Aquário no seu mapa, vale lembrar que ele fala da maneira como se entra e diz pouco do lado de dentro, e é por isso que engana tanto. Se o seu Sol for de água (Caranguejo, Escorpião ou Peixes), pode chegar impessoal e viver com envolvimento total, ser lido como desapegado e apegar-se por inteiro, e sofrer em relações em que acreditaram só na porta; o Sol em Aquário mostra o caso em que a chegada e a identidade apontam para o mesmo lado. Se a sua Lua for de água ou de terra, a porta pode ser distante e o lado de dentro precisar de vínculo e de rotina, e talvez os outros presumam que não se importa, quando se importa e não consegue demonstrá-lo à velocidade que esperam; a Lua em Aquário ajuda a ver o contraste.
E há Urano e Saturno, que neste caso são os regentes do seu mapa. Urano mostra onde se rompe e surpreende; Saturno, onde se constrói e se contém. Quando os dois se contradizem no mapa, pode surgir a sensação de ser conservador e revolucionário na mesma semana, e uma leitura possível é que isso é o retrato completo, sem confusão nenhuma. Os aspetos também contam: Urano em aspeto duro com o Sol ou com a Lua pode transformar a diferença em sobressalto, e alguém sai das relações antes de ser deixado. O mapa é um sistema, e cada peça altera as outras, por isso duas pessoas com o mesmo Ascendente podem não se parecer em nada.
A astrologia oferece um vocabulário simbólico para pensar a própria experiência. Não faz diagnóstico, não decide por si e não ocupa o lugar de um acompanhamento de saúde quando ele é necessário.
Se quiser investigar essa porta no seu próprio desenho, a leitura Personalidade e essência olha a chegada e o lado de dentro lado a lado, o que nesta posição costuma desfazer muitos mal-entendidos. O Propósito de vida ajuda a pensar a que causa essa diferença quer servir, e a Mapa vocacional acompanha os lugares onde pensar fora do combinado pode tornar-se ofício.
A pergunta que fica é: quem, na sua vida, sabe que está mais perto de si do que os outros?
Algumas perguntas que costumam chegar sobre o Ascendente em Aquário:
Preciso da hora e da cidade para saber o meu Ascendente? Precisa das duas. O Ascendente muda de signo a cada duas horas, mais ou menos, e o cálculo depende da latitude da cidade onde nasceu. Não existe Ascendente aproximado pela data: com a hora errada em duas horas, o signo já pode ser outro, e as doze casas do mapa mudam de lugar com ele.
Por que me chamam de diferente se não fiz nada? Porque a porta pode ser lida como fora do molde antes de qualquer ação. Alguma coisa na apresentação não bate com o padrão da sala, e a sala percebe em segundos. Foi posto no lugar do estranho sem se candidatar, e talvez seja por isso que “é diferente” nunca soe como elogio nem como explicação.
Ascendente em Aquário é frio? É cordial e distante ao mesmo tempo, e essas duas coisas juntas confundem. O que essa posição sugere é uma porta que trata bem sem se aproximar. Pode tornar-se frieza de facto quando a distância é a mesma para todos, porque aí quem o ama não tem como saber que é especial.
Por que eu sou atenciosa com estranhos e sumida com quem amo? Porque cordialidade e disponibilidade podem ser escalas diferentes nesta posição. Ajudar um desconhecido custa pouco: começa e termina. Estar perto de quem ama exige presença continuada, e é isso que consome. O que costuma faltar é graduação, e a graduação aprende-se a dizer a quem é próximo que é próximo.
O Ascendente em Aquário define a minha personalidade? Oferece a chegada. A personalidade desenha-se no conjunto: o Sol, a Lua, o Ascendente, os planetas, as casas e os aspetos entre eles. Ler a personalidade só pelo Ascendente seria descrever a porta e chamar-lhe casa.
Em resumo, o Ascendente em Aquário pode ser lido como uma chegada cordial, original e a uma certa distância, lida como diferente antes de agir, e como o convite a ter graus de proximidade e deixar alguém entrar. Urano e Saturno, os regentes do seu mapa, mostram onde essa porta rompe e onde constrói.
Palavras-chave originalidade, cordialidade, distância, estranhamento
Este é o mais dependente de todos: o Ascendente muda de signo a cada duas horas, aproximadamente, e depende também da CIDADE onde nasceu. Errar a hora em noventa minutos costuma trocar o Ascendente inteiro. Sem hora e local exatos, não há Ascendente, só chute. Dá para calcular de graça aqui.
